O objetivo era transformar Suzy e as demais presas trans em vítimas e a
sociedade em algoz. Artigo de Paulo Polzonoff Jr. para a Gazeta:
No domingo, 1º de março, a transexual Suzy fez com que todo mundo se
sentisse um pouquinho culpado. Apelando à empatia, solidariedade e
peninha mesmo do espectador, ela contou que estava presa e que, renegada
pela família por ser trans, não recebia visita havia 8 anos. O médico e
estudioso do sistema prisional brasileiro Drauzio Varela chancelou a
narrativa com um abraço em Suzy. Naquela noite, todos os que assistiram
às cenas e que nutriam um pouco de compaixão se sentiram mal.
O objetivo do depoimento de Suzy e do abraço de Drauzio Varela era
claro: revelar um sistema prisional injusto, que encarcera mulheres
trans (homens biológicos) em condições degradantes, sujeitando-as a todo
tipo de indignidade, é incapaz de ressocializar os internos, seja lá
qual for seu crime e, de quebra, esfregar na cara do espectador sua
culpa individual por fomentar esse mesmo sistema desumano que, nas
palavras que ecoaram ao longo da semana, punem aquelas cujo único crime é
ser trans, preta e pobre.
Em resumo, o objetivo era transformar Suzy e as demais presas trans em vítimas e a sociedade em algoz.
Não por acaso, no dia seguinte à exibição do abraço compungido de
Drauzio Varela em Suzy, surgiram aqui e ali exaltações ao médico e astro
de TV. O sempre muito querido doutor que nos ensina a lavar as mãos
depois de irmos ao banheiro de repente virou expressão política
antagônica do simplório presidente Jair Bolsonaro por seu espírito
caridoso, em contraposição às declarações do tipo
bandido-bom-é-bandido-morto que caracterizam não só o hoje chefe do
Poder Executivo como também boa parcela de seu eleitorado. As várias
postagens humorísticas que pediam Drauzio Varela como presidente não
eram tão ingênuas assim.
Requintes de crueldade
O problema é que o médico e os produtores do programa se esqueceram
que vivemos numa era em que é difícil criar uma realidade a partir de
uma omissão sem ver essa realidade falsa exposta no dia seguinte. Ou na
semana seguinte, como é o caso de Suzy. Porque, depois de ter início
toda uma mobilização para ajudar a pobre detenta trans renegada pela
família e oprimida pela sociedade machista, sexista e transfóbica,
descobriu-se que a narrativa passiva-agressiva de Drauzio Varella
escondia uma tragédia horrível.
Enquanto escolas faziam campanhas para que crianças (!) enviassem
inocentes cartas para Suzy e enquanto pessoas doavam dinheiro para que a
detenta não precisasse mais se prostituir na cadeia, juízes criminais,
talvez incomodados por terem sido retratados como monstros sem coração
que condenam ao inferno pessoas só por serem trans, pretas e pobres
resolveram revelar a verdade sobre o crime que puseram Suzy, nascida
Rafael Tadeu de Oliveira Santos, atrás das grades. E a verdade é de
deixar até mesmo quem defende que se contenha a indignação pública
indignado.
De acordo com o processo, Rafael foi condenado primeiramente a 25
anos de prisão pela morte de um menino de 9 anos de idade. Mas a pena
foi aumentada porque – e a partir daqui os detalhes podem causar
engulhos ao leitor mais sensível – Rafael enganou o menino pedindo que
ele o ajudasse a carregar um monitor de computador, “já com a ideia de
praticar os crimes”; porque uma tia atestou que Rafael praticava crimes
sexuais contra crianças desde a adolescência; porque depois de abusar do
menino ele o matou com requintes de crueldade, isto é, por asfixia;
porque escondeu o corpo o quanto pôde (isto é, até o corpo começar a
entrar em decomposição); e porque com seu gesto destruiu uma família.
Graças a duas circunstâncias atenuantes, isto é, o fato de ele ter
confessado o crime e sua idade, a pena foi fixada em 26 anos e 8 meses.
Soma-se a isso a pena de 13 anos por estupro de vulnerável, faz-se mais
uns cálculos jurídicos ininteligíveis e se chega à pena final de 36 anos
e 8 meses – dos quais Rafael/Suzy já cumpriu 8 anos sem nunca receber a
visita de uma só pessoa e certamente não da tia que testemunhou contra
ele.
Porque a sociedade é cruel, machista, sexista, transfóbica e só
encarcera negros e pobres que não têm o que comer e por isso precisam
recorrer ao crime – de acordo com a narrativa que tentam nos fazer
engolir. Ou porque ele não é exatamente uma pessoa agradável, de acordo
com os autos do processo.
Compaixão
A ideologia de gênero (algo que o próprio Drauzio Varella negou
existir em artigo recente) não quer apenas que você acredite que o sexo é
uma construção social. Ela quer que você veja os transgêneros de hoje
como mártires visionários incompreendidos pela sociedade retrógrada.
Eles não devem ser apenas protegidos por sua condição humana nem
tratados por sua disforia de gênero, e sim exaltados como símbolos de
uma utopia para a qual o homem deve caminhar a passos largos. Daí o
abraço todo carregado de sentido político de Drauzio Varella em
Suzy/Rafael.
A fim de criar essa nova categoria de pessoas superiores (e elas são
superiores porque não se sujeitam ao sexo biológico), a ideologia de
gênero precisa que você se sinta mal, culpado mesmo, um simplório
ignorante que teima em usar pronomes masculinos e femininos e em total
descompasso com o que os ativistas trans julgam ser o ápice do
progresso.
Compaixão é bom e eu gosto. Você gosta. Todo mundo gosta. E até
Rafael/Suzy, em outro contexto, isto é, num contexto de busca pelo
perdão (divino ou terreno) e pela redenção é digno de compaixão. Mas
será que posar de vítima da “maldade” imaterial dessa invencionice
chamada transfobia é o melhor jeito de buscar a redenção pelo crime de
ter estuprado e matado uma criança? Será que omitir o crime abjeto de
Rafael/Suzy é a forma mais honesta de propor que a sociedade encare o
antigo problema dos transexuais nas cadeias sob outro ângulo qualquer?
E, meu Deus, será que incentivar crianças (!) a mandarem cartas de
apoio a um pedófilo não é extrapolar um pouquinho os limites do
moralmente aceitável nesse caso todo (em que se pese a boa fé de quem
desconhecia o passado violento de Suzy, claro)?
Muito mais humanista (já que o termo está tão em voga) seria
expressar a mesma compaixão, a mesma solidariedade, o mesmo abraço
compungido e o mesmo amor epistolar pela família da criança que morreu
nas mãos de Suzy/Rafael, pelo pai e mãe que jamais verão o filho crescer
e que provavelmente fracassam em dormir à noite, se perguntando o que
poderiam ter feito, e não fizeram, para proteger a criança do predador.
E que foram obrigados a ver o perpetrador de um ato bárbaro elevado à
condição de ícone da causa trans, vítima da “onda conservadora”, do
machismo, dessa mentalidade “tacanha” do homem comum que só quer viver
em paz, na companhia de seus entes queridos, de preferência protegidos
de pedófilos assassinos.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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