O filme da Netflix - que conta com a atuação do ator petista Wagner
Moura -retrata os espiões cubanos como heróis corajosos que estavam
apenas defendendo sua terra natal e os membros de organizações exiladas,
juntamente com alguns de seus líderes, como terroristas. Artigo de
Roberto González e Zoe Gladstone, publicado pela National Review e
traduzido para a Gazeta do Povo:
Os Cinco Cubanos, também conhecidos como os Cinco de Miami ou Rede
Wasp, eram membros de um grupo de oficiais de inteligência cubanos
enviados a Miami no início dos anos 90 para espionar e sabotar
organizações exiladas cubanas e instalações dos EUA, incluindo o Comando
Sul, a Usina Nuclear de Turkey Point e base aérea de Homestead. O filme
da Netflix “Wasp Network: Rede de Espiões”, dirigido por Olivier
Assayas, e com um elenco que inclui atores populares como Wagner Moura e
Penélope Cruz, pretende contar a verdadeira história desse caso.
Embora o diretor faça uma narrativa emocionante, ele engana os
espectadores que não estão familiarizados com a história cubana. O filme
retrata os espiões como heróis corajosos que estavam apenas defendendo
sua terra natal e os membros de organizações exiladas cubanas,
juntamente com alguns de seus líderes, como terroristas. Essa abordagem
não é apenas desprovida de nuances, é uma ação que tenta reescrever a
história de maneira irresponsável. Na época, os Cinco Cubanos eram
universalmente entendidos como uma rede de espionagem que levantava
informações que permitiam que o governo cubano cometesse assassinatos
extrajudiciais.
O filme erra de várias maneiras. Primeiro, não contextualiza a
relação entre os líderes exilados cubanos -- muitos dos quais foram
forçados a fugir como refugiados -- e sua terra natal, nem mostra por
que certos membros da diáspora cubana optaram por criar grupos no
exterior. Esses indivíduos foram expulsos de seu país de origem em
grande parte devido à repressão implacável de seu próprio governo.
A Revolução Cubana levou milhões de pessoas a deixar o país, enquanto
Fidel Castro continuava perseguindo e punindo aqueles que ousavam
discordar do regime. As liberdades fundamentais foram suprimidas e
milhares de cubanos foram presos, espancados e executados. No entanto, o
diretor de “Wasp Network - Rede de Espiões” não tem escrúpulos em
deixar seus personagens se referirem a dissidentes políticos legítimos
com o rótulo oficial de "worm (verme)" (que as legendas traduzem como
"traidor").
Muitos cubanos no exílio começaram a criar organizações como a
Fundação Nacional Cubano-Americana (CANF) e Brothers to the Rescue --
ambas retratadas no filme -- dedicadas a uma transição democrática na
ilha. Suas atividades não passaram despercebidas pelo regime cubano, que
suspeitava que essas organizações planejassem conduzir uma guerra
contra o governo e até planejassem ataques terroristas. Posteriormente, o
Ministério do Interior cubano contratou vários agentes e os encarregou
de se infiltrar em algumas dessas organizações em Miami, bem como nas
instalações do governo dos EUA. O número exato de espiões que operavam
na Flórida ainda é desconhecido. Dez foram presos e julgados nos EUA;
cinco deles se declararam culpados e concordaram em cooperar com a
promotoria. Os cinco restantes são os que Havana mais tarde classificou
como os "Cinco Cubanos".
Um segundo problema do filme é que ele faz confusão entre onde
termina o trabalho humanitário pacífico e começam incursões armadas e
ataques terroristas. Enquanto alguns grupos de exilados, como o Alpha
66, defendiam abertamente o uso da violência para desmantelar o sistema
comunista totalitário de Castro, outros grupos de exilados -- ou seja,
Brothers to the Rescue, uma organização sem fins lucrativos fundada em
1994 -- promoveram missões beneficentes que o filme simplesmente ignora.
Infelizmente, as atividades do primeiro e do segundo são desonestamente
confundidas.
