Fora da economia, a atracção “formal” da IL pela esquerda é tão intensa e bizarra quanto a repulsa que a direita lhe suscita. A crônica semanal de Alberto Gonçalves no Observador:
A
Iniciativa Liberal (IL) quer que os seus deputados se sentem entre os
deputados do PS e os deputados do PSD, ou, nas próprias palavras, no
lugar “mais distante dos extremos”. Decorrem daqui várias coisas
curiosas. Uma delas é que a IL se considera um partido do centro
político. Outra é que a IL considera que o PS é um partido politicamente
contíguo. Outra ainda é que a IL vive obcecada com o Chega.
A
obsessão com o Chega não é novidade nem é razoável. Há pelo menos dois
anos que, em aparente obediência aos interesses do dr. Costa, do PS e da
esquerda em geral, a IL gasta boa parte do seu tempo a demarcar-se do
dr. Ventura. Com cansativa regularidade, os seus dirigentes aparecem a
traçar “linhas vermelhas” face à extrema-direita, exactamente conforme a
extrema-esquerda decretou ser o correcto. Não era necessário. Toda a
gente sabe que a IL não defende a castração química dos pedófilos ou a
prisão perpétua de não sei de quem. Toda a gente sabe que o programa da
IL defende sobretudo o desafogo económico que o país não tem. A IL é que
às vezes finge não saber que o nosso atraso não é culpa do Chega, que
não manda ou mandou, e sim do PS, que mandou, manda e mandará o bastante
para nos afocinhar nesta pobreza mansa.
Num
mundo ideal, o PS seria o extremo do qual a IL guardaria máxima
distância, o inimigo. No mundo real, o PS é o inimigo, da IL e de todos
os portugueses que não acreditam na estatização da sociedade enquanto
instrumento de uma vida melhor. Muitos desses portugueses votaram
recentemente na IL. Imagino que poucos o tenham feito para derrotar o
Chega. Não posso falar pelos 275 mil eleitores. Falo por um, que
escolheu a IL por achar que, na essência, o seu discurso é o que temos
de mais avesso ao intervencionismo que nos desgraça. Esse particular
eleitor gostaria que a IL fosse coerente com a aversão.
Do
que não gosto é que a IL se justifique com o exemplo do Parlamento
Europeu e de uns parlamentos na Europa, onde os liberais ficam de facto
ensanduichados no meio dos assentos. A IL só não diz, embora não o
ignore, que o centro das assembleias em questão corresponde, grosso
modo, a um centro ideológico, seja lá o que isso for. E que, numa
democracia comum, o centro da nossa AR estaria na pontinha mais à
esquerda, se calhar com umas cadeiras vazias de intervalo para efeitos
de clarificação. Por razões que não vale a pena explicitar, a ortodoxia
caseira possui um bolor marxista: o socialismo é a regra, e as regras
são definidas por socialistas. Não votei na IL para vê-la aceitar
semelhante jogo.
Não
me refiro apenas à economia. Na economia, é razoavelmente evidente que a
IL está nos antípodas do PS (e é razoavelmente obscuro discernir em
tais matérias o lugar do Chega, cujos representantes, a avaliar pelo
ocasional patriotismo em volta da TAP e buracos similares, em certos
dias talvez pudessem sentar-se ao colo do PS). A chatice é que, fora da
economia, a atracção “formal” da IL pela esquerda é tão intensa e
bizarra quanto a repulsa que a direita lhe suscita.
Motivos
insondáveis levaram a IL a enfiar na cabeça que a alternativa ao
conservadorismo nos costumes passa por partilhar as “causas” do BE e
afins, que num monumento à ingenuidade a IL toma por “progressistas”.
Infelizmente, as políticas “identitárias” da extrema-esquerda são menos
progressistas que a mumificação de cadáveres. Os liberais deviam
compreender que não é liberal amontoar indivíduos sob critérios
fortuitos, da “raça” ao sexo: o exercício limita-se a servir o chinfrim
público e, se correr bem, a dissensão social. Combater o Estado não é
convocá-lo para regulamentar ou legitimar as preferências ou
características de cada um. Assim de repente, julgo que é justamente o
contrário.
Não
me entendam mal. Sem excessiva proximidade, conheço óptimas pessoas na
IL, algumas com responsabilidades lá dentro. Não me ocorre nenhuma que,
isoladamente, discorde do que escrevi acima. Juntas em agremiação,
porém, dá-se por ali uma névoa qualquer que lhes amolece as convicções e
as torna erráticas – logo inúteis. A “pandemia”, ou os abusos cometidos
a propósito, é ilustrativa: porque é que a atitude da IL, que
naturalmente reparou nos abusos, oscilou entre a condenação e o
silêncio? Porque é que a IL gastou uma campanha sem tocar nas feridas
civilizacionais que a “pandemia” abriu? Porque é que os liberais não
resistiram nitidamente à humilhação?
Não
é preciso responderem. Admito que temperar o que se pensa com o pudor
do que se diz dê votos imediatos. O problema é que, a prazo, também os
tira. O CDS morreu. O PSD entrou em coma prolongado. E chega do Chega.
De agora em diante, a IL possui um vastíssimo espaço para se espraiar. E
é um espaço à direita, gostem ou não da palavra, gostem ou não do
lugar. A IL não é obrigada a afirmar-se “de direita”, mas convinha-lhe
não a repelir. O centro é do PS. A esquerda é das duas ou três seitas
leninistas (por caridade, incluo o dr. Tavares). O que sobra está à
disposição de um partido capaz de convencer os portugueses que apreciam a
liberdade. São um número restrito? São a audiência potencial da IL, que
arrisca perdê-la se tentar convencer os portugueses que abominam a
liberdade. Em suma, a IL ou é liberal em tudo ou não é liberal para
nada.
Após
tomarem posse, os deputados da IL têm quatro anos e tal para mostrar o
que valem. Até lá, têm um mês para matutar no que querem valer. É melhor
esperarem sentados. Resta decidirem onde.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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