BLOG ORLANDO TAMBOSI
Assim como uma Missa Negra é uma paródia macabra de uma missa normal, proponho blasfemarmos contra a religião oficial brasileira (o modernismo- antropofagismo-concretismo-tropicalismo), fazendo uma Anti-Semana de 22. A crônica de Alexandre Soares Silva para a revista Crusoé:
Vou ser desnecessariamente dramático e dizer que vivemos há cem anos sob a ditadura da Semana de 22.
Uma
ditadura? Sim, uma ditadura. Um totalitarismo completo sobre todo o
ambiente mental e cultural do Brasil. Vivemos com os rostos esmagados
pelas botas da informalidade, do coloquialismo e do novidadismo mofado.
Estátuas gigantescas de Oswald de Andrade, Mario de Andrade e Menotti
del Picchia entristecem as praças desoladas da psique nacional, como
Lênins piadistas. É a ditadura
modernista-antropofágica-concretista-tropicalista, da qual cedo ou tarde
precisamos nos livrar.
A
Semana aconteceu de 13 a 17 de fevereiro de 1922 – exatamente cem anos
atrás. Para marcar o centenário, os cadernos de cultura dos jornais têm
falado diariamente da Semana, sempre em tons de elogio frenético (exceto
quando o articulista é um carioca, porque daí se sente levemente
enciumado).
São
elogios um tanto tresloucados que têm chegado na soleira da minha
porta. Para a Folha de S.Paulo, se há uma crítica importante a fazer, é
só que a Semana de 22 poderia ter sido um pouco mais feminista, talvez.
Fora isso, excelente!
Já O Estado de S.Paulo tem isto a dizer: “Há 100 anos, evento, que foi criticado pelos ricos, inaugurava a cultura no país”.
Meu
Deus! Inaugurava a cultura no país! Que semana colossal! Fiquei tão
espantado que nem tive tempo de estranhar o “criticado pelos ricos” –
apesar do fato de que a semana foi financiada por gente como a família
Prado, a família Thiollier, e o deputado e membro da Academia Brasileira
de Letras, Alfredo Pujol. “Quem bancava o show era a fina flor da
oligarquia cafeeira”, escreveu Marcos Augusto Gonçalves no livro 1922 – A
Semana que Não Terminou.
Como
todos os movimentos artísticos, os modernistas brasileiros começaram
como uma gangue de jovens querendo bater em velhos. Bateram em Monteiro
Lobato (“ah, mas ele provocou”), bateram em Coelho Neto, bateram em
Carlos Gomes, bateram nos parnasianos. Eram praticamente a gangue do
filme Laranja Mecânica, com Villa-Lobos no lugar de Beethoven.
Isso
é normal na história da arte, pelo menos segundo os livros didáticos.
Cada geração que aparece quer bater na anterior. O problema é que
ninguém quis bater nos modernistas. Uma geração atrás da outra continuou
venerando a Semana de 22, e falando em tons sempre carolas de renovação
e revolução permanente.
Vejam,
por exemplo, o tom religioso com que o elenco e a crítica falava da
montagem da peça O Rei da Vela”, de Oswald de Andrade, por Zé Celso,
tanto em 1967 quanto em 2017; como palavras como “deboche”,
“irreverência”, “zombaria” são faladas com uma seriedade, com
solenidade, e quase com misticismo. E é assim em praticamente toda a
casta intelectual no Brasil.
Por isso, tenho uma proposta a fazer.
Assim
como uma Missa Negra é uma paródia macabra de uma missa normal,
proponho blasfemarmos contra a religião oficial brasileira (o
modernismo- antropofagismo-concretismo-tropicalismo), fazendo uma
Anti-Semana de 22. O propósito é chocar o circuito USP-MPB, e acabar com
o seu domínio beato sobre o país.
Estes serão alguns dos eventos da Anti-Semana de 22:
–
Assim como o evento cem anos atrás começou com a leitura de um poema de
Manuel Bandeira ridicularizando os parnasianos, este começará com a
leitura das polêmicas e poesias de Bruno Tolentino contra os
concretistas, só para chocar quem quer que se choque com isso;
–
Efígies gigantescas de Oswald e Mário de Andrade serão viradas de
cabeça para baixo em praça pública, e em volta deles serão declamados
poemas do parnasiano francês Leconte de Lisle;
–
O livro Macunaíma será lido de trás pra frente, ocasião na qual todos
perceberão estarrecidos que, lido desse jeito, o livro é um pouco menos
entediante;
–
Reedições e homenagens a todos os escritores e poetas vilipendiados
pelos modernistas: Coelho Neto, Raimundo Correia, Alberto de Oliveira
etc.;
–
Em 1972 o arquiteto modernista Lúcio Costa fez campanha para que vários
edifícios ecléticos de influência francesa fossem demolidos. E eles
foram. Nesse mesmo ano, por exemplo, o Palácio Monroe (sobre o qual
Costa havia dito: “sua presença estorvante já não se justifica”) foi
destruído. Pois na Anti-Semana de 22 o Palácio Monroe será reerguido em
volta da tumba de Lúcio Costa. Para irritar o espírito antifrancês dos
incrivelmente afrancesados modernistas, uma orquestra tocará operetas de
Offenbach dentro do novo Palácio Monroe, durante as quatro noites da
Anti-Semana;
–
Uma orquestra se reunirá no cemitério da Consolação em São Paulo, onde
Oswald de Andrade foi enterrado, e tocará durante quatro noites seguidas
as aberturas das óperas de Carlos Gomes, compositor que Oswald odiava.
Mas
tudo isso talvez não seja o suficiente. Consigo imaginar o circuito
USP- MPB reagindo ao evento com um “Gente, que ótimo! Esse é o espírito
mesmo! O Oswald teria adorado!” Então temos ainda alguns meses para
quebrar a cabeça e pensar em ideias realmente chocantes para a
programação da Anti-Semana de 22.
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