Injustificável em relação aos interesses do País, a viagem é explicável pelos interesses eleitorais do clã Bolsonaro. Editorial do Estadão:
A
viagem do presidente Jair Bolsonaro à Rússia e à Hungria terminou sem
compromissos, acordos ou alianças relevantes, enfim, sem qualquer ganho
palpável aos interesses nacionais. O consolo é que, dado o histórico de
trapalhadas do presidente, a coisa poderia ter sido pior.
Se
os interesses do Brasil com a Hungria são inócuos, a Rússia fornece
fertilizantes para o agronegócio e tem empresas relevantes na área de
energia. Além disso, integra o Brics, é um polo tecnológico e uma
superpotência militar, membro permanente do Conselho de Segurança da
ONU, com capacidade de facilitar as pretensões do Brasil. Em tempos
normais, portanto, não haveria inconveniente no encontro entre os
líderes russo e brasileiro. Mas estes não são tempos normais nem esse é
um governo normal.
O
encontro, é verdade, foi marcado antes da crise com a Ucrânia. Mas
quando as hostilidades começaram, em novembro, havia tempo para manejar
sem atritos um adiamento e evitar o risco de um presidente brasileiro
assistir de um camarote russo à invasão. Se nas últimas semanas não
havia essa margem e, por sorte, a invasão não aconteceu, nem por isso o
Brasil foi poupado de constrangimentos. Nas declarações oficiais,
Bolsonaro fez acenos genéricos à paz. Mas, falando no improviso,
corroborou um recuo russo – negado pela Otan –, chegando a insinuar que
poderia ter sido por sua influência. Pior: declarou que o Brasil é
“solidário” à Rússia – que, sem entrar no mérito da disputa, é o país
agressor, não o agredido.
Mas
a viagem não foi só inadvertidamente inoportuna, como previsivelmente
contraproducente. Reza o bê-á-bá da diplomacia que um chefe de Estado
não viaja para negociar acordos, só para fechá-los ou destravar
impasses. Mas nada disso, nem sequer uma negociação, estava na pauta. A
nota do Itamaraty expõe essa vacuidade.
Encontros
protocolares e pragmaticamente inócuos são justificáveis na rotina das
relações com parceiros relevantes. Mas, para que a justificativa seja
válida, é preciso que haja essa rotina. Porém a única diretriz palpável
da política externa de Bolsonaro foi a bajulação do ex-presidente
americano Donald Trump. Fora isso, não houve nenhum compromisso
bilateral relevante. Nos fóruns internacionais, limitou-se a
propagandear realizações fictícias de seu governo e, em vez de criar
laços com outras lideranças, preferiu conversar com garçons e insultar
chefes de Estado, como a chanceler da Alemanha ou o presidente da
França. Mais grave foi a hostilidade intempestiva a parceiros comerciais
como a China, o maior de todos, ou à Argentina, o maior comprador da
indústria nacional.
Quanto
à questão mais sensível para a comunidade internacional, a ambiental,
Bolsonaro só ofereceu desídia e escárnio, chegando a ameaçar retaliar
com “pólvora” uma delirante invasão da Amazônia pelos EUA. Na pandemia,
consagrou-se como o líder negacionista par excellence. Ao estreitar
laços com dois nacionalistas autoritários como Vladimir Putin e Viktor
Orbán, Bolsonaro só acentuou o isolamento em que enfiou o Brasil.
Injustificável
em relação aos interesses do País, a viagem é explicável pelos
interesses eleitorais do clã Bolsonaro. Tanto que o presidente, que se
especializou em ridicularizar os protocolos sanitários no Brasil, se
submeteu a uma humilhante bateria de testagens só para garantir uma foto
ao lado do ditador russo. O vereador Carlos Bolsonaro, coordenador das
virulentas redes sociais do pai, teve lugar de destaque na delegação
presidencial, e certamente não era para negociar fertilizantes.
Na
falta de algo mais elevado, a militância bolsonarista se refestela com a
foto em que Bolsonaro aparece mais alto do que Putin. Felizmente, a sua
minúscula estatura como estadista permitiu que a visita inoportuna
passasse despercebida aos olhos da comunidade internacional. Mas isso é
já um sintoma do apequenamento a que ele submete o Brasil. Em outros
tempos, o País seria encarado como um ator diplomático relevante; hoje,
com Bolsonaro, é só digno de dó.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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