Em artigo publicado pelo Gazeta, Tiago Cordeiro comenta o livro Dominion: How the Christian Revolution Remade the World, de Tom Holland, ainda não traduzido no Brasil:
“Os antigos eram cruéis e seus valores totalmente estranhos. Os
espartanos assassinavam rotineiramente crianças consideradas
imperfeitas. Os corpos de escravos eram tratados como saídas para o
prazer físico daqueles com poder. O infanticídio era comum. Os pobres e
os fracos não tinham direitos”. As afirmações estão no livro mais
recente do historiador Tom Holland, lançado em outubro de 2019,
Dominion: How the Christian Revolution Remade the World.
Britânico de 52 anos, o autor é ateu, especialista em Antiguidade
clássica. Dedicou seu livro a descrever como o cristianismo mudou
conceitos arraigados na Antiguidade. Nesse processo, diz ele, “o
cristianismo revolucionou o sexo e o casamento, exigindo que os homens
se controlassem e proibindo todas as formas de estupro”.
Levou dignidade para as mulheres – e também para as crianças, para
quem se enquadra a noção cristã de que as vidas de pessoas menores e
mais fracas fisicamente não são menos valiosas do que qualquer outra.
Combateu a prática de sacrifício humano e defendeu que os mais ricos têm
a responsabilidade de cuidar das necessidades básicas dos pobres. E,
assim, moldou as noções básicas de direitos humanos – e, num sentido
mais amplo, todo o mundo ocidental. “O surgimento do cristianismo é o
episódio mais transformador da história do Ocidente”, escreve o autor.
“Diferentemente de Osiris, ou Zeus, ou Odin, o Deus cristão continua
ativo”.
A posição de Tom Holland não é inédita, ainda que menos comum em
especialistas ateus. O escritor cristão Gilbert Bilezikian, por exemplo,
defendeu, em seu livro Beyond Sex Roles—What the Bible Says About a
Woman's Place in Church and Family, que o Novo Testamento contém
evidências claras sobre o papel das mulheres como discípulas, profetas,
professoras e mesmo administradoras de estruturas cristãs. Há uma
coerência, afirma ele, entre os livros da Bíblia cristã, a respeito da
importância das mulheres para os primeiros seguidores de Jesus.
Perdão, caridade, compaixão
“Essa mudança de perspectiva é visível desde os evangelhos”, afirma o
professor de filosofia John Florindo de Miranda, doutorando pela
Universidade Federal de Pelotas (UFPel). “Os relatos descrevem Jesus
conversando com a mulher samaritana, por exemplo, ou visitando as irmãs
Marta e Maria com frequência. E ele é questionado por conversar com
mulheres. O próprio relato da ressurreição coloca mulheres como
testemunhas, em uma época em que incluir o testemunho de uma mulher num
texto servia para minar a credibilidade do conteúdo”, prossegue o
professor.
O mesmo se aplica a crianças: “Jesus diz ‘vinde a mim os pequeninos’,
num momento histórico em que as crianças são consideradas pessoas
incompletas, incapazes, que não precisam ser ouvidas”, diz Miranda. Essa
postura, afirma, representava uma enorme novidade.
“A cultura cristã é a que primeiro deu liberdade para mulheres e
crianças, e é a que mais dá liberdade ainda hoje. Nos países islâmicos,
ainda hoje as mulheres não contam com o mesmo espaço. Foi a nossa
cultura que deu esses passos, graças ao cristianismo”. Passos que
inseriram na cultura e no comportamento valores que sustentam ainda hoje
o conceito de direitos humanos, como perdão, caridade e compaixão.
Como analisa o especialista em direito público Gerson Marcos Morgado
na monografia A Importância do Cristianismo para a Concepção da
Dignidade da Pessoa Humana e para a Universalização de sua Consciência,
“não há, nos povos antigos, o conceito de pessoa tal como o conhecemos
hoje. Os antigos não conheciam nem dispunham nem de liberdade,
igualdade, nem direito à vida, à educação, ou liberdade religiosa”.
