As relações entre pessoas são marcadas pela demanda de 'high performance' e sucesso. Luiz Felipe Pondé via FSP:
"De repente, tornou-se indiferente pra mim não ser moderno", disse Roland Barthes
(1915-1980). Que libertação! Chega a hora em que devemos investir num
gesto de fôlego: encontrar nosso lugar no mundo. O culto à modernidade é
uma prisão.
E
se essa indiferença for, hoje, um gesto de recusa displicente ao
ridículo da fé moderna? Falarei de duas formas sobre esse culto moderno:
a fé em si mesmo e a fé no progresso.
A indiferença sem objeto pode nos levar à ideia de um estado místico ou simplesmente à ideia de um estado de alienação completa em relação ao mundo. Não é dessa indiferença sobre a qual falo.
Em
termos contemporâneos, arriscaria dizer, com razoável consistência, que
a indiferença em relação ao apego à modernidade —apego este tão
ridiculamente cantado em prosa e verso pela Semana de Arte Moderna de 1922 e seu umbigo futurista— significa uma diminuição do nível de ansiedade.
E
para tal, se existir algum princípio passível de ser enunciado, ele
seria o seguinte: desista de controlar todas as coisas e desista de ter
sucesso.
Ou
uma máxima derivada diretamente da anterior. Desista do
autoconhecimento como chave do sucesso. A submissão da ideia de
autoconhecimento ao conceito de sucesso é uma das chaves da falácia da
cultura contemporânea.
Como alguém pode enunciar um princípio tão ousado na era do BBB
como paradigma do coaching emocional? Em breve, não existirá mais muita
diferença entre a psicologia e o marketing, seja este de teor
ideológico, seja este focado no modelo do Linkedin.
Feita
tal digressão, com a intenção expressa de indicar que a indiferença em
relação à modernidade passa necessariamente pela desistência do sucesso e
pela aceitação do fracasso do controle métrico sobre as coisas, nos
indaguemos agora qual seria a fé na modernidade. Essa fé pode se
apresentar de várias formas.
Não
se trata de fazer uma defesa do retorno à vida natural. Nunca há
retorno, a menos que acontecesse uma destruição radical das condições
materiais que possibilitam a vida moderna —o que, em sã consciência,
ninguém deseja.
A
indiferença em relação à modernidade se refere à recusa do ato de fé em
si, atribuído à máquina social moderna de mundo, vista como um bem em
movimento acumulativo de felicidades.
A
obra do sociólogo francês Alain Ehrenberg, no meu entender, aponta para
um dos tipos de crise de fé na máquina social moderna e ilumina uma das
formas referidas acima. No seu livro "La Fatigue d’Être Soi: Dépression
et Société", Ehrenberg indica um dos equívocos dos modos de regulação
da vida na sociedade moderna.
O
contemporâneo nos chama a sermos indivíduos autônomos e responsáveis
por nossas vidas, numa espiral acelerada. Nesse cenário, as relações
entre as pessoas são marcadas pela demanda, cada mais alta, de "high
performance" e sucesso.
Ehrenberg
definirá a depressão de caráter social como, justamente, o reverso
desse desempenho. Nós fracassamos necessariamente em nos tornarmos esses
indivíduos autônomos e responsáveis.
A
expressão que o sociólogo usa é "insuficiente" —e aqui ele recolhe a
grande tradição agostiniana do século 17 francês. O ser humano é
insuficiente para enfrentar o mundo. Sempre, em todas as vezes.
Na
modernidade, passamos a acreditar que, inclusive pelos psicofármacos,
pela educação e pela psicologia, poderíamos chegar à "high performance",
cheios de felicidades e de sucessos.
Essa ideia de acúmulo de sucessos e felicidades nos leva a outra face da fé moderna: a fé no progresso. Em 1937, Robert Musil
(1880-1942) proferiu uma conferência em Viena, em que ele chamava a
atenção para o risco presente no progresso, na medida em que este
carrega em si uma grande semelhança com a estupidez.
Essa
conferência, intitulada "Sobre a Estupidez", está publicada no Brasil
pela editora Âyiné. Nela, Musil falava, já em 1937, que, como tínhamos
acumulado muito progresso até então, o risco de aumento da estupidez era
imenso.
De
lá para cá, o progresso só aumentou. Basta olhar o mundo corporativo
para ver como a estupidez e o progresso sempre se dão muito bem.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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