"O mundo de sempre", coluna de William Waack para o Estadão:
O que Vladimir Putin
está fazendo com a Ucrânia equivale a um choque elétrico em quem pensa e
acompanha relações internacionais. Cobri para o Estadão a queda do Muro
de Berlim, em 1989, e confesso que também fui contagiado pelo
sentimento geral de que ali nascia um “mundo melhor”.
Era
entendido como um mundo no qual não mais se tolerariam mudanças de
fronteiras pelo emprego da força bruta, e no qual os Estados teriam
soberania para fazer escolhas. A esse “mundo melhor” o fotógrafo Hélio
Campos Mello e eu assistimos na linha de frente quando ampla coligação
internacional, apoiada inclusive por Moscou e comandada pelos
americanos, expulsou em 1991 do Kuwait o exército invasor do ditador
iraquiano Saddam Hussein.
Seria
o tal “fim da História”, ou a predominância de um sistema internacional
que coroava a ordem liberal liderada pelos Estados Unidos desde 1945.
No fundo, nossas vidas de repórteres empolgados com a ação, as violentas
emoções e nossas experiências de combate em primeira mão acabaram
tornando difícil entender qual mundo ali na verdade continuava.
De
Tucídides (Guerra do Peloponeso, 411 a.C.) a Hans Morgenthau (Politics
Among Nations”, 1949), o pai da moderna disciplina das relações
internacionais é o mundo descrito pelas relações de poder e emprego de
força entre as potências. Para adeptos da escola do hiper-realismo, como
Henry Kissinger, não existe outra coisa entre países senão o desejo por
segurança e, em consequência, a luta pelo poder.
Nesse
sentido, importam pouco sistema econômico, crenças religiosas ou
filosofias políticas e ideológicas de cada potência – mas, sim, seu
“interesse nacional”, subordinado, em primeiro lugar, à segurança.
Note-se que é exatamente esse conceito, o da “segurança indivisível”,
que os russos estão colocando em primeiro plano nas negociações em torno
da crise da Ucrânia.
Não
é à toa que se “desenterrou” artigo de Kissinger de 2014 no qual ele já
antecipava que a solução da crise da Ucrânia é a submissão (gostem os
ucranianos ou não) desse país a um estado de “neutralidade” imposto pela
Rússia. E foi tão lido o artigo da semana passada do historiador Noah
Harari, segundo o qual a crise da Ucrânia levanta como questão central
saber se as relações internacionais evoluem para evitar (e não viver de)
guerras.
É
uma pergunta crucial cuja resposta vai sair da maneira como China (e
Rússia) vão moldar a ordem internacional na qual os Estados Unidos não
mandam mais sozinhos. A História humana é a da mudança para melhor
(Harari) ou a da inevitabilidade da tragédia (Kissinger)? Até aqui, os
fatos estão dando razão a Kissinger.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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