Essa turminha do barulho vai arranjar muita confusão e aprontar todas na
próxima sessão plenária do STF. Paulo Polzonoff Jr. para a Gazeta:
Toda vez que ouço notícias vindas daquele cantinho da Praça dos Três
Poderes onde se reúnem os ministros da Corte Suprema do país me lembro
do saudoso Chico Anísio e de uma de suas criações inesquecíveis: a
Escolinha do Professor Raimundo. Comandada por um mestre que reclamava
do salário, aceitava suborno e adorava ser adulado, aquela sala de aula
era um resumo deste manicômio abençoado por Deus e bonito por natureza
chamado Brasil.
E é assim, como se ouvisse um dos bordões daqueles personagens todos,
que tento manter minha precária sanidade ao me deparar com as mais
recentes estripulias de Edson Fachin, Celso de Mello, Alexandre de
Moraes, Gilmar Mendes & Cia. – personagens dignos da voz de Dirceu
Rabello anunciando “essa turma do barulho vai arranjar muita confusão e
aprontar todas na próxima sessão plenária do STF”.
Imagino um Brasileiro Qualquer na figura do professor Raimundo.
Aquela peruca grisalha. A voz rouca e cansada. O tom entre o autoritário
e o carinhoso. De repente, ele chama um dos ministros. Doutor Edson
Fachin, chama ele, errando o pronome de tratamento. O ministro se
levanta como um aluno obediente e o professor solta a pergunta à
queima-roupa: “Vossa excelência acha que o ex-presidente Lula deveria
ter participado das eleições de 2018?”.
Fachin alisa o bigodinho de personagem rodrigueano, olha para a
câmera e solta seu bordão sem graça, mas que por algum motivo caiu na
boca do povão. “Com a devida vênia ao professor”, começa ele, e a turma
toda cai na gargalhada antes mesmo da piada em si. E diz que sim, que
Lula, condenado por corrupção, deveria ter participado das eleições.
“Teria feito bem à democracia”, afirma, todo sério. Ao que o Brasileiro
Qualquer, interpretando o severo Professor Raimundo, responde
simplesmente “Nota zero pro senhor”.
“Vade mecum!”
“Seu Gilmar Mendes”, chama agora o mestre. Sem olhar para o
professor, o ministro diz “presente” e faz um gesto com a mão. Ele fala
ao celular. Brasileiro Qualquer/Raimundo, então, faz troça da
displicência do ministro. “Tô vendo que o senhor tá ocupado aí”, diz,
fazendo seu melhor e mais generoso papel de escada nessa comédia com
contornos de humor negro. O ministro pede mais um minutinho e a turma
inteira ri. “Não, não quero atrapalhar”, diz o professor.
Por fim, Gilmar Mendes desliga. “Desculpe, amado mestre, é que eu
estava aqui numa live com o meu amigo João Pedro Stédile, aquele do
MST”. Mais risadas. O professor pergunta o que eles conversavam e o
ministro explica que estavam discutindo a pandemia de Covid-19 e a
responsabilidade do presidente genocida antes de se virar para a câmera,
entortar os lábios para baixo e dizer seu aguardado bordão: “É para o
bem da democracia”.
Mais risadas. O professor faz um comentário qualquer sobre o absurdo
de um ministro do STF ficar de proselitismo político com um invasor de
propriedade privada antes de dizer que a nota dele é... zero.
E assim avança o programa. Perguntas, piadas, bordões (o meu preferido é o “Vade mecum!”), risadas, notas zero.
Falando sério
No último bloco, porém, Brasileiro Qualquer/Raimundo resolve falar
sério. Usando de seu tom mais professoral (!), ele se dirige à turma
toda. Diz que estamos vivendo dias difíceis, solta alguma indireta para o
presidente, outra para o Congresso, e daí resolve perguntar o que a
turma toda acha da ideia de proibir ações policiais nas favelas cariocas
dominadas pelo tráfico ou milícia.
Os ministros se manifestam. Mas a piada coletiva não tem graça. O
professor, então, insiste, depois de mais um monólogo sobre a liberdade
de expressão, sobre garantias constitucionais, sobre autoritarismo e
principalmente soberba, pergunta se os nobres colegas acham sensato dar
asas ao inquérito das fake news conduzido por Alexandre de Moraes.
E novamente os ministros falam e a resposta/piada não tem graça
nenhuma. Lá do fundão, o ministro Marco Aurélio Mello tenta ser o único
voto dissidente, como sempre. Mas os créditos já estão subindo e é hora
de o Professor Raimundo brilhar. Ele encara a câmera, aponta para os
ministros com o olhar, abre um sorriso nicotinado e, depois de se
transformar na deusa Têmis (efeitos especiais by Hans Donner), faz um
amplo gesto com as mãos e diz:
- E o salário, ó!
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