A questão sempre foi sobre princípios, e continua nos desafiando: é melhor permitir o livre mercado de ideias ou a tutela do Estado sobre a opinião? Fernando Schüler para a revista Veja:
Era
uma quarta-feira de abril, em 1977, quando David Goldberger, advogado
judeu da American Civil Liberties Union (Aclu) em Chicago, recebeu uma
ligação de Frank Collin, líder do partido nazista americano. Ele
reclamava que seu grupo estava sendo proibido de fazer uma manifestação
em Skokie, localidade perto de Chicago, e queria que a Aclu defendesse
seus direitos à expressão, garantidos pela Primeira Emenda à
Constituição.
Collin
explicou que eles iriam vestidos com os uniformes nazistas e que tudo
demoraria coisa de trinta minutos. Goldberger ouviu com atenção e de
cara achou que aquele era um caso essencial para os princípios da Aclu.
Topou representar Collin e os nazistas. Antes, pediu o o.k. de Ed
Rothschild, conselheiro-geral da Aclu, e obteve seu apoio: “Você deve
assumir este caso”, disse Rothschild, imaginando o barulho que viria à
frente.
Skokie
era a comunidade com maior número de sobreviventes do Holocausto nos
Estados Unidos. As autoridades locais proibiram a marcha e o caso foi à
Suprema Corte, que determinou que a decisão fosse revisada. Goldberger
recebeu ameaças e alguns ovos, na porta de casa, mas ganhou o jogo. É
provável que hoje fosse “cancelado”. Mas diz jamais ter se arrependido
de sua decisão.
A
Aclu era presidida por um outro intelectual judeu, Aryeh Neier, que
mais tarde fundaria o Human Rights Watch. Neier, Goldberger e Rothschild
nos contam uma história emblemática do século XX: foi um grupo de
brilhantes advogados judeus que se bateu pelo direito à expressão do
partido nazista americano, nos anos 70, ajudando a consolidar a tradição
da Primeira Emenda e sua garantia do direito à livre expressão.
Anos
depois, o Brasil trilharia um caminho muito diferente. Seu ponto
culminante foi a decisão tomada pelo STF, em 2003, negando um habeas
corpus a Siegfried Ellwanger, historiador “revisionista” do Holocausto.
Os livros editados por Ellwanger, ao longo dos anos 90, apostavam em
toda a sorte de delírios conspiratórios, do tipo “os judeus estavam por
trás da escravidão no Brasil”, e eram as “forças ocultas”, referidas por
Getúlio. Ainda me lembro de encontrar seu Holocausto: Judeu ou Alemão?
nos sebos de Porto Alegre a preços de banana.
Ellwanger
foi condenado pela Justiça do Rio Grande do Sul e recorreu ao Supremo.
Foi derrotado pela maioria. O ministro Carlos Ayres Britto ficou com a
minoria. Em seu voto, diz que os livros de Ellwanger expressavam uma
ideologia e que isso não era crime. Podia ser “uma desgraça que alguém
se deixe enganar” por certas ideologias, mas que isso tinha respaldo na
Constituição, que “faz do pluralismo político um dos fundamentos da
República”.
O
ministro Marco Aurélio Mello disse que o direito à liberdade de
expressão servia como uma “trincheira do cidadão”, particularmente
quando ele expressa “ideias radicais e minoritárias”. Fez a defesa mais
próxima que conheço, aqui nos trópicos, de uma visão alinhada à cultura
da Primeira Emenda. Disse que haveria crime se Ellwanger, “em vez de
publicar um livro (…), distribuísse panfletos nas ruas de Porto Alegre
dizendo vamos expulsar estes judeus do país”. Aproxima-se do clássico
critério de Oliver Holmes, na Suprema Corte: o discurso deve ser livre
caso não represente “perigo real e imediato” aos demais.
A
marcha de Skokie e o julgamento de Ellwanger são casos emblemáticos de
duas tradições. Duas formas de tratar a liberdade de expressão. Cada um
pode julgar qual das duas é a mais acertada. Nem Goldberger, nem Aryeh
Neier, por óbvio, tinham qualquer simpatia pelo nazismo, e tão pouco
Ayres Britto e Marco Aurélio Mello, pelo revisionismo. A questão sempre
foi sobre princípios, e continua nos desafiando: é melhor permitir o
livre mercado de ideias ou a tutela do Estado sobre a opinião?
Ambas
as tradições andam hoje sob fogo cruzado. Nos Estados Unidos, a
Primeira Emenda continua de pé, mas as coisas vão mudando na sociedade.
Intelectuais tão distantes quanto Noam Chomsky e Steven Pinker alertam
sobre a emergência de uma “sociedade intolerante”, em que “editores são
demitidos por publicar livros controversos; jornalistas impedidos de
escrever sobre certos assuntos e professores investigados por citarem em
aula obras de literatura”. As redes sociais, um dia ditas como “ágoras
digitais”, praticam censura, a começar pelo ex-presidente americano. A
chegada de Trump ao poder é vista como ponto de inflexão. Diante da
“nova direita”, a liberdade de expressão se tornou tóxica. Mesmo a Aclu
mudou. Goldberger observa que seus líderes se preocupam mais, hoje, em
“seguir causas progressistas do que manter princípios” e que “os
progressistas estão deixando para trás a Primeira Emenda”.
Para
Goldberger, o ponto central é não dar ao Estado a prerrogativa de
censurar. Proteger as piores ideias tem uma lógica: garantir que todas
as demais ideias, que são melhores do que as piores, estarão também
protegidas. O Brasil de hoje é retrato disso. Enquanto batemos boca
sobre a ideia sem nexo de permitir um partido nazista, nossa “democracia
de tutela” anda de vento em popa. Manda-se prender jornalistas por
“ameaças ao estado de direito”; blogueiros são censuradas por “não dizer
a verdade” sobre as urnas eletrônicas; e discute-se abertamente banir o
Telegram, rede social utilizada por 50 milhões de brasileiros, para
“combater fake news”.
O
tema da liberdade de expressão é difícil porque não há encaixe, em
última instância, no universo das escolhas éticas. Vivemos em um mundo
cindido, marcado pelo que Isaiah Berlin chamou de “pluralismo objetivo”.
Há diferentes respostas, não raro incompatíveis, para diferentes
questões. Que ordem de valores iremos priorizar? A liberdade individual?
A imposição de padrões de “respeito”? Que discursos, exatamente, iremos
proibir? Defesa de ditaduras? Qualquer uma? A defesa de regimes que
promoveram a tortura ou genocídio? Qualquer um? Não é difícil perceber a
ausência de acordo, em uma sociedade plural, sobre essas questões.
Alguém
pode considerar que defender a liberdade de expressão para ideias
absurdas é uma indesculpável perversão. Todos escutamos adjetivos nessa
linha na outra semana. Podemos até mesmo achar que “defender o direito à
expressão de ideias absurdas” e “defender ideias absurdas” é a mesma
coisa, contrariando toda a história da liberdade de expressão na
modernidade. Ou que nós, brasileiros, e nossa democracia de tutela,
somos o caminho da civilização, enquanto a tradição da Primeira Emenda e
a Suprema Corte Americana, a barbárie.
Tudo
é possível. Diferentes respostas, como ensinou Berlin, habitam o
universo moral, e o pluralismo vive no coração da República, como
lembrou Ayres Britto. Por aí, quem sabe, encontramos um caminho.
Fernando Schüler é cientista político e professor do Insper
Publicado em VEJA de 23 de fevereiro de 2022, edição nº 2777.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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