Alexei Navalny, em coma na Alemanha, é a encarnação de como o regime
russo faz o que quer contra seus inimigos, com a certeza da impunidade. Vilma Gryzinski:
Teriam os serviços secretos russos planejado o envenenamento de Alexei Navalny
com a dose exata para não provocar a morte do mais conhecido dissidente
do país, mas suficiente para mantê-lo longe e, por isso, enfraquecido?
O simples fato de que exista esta hipótese, por mais absurda que
pareça, já mostra o conceito conquistado por Vladimir Putin: é um líder
para o qual não existem limites.
O cinismo é tamanho que, quando alguma coisa dá errado e os
assassinatos são expostos, os representantes de Putin rebatem dizendo
que matar um ex-espião ou um oposicionista seria prejudicial para o
próprio presidente e ele nunca, jamais faria uma besteira dessas.
Mas as “besteiras” acontecem. E, como não existe punição possível, elas se repetem.
No caso de Navalny, as “evidências clínicas sugerem intoxicação por
uma substância pertencente ao grupo dos inibidores de colinesterase”,
segundo as palavras bem pesadas do hospital alemão onde está internado.
Na manhã de quinta-feira, Navalny estava num aeroporto na Sibéria,
vindo de campanha para as eleições regionais – ele promove ações para
sabotar o partido Rússia Unida, já que, mesmo se não houvesse fraudes em
massa, provavelmente ganharia.
Como é conhecido por viver entrando e saindo da cadeia – inabalável
de uma maneira que é difícil entender para os não russos –, foi
fotografado no aeroporto tomando chá num copo de papel.
Dentro do avião, começou a se sentir mal. Pediu a sua assessora de
imprensa, Kira Yarmish, um guardanapo de papel para enxugar o suor da
testa.
Depois se levantou para ir ao banheiro, deu um grito e caiu desfalecido.
Saiu de ambulância num pouso de emergência em Omsk, onde os médicos
que o atenderam foram ficando cada vez mais nervosos e menos
comprometidos com o motivo do “mal súbito” que acometeu o homem de 44
anos, sem comprometimento de saúde exceto por perda parcial de visão num
olho, quando um putinista de raiz jogou uma lata de tinta verde em seu
rosto.
Ah, sim, durante uma de suas prisões ele teve uma grave “reação
alérgica” e foi hospitalizado. Nada comparável ao estado de coma em que
se encontrava e continuava depois que Putin autorizou sua remoção para
tratamento na Alemanha.
O mais famoso, ou infame, assassinato por chá envenenado foi o de
Alexander Litvinenko, num hotel em Londres, em novembro de 2006.
O ex-agente da FSB – substituto da KGB – tinha concordado em se
encontrar com dois antigos colegas, provavelmente atraído pela mais
valiosa mercadoria do ramo: informação.
Foi um erro fatal. Os dois colegas tinham viajado expressamente para assassiná-lo com polônio 210 colocado em seu chá.
A substância radiativa deixou um rastro reconstituído criteriosamente
depois da penosa e lenta morte de Litvinenko, semelhante às de
sobreviventes do acidente na usina nuclear de Chernobil: perdeu os
cabelos e ficou inchado com os corticoides administrados para tentar
reverter o curso terrível da doença radiativa.
Os assassinos foram identificados como Dimitri Kovtun e Andrei
Lugovoi. Este foi condecorado por Putin por “serviços à pátria” e eleito
deputado.
Igualmente deslavado foi o atentado contra Sergei Skripal, outro
espião que mudou de lado, envenenado com Novichok, um agente biológico
da pesada ao qual conseguiu sobreviver.
Também não aconteceu nada com os assassinos, flagrados em vários
momentos da viagem a Salisbury, a cidadezinha onde morava Skripal –
hoje, ele e a filha, também atingida, moram escondidos na Nova Zelândia.
Meses depois, morreu aos 62 anos o chefe do GRU, hoje a agência de
operações extraterritoriais, Igor Korobov, levando a pecha de ter
comandado um assassinato fracassado.
Muita gente suspeitou da morte de Korobov, mas a zona de sombras onde
operam os chefes de espionagem não permite mais do que especulações.
A Rússia tem uma tradição nefasta no ramo que antecede a criação por
Lênin do “laboratório dos venenos” onde inimigos do estado eram
executados, servindo duplamente como cobaias humanas.
O mais notório envenenado da história russa foi Rasputin, o guru que
se dizia monge, apesar das bacanais nada piedosas, e assim mantinha a
influência desastrosa sobre a imperatriz Alexandra, convencida de que o
filho e herdeiro do trono, o hemofílico Alexei, só se mantinha vivo por
causa do poder do curandeiro.
Com a opinião pública revoltada com as boatarias sobre a verdadeira
natureza da relação da czarina com o falso monge, um grupo de
aristocratas armou um plano para assassinar o guru.
Rasputin resistiu a um chá com bolinhos envenenados e três taças de
vinho Madeira “batizadas” com cianeto de potássio, além de tiros e
pancadas. Só morreu depois de ser enrolado em lona e jogado no congelado
rio Neva.
Dizia-se, na época, que Rasputin tomava pequenas quantidades de veneno para adaptar seu corpo lentamente.
O assassinato não adiantou muito. O império dos czares ruiu e toda a
família Romanov foi fuzilada em sigilo, no porão da casa onde haviam
sido aprisionados, por ordem igualmente secreta de Lênin.
O método de negar, negar e negar não mudou muito.
Alexei Navalny é a prova viva – por enquanto – de que o método funciona.
Apesar das sanções contra indivíduos da cúpula do governo russo e
associados, e das expulsões de “diplomatas” conhecidos por fazer parte
dos serviços de espionagem em represália pelo caso Skripal, a Europa
Ocidental, inclusive a Alemanha precisam do gás que a Rússia manda para
aquecer os ambientes no inverno e manter as indústrias funcionando.
Se Navalny for mais um caso, apesar de eventuais protestos
diplomáticos e outros blá-blá-blás, será um prêmio para Vladimir Putin.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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