O poder pertence a quem tem a prerrogativa de demitir. Fernão Lara Mesquita para o Estadão:
Como assim alguém honesto no Brasil?! O que pode ser mais ofensivo
que isso? Provas vivas da canalhice dos canalhas perambulando por aí?
Fecho os olhos e vejo-os lá, os nomeados todos assegurados pela nossa
insegurança, dos da sinecurazinha do pouco trabalho para todo o sempre
dos fundões aos das “dachas” intercontinentais mantidas com os euros
excludentes da presunção de inocência de seus donos, remoendo, remoendo,
remoendo...
Não! Nada disso! Essa é a desigualdade que mata! É preciso corromper
todos os íntegros, expor o lado torto dos retos, a face ruim de cada
coisa boa, a sombra de tudo onde bate sol. É preciso destruir todos os
heróis, enxovalhar com “narrativas” os que a História consagrou,
expulsar os bons exemplos a pontapés, esconder o remédio para as doenças
do Brasil.
A privilegiatura sente o País Real fungando-lhe no cangote. Sabe que
vai explodir. Sabe que só um dos dois sobreviverá. Está para matar ou
morrer. “É proibido reduzir gasto com funcionalismo.” “É proibido vender
estatais.” “Soltem os ladrões!” “Prendam a polícia!” “Que cada juiz
estabeleça suas próprias prerrogativas e decrete a verdade de cada
momento!”
Podem reabrir a discussão que a humanidade encerrou há “trocentos”
anos sobre se é ou não possível proibir pensamentos e palavras sem matar
a outra metade. Podem enfeitar a marafona velha da corrupção com a
lenga-lenga sobre se o gasto público é ou não é o pai do crescimento
econômico. Podem reativar a fábrica dos dossiês do asco...
Ande tudo isso nos poderá levar que não tenhamos chegado ainda?
Desde o tempo em que a imprensa era contra a censura e a OAB mandava
soltar preso político essa gente já não convencia ninguém. É de força
bruta que se trata. Esse Brasil que se levanta para matar o outro antes
que cresça é o de sempre. Uma ressurgência da lei da selva. A enésima
onda, mais virulenta do que nunca, das pragas da Idade Média por conta
de cepas resistentes aos antibióticos do contrato social e da democracia
que nós insistimos em nunca tomar na dose completa.
“Nós gastamos com educação mais que 89% dos países do mundo” e
continuamos com quase 89% de analfabetos funcionais porque é com prédios
superfaturados, merendas e livros didáticos roubados; é com marajás das
universidades públicas que ampliam e não com professores de escola
básica que encurtam a desigualdade, e não com educação que nós
gastamos.
“Nós gastamos com proteção social três vezes mais que o resto dos
países emergentes” e continuamos com pobres três vezes mais pobres e
três vezes mais desprotegidos que os deles porque não é com os pobres, é
com os pais dos pobres que nós gastamos.
É preciso dizer as palavras todas!
Nós não “gastamos muito e mal”, nós somos é os mais roubados do
mundo. E somos os mais roubados do mundo porque nossos ladrões são os
mais blindados do mundo. Deixemos para quando tivermos política os
tratados sobre política. Deixemos para quando tivermos economia os
tratados sobre economia. Hoje o que temos é um sistema primitivo de
exploração dos mais fracos pelos “mais fortes”, que só são “mais fortes”
porque se autoproclamaram como tal.
O povo não é só a única alternativa válida, é também a única
alternativa de poder à prova de explosões. A questão é como organizar o
jogo para que a emenda não fique pior que o soneto.
Como é de representantes, necessariamente, que se tratará nesta nossa
república continental, a legitimidade da representação é a chave de
tudo. Não é espontaneamente que ela se estabelece. Enquanto os mandatos
pertencerem aos eleitos e não aos eleitores e eles forem indemissíveis a
lei será a que eles quiserem que seja, começando pela que os dispensa
de segui-la, e a roubalheira será eterna. Não por qualquer
especificidade do brasileiro ou da sua história, mas porque o bicho
homem, como todos os que a natureza fez, é programado para buscar o seu
interesse pelo caminho mais fácil, dadas as circunstâncias.
Há, portanto, que manipular as circunstâncias.
A representação tem de ser isso de fato: uma relação baseada na
hierarquia entre duas partes que se reconhecem como dependentes uma
exclusivamente da outra. Dois instrumentos – e só eles – proporcionam
isso. Voto distrital puro que amarra pelo endereço cada representante
aos seus representados, e o poder de retomada do mandato do
representante a qualquer momento pelos seus representados e somente
pelos seus representados (recall). O outro ponto essencial é o controle
da pauta do debate nacional que só se consegue dando ao povo o poder de
propor (iniciativa) e recusar (referendo) leis.
É simples assim. Complicado é explicar o inexplicável. No mundo real,
aquele em que você trabalha para ter o seu lugar ao sol, o poder
pertence a quem tem a prerrogativa de demitir. E quem disser que não
entende a lógica dessa afirmativa ou é trouxa ou nunca trabalhou para
outro patrão que não fosse o Estado.
Quanto a como conseguir que “eles” aceitem essa lógica e ajam contra
seu próprio interesse, tenhamos a humildade de aprender com quem
conhece. Basta rugir mais alto e nos autoproclamarmos os mais fortes com
mais força do que “eles”.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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