Sem liberdade econômica não há como um país aproveitar ao máximo todo o potencial de seu povo; a geração de emprego e riqueza é sufocada. Editorial da Gazeta do Povo:
As
dificuldades de fazer do Brasil uma economia mais livre ficaram
evidenciadas na nova edição do Índice de Liberdade Econômica da Heritage
Foundation (e publicado no Brasil graças a uma parceria entre a Gazeta
do Povo e o Instituto Monte Castelo), que acaba de ser divulgado. O país
avançou dez posições, saltando do 143.º para o 133.º lugar, mas em
termos absolutos sua nota piorou 0,1 ponto, em uma gradação que vai de
zero a 100 – ou seja, o Brasil só subiu no ranking porque outras nações
restringiram ainda mais suas economias. O estudo, que cobre o segundo
semestre de 2020 e o primeiro semestre de 2021 (um ano inteiro sob o
efeito da pandemia de Covid-19, portanto), mostra onde o Brasil falhou,
onde avançou e o que precisa ser feito se quisermos encerrar 2022 mais
próximos de um objetivo importante traçado pelo governo federal em 2019:
colocar o país entre os líderes em liberdade econômica e facilidade de
fazer negócios.
Dos
12 itens medidos pela Heritage Foundation, o país avançou em quatro:
efetividade judicial e os três pontos do grupo “eficiência regulatória”:
liberdade de negócio, liberdade de trabalho e liberdade monetária.
Segundo os autores do índice, o país está colhendo os frutos da Lei de
Liberdade Econômica, de 2019, que nasceu como medida provisória e foi
aprovada pelo Congresso Nacional, e só não evoluiu mais porque os
esforços do governo federal para desengessar ainda mais a legislação
trabalhista, dando sequência à reforma de 2017, foram emperrados pela
pandemia. Chama a atenção o fato de o país ter melhorado sua nota em
liberdade de negócio apesar de todo o “fecha tudo” adotado por
governadores e prefeitos, e que não poucas vezes resultaram em
verdadeiros abusos. Felizmente, neste campo há uma tendência de melhora
futura, já que o Brasil tem aprovado novos marcos regulatórios – do
saneamento básico, da navegação de cabotagem, das ferrovias, de câmbio
–, cujos efeitos só aparecerão nas próximas edições do índice.
Assim
como também só entrarão em futuras estatísticas as medidas mais
problemáticas que vêm sendo adotadas por governo federal e Congresso
Nacional. É verdade que a nota brasileira de “saúde fiscal” já está
próxima de zero há muito tempo, mas ainda há uma pequena margem para
piora. Os quatro décimos de ponto que separam o Brasil do zero absoluto
(nota, aliás, dada à saúde fiscal norte-americana, graças à tendência
dos governos democratas de gastar indiscriminadamente) podem ser
perdidos se o país continuar depredando o teto de gastos, como ocorreu
no caso da PEC dos Precatórios. Medidas populistas que pretendam reduzir
preços como os dos combustíveis na base da canetada ou do malabarismo
fiscal também podem custar caro em termos fiscais, inclusive causando
inflação futura, como já alertou o Banco Central.
Graças
ao convite formal para integrar a Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil terá um empurrão para
realizar reformas que aumentem a liberdade econômica no país, pois
muitas delas são condição necessária para que um país efetivamente se
torne membro do grupo. A prioridade que a OCDE dá à agenda
anticorrupção, por exemplo, está longe de ser replicada no Brasil, e o
bom combate à ladroagem tem sido vandalizado pelas absurdas decisões do
Supremo Tribunal Federal que desfazem todo o árduo trabalho da Operação
Lava Jato. A OCDE não aceitará um país cujas instituições são tão
lenientes com a roubalheira – e só no item “integridade do governo” do
Índice de Liberdade Econômica o Brasil perdeu 7,5 pontos entre 2021 e
2022, voltando a ficar abaixo da média mundial.
Entre
avanços em alguns pontos e retrocessos em outros, o Brasil acaba
patinando quando deveria evoluir. Com isso, seguimos na categoria das
nações “majoritariamente não livres” – e pior: muito mais perto dos
países “reprimidos” economicamente que dos países “moderadamente
livres”. Sem liberdade econômica não há como um país aproveitar ao
máximo todo o potencial de seu povo; a geração de emprego e riqueza é
sufocada pela hiper-regulação, pela corrupção, pela tributação excessiva
ou irracional, por concepções arcaicas acerca do papel da iniciativa
privada, pelo gasto público fora do controle. Como a Gazeta do Povo
costuma afirmar, o problema brasileiro não é falta de diagnóstico: com
exceção de quem está cego por ideologias estatólatras, todos sabem onde
estão os problemas e o que precisa ser feito; mas os que efetivamente
querem caminhar na direção da liberdade, em vez de defendê-la apenas no
discurso, ainda são minoria em muitos ambientes onde as decisões são
tomadas.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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