Esta, no fundo, é a escolha colocada para os eleitores americanos que
não se decidiram e vão optar entre presidente enxovalhado ou desordem
dos protestos. Vilma Gryzinski:
Para boa parte dos americanos – as pesquisas dizem que a maioria – a
escolha já está feita. Vão de Joe Biden, mesmo que ele dê sinais de
estar vacilando com a idade.
Segundo este raciocínio, qualquer coisa é melhor do que Donald Trump.
No campo oposto, estão os eleitores que, entusiasticamente, votariam
em Trump de qualquer maneira e os que tapam o nariz para seus muitos
defeitos, inclusive a condução contestável da crise pandêmica.
Para estes, qualquer coisa é melhor do que um establishment democrata
que abraça os protestos violentos – “pacíficos” na novilíngua -,
incluindo saques, vivas ao socialismo e a obrigatoriedade de que todos
os cidadãos, independentemente de seu comportamento pessoal, batam no
peito e se proclamem racistas.
Em vários sentidos, a eleição do próximo 3 de novembro segue narrativas similares à de quatro anos atrás.
Com um mandato quase cumprido, Trump continua a se apresentar como o
outsider, o bilionário exaltado que é perseguido pelo sistema por lutar
pelo sujeito comum que quer um emprego bom, uma bandeira nacional do
lado da garagem com dois carros e o culto à América que embasa a
fenomenal superpotência, agora dando sinais de exaustão.
Trump não conseguiu essa imagem de outsider sozinho. Foi e continua a
ser abominado pela grande imprensa e pelas elites intelectuais e
artísticas e por uma larga fatia das classes superiores.
Tudo o que jogaram contra ele, desde praticamente um livro por semana
que ia “acabar” com seu governo até um processo de impeachment, acabou
funcionando como uma confirmação dessa narrativa.
A desanimada convenção do Partido Democrata, condenada pela pandemia a
parecer uma reunião por Zoom, é boa para os já convertidos, os que
votariam de qualquer maneira em Joe Biden.
Até a vibrante Michelle Obama, que tem um status muito superior aos
dos que apareceram até agora, contribuiu para a imagem que Trump quer
passar de perseguido: disse que ele é o homem errado na presidência
inclusive porque colocou “crianças enjauladas”. Ou seja, um monstro.
Os checadores, sempre tão favoráveis à oposição, foram obrigados a
apontar o erro. A separação provisória de filhos de imigrantes pegos na
travessia clandestina da fronteira foi obra do governo Obama. Inclusive
as fotos usadas para espinafrar Trump datam daquela época.
Trump deitou e rolou no Twitter. Inclusive com o abominável recurso de falar sobre si mesmo na terceira pessoa.
“Alguém pode explicar a @MichelleObama que Donald J. Trump não
estaria aqui, na linda Casa Branca, se não fosse pelo serviço feito por
seu marido, Barack Obama”.
Quando chegar à eleição de novembro, Trump já estará carregando na
ficha – justa ou injustamente – mais de 200 mil americanos mortos pelo
novo coronavírus. E uma vertiginosa queda anualizada de 32,9 % na
economia no último trimestre.
Como é possível que continue a ter mais de 40% das preferências e
esteja encostando em Joe Biden em alguns dos estados mais importantes,
os que podem carregar mais votos para o Colégio Eleitoral?
Os protestos que começaram depois da morte filmada de George Floyd,
um ato chocante por si mesmo e pela simbologia da subjugação, derivaram
para cenas espantosas não só de vandalismo como de ataques à própria
história do país.
Em cidades como Portland e Chicago, eles continuam a eclodir, confirmando a imagem de descontrole e anarquia.
Ver George Washington derrubado em estátua pode ser comemorado nos
ambientes universitários onde predomina o conceito de que o sistema
nasceu errado e tem que ser da mudado.
Fora deles, é como um assassinato simbólico do pai da nação – e todos
conhecem o lugar central que esta figura ocupa na história e na psique
nacional.
Joe Biden, agora escoltado pela exuberante Kamala Harris, a candidata
a vice, têm que passar a imagem de defensores do antirracismo e
solidários aos protestos, sem se contaminar com a violência e o clima de
ameaça existencial aos que não estão marchando com os antifas.
Precisam vender a narrativa de que tudo é culpa de Trump e eles têm o
dom de curar ou cicatrizar feridas tão explosivamente expostas.
Trump tem que conciliar o aparentemente impossível: é o outsider e ao
mesmo tempo o presidente da lei e da ordem, o que não deixará os
antifas invadirem os bairros residenciais nem Biden confiscar as armas
dos cidadãos de bem.
Quando Hillary Clinton estava com a eleição ganha, em 2016, um dos
raríssimos acadêmicos que falou em favor de Trump foi Victor Davis
Hansen.
Especialista na antiguidade greco-romana e em história militar, ele
escreveu um livro de título autoexplicativo: ‘The Case for Trump’.
Hansen compara Trump a ninguém menos que os heróis das tragédias
gregas, conscientes de que “a expressão natural de suas personas só pode
conduzi-los à própria destruição e ao ostracismo da civilização que
procuram proteger”.
“No sentido trágico clássico, Trump provavelmente terminará de uma de
duas maneiras, nenhuma particularmente boa: ou com feitos espetaculares
mas não reconhecidos seguidos pelo ostracismo ou, mais provavelmente,
com um único mandato devido ao constrangimento de seus beneficiários”.
Isso foi escrito antes da eclosão da pandemia e dos protestos.
A função de herói trágico é levar a plateia à catarse, através da
projeção seus próprios sentimentos no personagem fadado a se danar.
Incinerar Trump nas urnas vai dar em catarse?
A convenção republicana que começa na semana que vem terá muito menos
estrelas do que a dos democratas e o mesmo formato inevitavelmente
enfadonho, pela impossibilidade da ferveção ao vivo.
Como políticos só pensam naquilo, todos estarão de olho nos
candidatos a candidatos em 2024, os escolhidos para falar e representar o
pensamento conservador na era contemporânea, já tendo a Casa Branca
como objetivo final.
Não existe o menor risco de que algum deles passaria por herói de tragédia grega.

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