Já o cristianismo, afirma ele, “logrou, pela criação de uma cultura
comum e universal, forjar a consciência de que todo o gênero humano
formaria uma só unidade, pela doutrina de que todos os povos e homens
descenderiam de um mesmo pai com sua essência comum em todos os homens.
Com a unidade no Deus único e sua única e mesma essência em todos os
seres humanos, surge nos espíritos a consciência da dignidade humana
comum”.
Em 1988, o papa João Paulo II, em sua carta apostólica Mulieris
Dignitatem, atualizou os conceitos católicos a respeito do tema. “A
Igreja, com efeito, defendendo a dignidade da mulher e a sua vocação,
expressou honra e gratidão por aquelas que — fiéis ao Evangelho — em
todo o tempo participaram na missão apostólica de todo o Povo de Deus.
Trata-se de santas mártires, de virgens, de mães de família, que
corajosamente deram testemunho da sua fé e, educando os próprios filhos
no espírito do Evangelho, transmitiram a mesma fé e a tradição da
Igreja”, escreveu. “A Igreja, portanto, rende graças por todas e cada
uma das mulheres”.
Abandono e morte
Mas como exatamente mulheres e crianças eram vistos na Antiguidade? O
aborto, o abandono de recém-nascidos e o infanticídio realmente eram
práticas comuns e aceitas socialmente?
Com poucas exceções, como os antigos egípcios e os hebreus, a prática
de infanticídio era disseminada, desde a pré-história até o fim da
Antiguidade. Crianças doentes ou deficientes eram eliminadas por gregos,
fenícios, romanos, chineses, japoneses, aborígenes, astecas e inuítes,
civilizações que, em geral, consideravam o futuro da comunidade mais
importante do que a preocupação com indivíduos.
O mais comum era simplesmente abandonar os recém-nascidos à própria
sorte. Mas, quando a prática acontecia com objetivos religiosos, os
bebês podiam ser esfaqueados, sufocados, queimados ou jogados a mares ou
rios. Entre algumas populações indígenas brasileiras, era comum que as
crianças indesejadas fossem enterradas vivas.
“O infanticídio foi praticado em todos os continentes e por pessoas
de todos os níveis de complexidade cultural, desde os caçadores e
coletores até as civilizações mais avançadas”, escreveu a antropóloga
Laila Williamson no artigo Infanticide: An Anthropological Analysis,
publicado dentro do livro Infanticide And the Value of Life. “Mais do
que exceção, era a regra”.
Em suas origens, o cristianismo se opôs radicalmente a algumas
práticas disseminadas entre as civilizações antigas – incluindo a
poligamia e a escravidão. Entre os costumes desestimulados estava o
abandono ou o sacrifício de crianças. Com o crescimento da influência do
cristianismo sobre a elite de Roma, a prática foi barrada pelos romanos
no império no século 4.
Quanto às mulheres, ao longo da Antiguidade, elas costumavam ter
menos direitos do que os homens. Na Grécia antiga, por exemplo, a
democracia não servia para elas, que não podiam votar, possuir
patrimônio ou receber heranças – seu papel se limitava ao de parir e
educar filhos. Na Roma antiga, o aborto era punido quando o pai se via
privado do direito à prole; o corpo da mulher não era levado em
consideração.
Valores necessários
Depois de dois milênios, diferentes pensadores têm identificado no
Ocidente um certo cansaço em relação aos valores cristãos. Tom Holland, o
autor de Dominion, é um deles. Em seu livro, o historiador descreve:
“Viver em um país ocidental é viver em uma sociedade saturada dos
conceitos cristãos”. E conclui que esse pode ser um erro.
Como afirma o escritor Jonathon Van Maren, em análise da obra de
Holland, “a defesa que Holland faz do cristianismo é fascinante porque
parece fazer parte de uma tendência. Na medida em que o Ocidente se
torna pós-cristão, muitos intelectuais ateus estão subitamente
percebendo que o cristianismo pode ter mais valor do que eles pensaram”,
afirma. “Embora muitos, incluindo Holland, não sejam exatamente adeptos
da fé cristã, esses pensadores estão começando a acreditar que o
cristianismo seja necessário”.

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