Enquanto espalhava propaganda internacional sobre a implementação da
educação e saúde universal em Cuba, Castro privou os próprios cubanos de
oportunidades ou liberdades econômicas. Com o colapso da União
Soviética em 1991, Cuba entrou no que era eufemisticamente chamado de
Período Especial, que incluía racionamento de alimentos e escassez de
gasolina, entre outras dificuldades.
A crise econômica e social em Cuba resultou na situação difícil de
milhares de cubanos que tentavam fugir para os Estados Unidos em
jangadas improvisadas. Tragicamente, enquanto tentavam atravessar o
oceano, centenas morreram e muitos foram atacados por tubarões. De 1991 a
2003, a Brothers to the Rescue foi dedicada à busca e resgate de
refugiados no Estreito da Flórida. No início dos anos 90, eles
realizavam 32 missões semanais, avistando mais de 17.000 refugiados
cubanos e, no processo, ajudando a salvar suas vidas. Eles também
estavam empenhados em lançar cartazes pró-democracia sobre Havana como
forma de protesto não-violenta. É claro que isso implicava violar o
espaço aéreo cubano como uma forma de desobediência civil contra o
regime.
Surpreendentemente, em 24 de fevereiro de 1996, Cuba derrubou dois
irmãos nos aviões de resgate enquanto eles estavam sobre águas
internacionais. Mísseis lançados por um avião militar MiG-29 de
fabricação soviética destruíram os dois aviões, matando as quatro
pessoas a bordo. É imperativo lembrar que aqueles quatro homens --
Armando Alejandre Jr., Carlos Alberto Costa, Mário Manuel de la Peña e
Pablo Morales -- estavam desarmados, indefesos e sobre as águas
internacionais quando atacados. Ao tomar essa ação, o regime cubano
enviou uma mensagem clara a outras pessoas envolvidas nos esforços da
sociedade civil de que esse método de dissidência traria pesadas
conseqüências. Foi a inteligência fornecida pela Rede Wasp na Flórida
que permitiu ao regime realizar o assassinato de quatro
cubano-americanos.
Uma comissão da Organização dos Estados Americanos condenou a
derrubada dos irmãos em 1996 pelos aviões cubanos e concluiu que o
regime de Castro violava ativamente o direito internacional. Ao
matá-los, Cuba negou às vítimas o direito a um julgamento justo sob a
Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem e outras leis
internacionais. A Força Aérea Cubana não fez nenhuma tentativa de
notificar ou alertar os aviões civis ou dar-lhes a oportunidade de
pousar, nem tentou usar outros métodos de interceptação. Essas ações
violam claramente o direito internacional, que exige que todas as
medidas sejam tomadas antes do uso da força contra aeronaves e proíbe o
uso da força contra aeronaves civis por completo. A Organização da
Aviação Civil Internacional confirmou que os aviões civis estavam sobre
as águas internacionais quando foram abatidos, não representando ameaça
iminente ao regime cubano.
O pior é que os registros das comunicações de rádio entre o MiG e a
torre de controle militar em Havana registram membros da Força Aérea
Cubana comemorando após a explosão dos aviões civis, dos quais não
sobrou nada.
A “Wasp Network: Rede de Espiões” se torna pura propaganda ao
retratar esse incidente. Não mostra sensibilidade pelas vítimas dos
aviões abatidos ou por suas famílias. Em vez disso, glorifica as ações
de espiões que estavam envolvidos em atividades criminosas. Ele tenta
dotar retroativamente espiões cujo trabalho custou vidas humanas com um
senso de honra.
Os milhões de assinantes da Netflix podem ser impelidos por um elenco
cheio de estrelas a assistir a esse drama histórico. Muitos serão
enganados por sua propaganda do regime pró-cubano. O povo cubano, em sua
constante luta pela liberdade e pelo respeito ao Estado de Direito,
merece apoio e solidariedade da comunidade internacional. Mais
importante, eles merecem ter suas histórias contadas com sinceridade,
não reescritas por Hollywood para servir à agenda implacável de uma
ditadura militar de 60 anos de idade.
Roberto González é advogado e Zoe Gladstone é pesquisadora da Human Rights Foundation.

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