Em 1971 a China e os EUA tinham um inimigo comum que era a URSS. Em 2020 os dois aliados são a China e a Rússia e o inimigo os EUA. O equilíbrio de poder alterou-se porque a realidade mudou. André Abrantes Amaral para o Observador:
Quando
se deslocou à China para conversar com Mao, Kissinger deu iniciou ao
que ficou conhecido por ‘triângulo diplomático’. Através deste os EUA
falavam com Moscovo e Pequim e os dirigentes dos dois países comunistas
competiam entre si pela preferência de Washington. O feito permitiu que
os EUA tivessem uma visão mais correcta das diferenças entre os dois
regimes comunistas. Ajudou a que fossem mais assertivos na prossecução
da sua política externa. Acima de tudo evitou erros futuros como o da
guerra no Vietname. Foi este reposicionamento diplomático que ajudou a
que a derrocada comunista ocorresse na década seguinte.
Foi
também esta vantagem geoestratégica que os EUA (e o Ocidente) perderam
neste mês de Fevereiro. Já se sabia que o entendimento entre Putin e Xi
Jinping se aprofundou no decorrer dos últimos anos, mas ainda não
surgira uma oportunidade para este se tornar tão evidente. Em Janeiro, o
ministro dos negócios estrangeiros chinês, Wang Yi, declarou que as
preocupações russas com a sua segurança eram legítimas. Mais tarde
discordou dos EUA quando os norte-americanos afirmaram que os russos
estavam a pôr em causa a segurança internacional. Ainda esta semana o
embaixador da China nas Nações Unidas acusou os norte-americanos de
alimentarem as tensões na Ucrânia e que os planos da NATO ‘vão contra a
nossa época’.
Em
1971 a China e os EUA tinham um inimigo comum que era a URSS. Em 2020
os dois aliados são a China e a Rússia e o inimigo são os EUA. Esta
importante alteração do equilíbrio internacional não surgiu apenas
devido aos erros dos norte-americanos e europeus. Estes existiram, é
certo, e o alargamento a leste da NATO e da UE não teve em conta
realidades geoestratégicas que não se apagam de um dia para o outro. Em
1989 Kissinger propôs a George Bush um plano de liberalização da Europa
de Leste que não explorasse nem ferisse a segurança soviética. Esse
plano não foi aceite porque Kissinger fizera das suas a Bush e este
tinha contas a ajustar com Kissinger. Mas também devido à derrocada
repentina da URSS que surpreendeu até os ocidentais mais informados. O
que não devemos esquecer é que há outras realidades a ter em conta, como
a geografia, a história e as esferas de influência de cada potência. A
força que cada potência projecta para fora das suas fronteiras
independentemente das vontades em sentido contrário.
Esta
alteração internacional ocorreu porque a URSS caiu. Outra razão foi o
desenvolvimento da China que a permitiu tornar-se numa potência que se
quer expandir. Neste ponto o confronto com os EUA é perfeitamente
natural. No final do século XX os EUA tornaram-se numa potência de tal
forma poderosa que China e Rússia perceberam que tinham de se entender
para construírem um novo equilíbrio. Na década de 70 China e URSS
suspeitavam mais um do outro que dos EUA. Actualmente os EUA passaram
ser o inimigo comum da China e da Rússia.
A
crise da Ucrânia deve ser lida de acordo com esta nova realidade. Tal
como a possível futura invasão de Taiwan pela China. Independentemente
da repugnância que o regime e os métodos de Putin nos provoquem, o papel
dos governos ocidentais não é o de simplesmente se indignarem mas, de
forma pragmática, se prepararem para o que aí vem. O que é que o
Ocidente deve fazer para perder o mínimo possível com a ascensão da
China e da Rússia? Como é que os países ocidentais se devem posicionar e
o que devem fazer para ganharem margem de manobra, dependerem o menos
possível da China e da Rússia? São estas as questões que devem ser
analisadas.
Quando
foi a Pequim em 1971 Kissinger fez uma viagem que muitos há muito
desejavam. Esta ainda não tivera lugar porque os motivos e a
oportunidade só se juntaram naquele ano. Os equilíbrios de poder
fazem-se e desfazem-se. Por vezes levam muito anos para mudar. O
importante é que os governos estejam prontos para agirem logo que a
oportunidade surja.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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