Por Sérgio Rocha*
Durante muito tempo, a agenda climática
europeia pôde ser percebida, sobretudo fora do continente, como uma
construção política distante da vida cotidiana: metas de emissões,
compromissos internacionais e exigências ambientais impostas aos países
fornecedores.
Essa percepção está mudando rapidamente.
A sucessão de ondas de calor, secas prolongadas, incêndios florestais,
restrições hídricas e perdas agrícolas transformou as mudanças
climáticas em uma experiência concreta para a população europeia. Seus
efeitos já alcançam o preço dos alimentos, a disponibilidade de água, o
funcionamento da logística, o custo dos seguros e a própria
sobrevivência de produtores rurais.
Quando o consumidor sente a crise no
supermercado e o produtor a enfrenta diretamente no campo, a pauta
climática deixa de ser apenas uma discussão ideológica. Torna-se uma
questão de segurança alimentar, estabilidade econômica e proteção
social.
Nesse contexto, cresce a importância
atribuída à origem dos produtos e aos impactos associados à sua
produção. Para uma parcela cada vez mais relevante dos consumidores,
empresas e instituições europeias, o produto não termina em sua
aparência, qualidade ou preço. Ele também carrega a história de onde
veio e de como foi produzido.
É por isso que a fragilidade crescente
da agricultura europeia não significa, necessariamente, um
enfraquecimento das exigências ambientais impostas aos fornecedores
internacionais. Ao contrário, os sinais indicam que a necessidade de
proteger cadeias de abastecimento pode reforçar a busca por produtos
capazes de combinar escala, regularidade, segurança alimentar e
integridade ambiental.
Naturalmente, esse processo não ocorrerá
sem tensões. A Europa enfrenta pressões internas de produtores,
disputas políticas e debates sobre o ritmo da transição ambiental. O
desafio será equilibrar competitividade, segurança alimentar e
sustentabilidade. Mas a existência dessas divergências não significa o
abandono da agenda de rastreabilidade e controle da origem. A discussão
tende a se concentrar cada vez mais em como implementar essas exigências
e garantir sua viabilidade econômica.
Mais do que uma exigência documental
É nesse contexto que ganha importância o
Regulamento Europeu para Produtos Livres de Desmatamento, o EUDR. A
legislação abrange cadeias como as de carne bovina, soja, café, cacau,
madeira, borracha e óleo de palma.
Para acessar o mercado europeu, os
operadores deverão demonstrar que os produtos não foram originados em
áreas desmatadas após 31 de dezembro de 2020 e que respeitam a
legislação do país de produção. As principais obrigações passam a valer
em 30 de dezembro de 2026 para grandes e médias empresas e, em regra, em
30 de junho de 2027 para micro e pequenas empresas.
Mais do que uma nova exigência
documental, o EUDR representa uma mudança na arquitetura do comércio
mundial de alimentos. A origem declarada deixará de ser suficiente. Será
necessário comprová-la.
Isso exige uma mudança profunda na forma
como empresas e cadeias produtivas enxergam seus fornecedores.
Monitorar apenas o elo imediatamente anterior da cadeia oferece uma
fotografia parcial da origem. O fornecedor direto é apenas a parte
visível de uma rede que pode envolver inúmeros produtores, propriedades,
intermediários, movimentações e transformações.
Em cadeias complexas, o risco ambiental
pode estar justamente nos elos anteriores, fora do alcance dos controles
tradicionais. Na pecuária, por exemplo, não basta conhecer apenas a
fazenda que vende o animal ao frigorífico. É necessário compreender as
propriedades pelas quais esse animal passou nas etapas anteriores de
criação, recria e engorda. Em cadeias como soja, café e cacau, o desafio
também está em identificar e comprovar a origem real da produção, mesmo
quando existem cooperativas, armazéns, tradings e intermediários entre o
produtor e o exportador.
A transferência de produtos entre
propriedades, a mistura de origens e a passagem por diferentes agentes
podem dificultar a identificação da trajetória completa de uma
mercadoria. É justamente nesses pontos que os controles tradicionais
encontram seus maiores limites. Por isso, a capacidade de enxergar a
cadeia de forma ampla passa a ser um fator estratégico. Não será
suficiente perguntar apenas de quem se comprou. Será preciso demonstrar
de onde veio, por onde passou e quais informações acompanham sua
trajetória.
Tecnologia como infraestrutura de mercado
Esse novo cenário exigirá a combinação
de geolocalização das propriedades, imagens de satélite, inteligência
geográfica, análise histórica do uso da terra, rastreamento das
movimentações e integração de informações ao longo de toda a cadeia. A
própria União Europeia já mantém um sistema eletrônico para o registro
das declarações de diligência, inclusive com integração por APIs para o
processamento de informações em escala.
A tecnologia, portanto, deixa de ser
apenas uma ferramenta complementar de sustentabilidade. Ela passa a
funcionar como infraestrutura de acesso ao mercado. Bancos, seguradoras,
tradings, frigoríficos, indústrias e grandes redes varejistas
precisarão conhecer com muito mais profundidade a origem dos produtos
que financiam, compram ou comercializam. Um problema ambiental
localizado em determinado elo da cadeia pode rapidamente se transformar
em risco regulatório, financeiro e reputacional para diferentes agentes
envolvidos.
Mas a fiscalização, sozinha, não será
capaz de resolver todos os desafios. Se a Europa pretende transformar
efetivamente as cadeias globais de abastecimento, precisará combinar
exigência regulatória com mecanismos econômicos capazes de reconhecer e
valorizar quem produz preservando.
Nesse cenário, devem ganhar espaço
linhas de crédito diferenciadas, seguros vinculados à performance
socioambiental, pagamentos por serviços ambientais, instrumentos
relacionados ao carbono, fundos de transição e modelos de financiamento
que reconheçam o valor econômico da floresta preservada.
A União Europeia e seus Estados-membros
já mobilizaram € 81,5 milhões para apoiar cadeias livres de desmatamento
e pequenos produtores em mais de 26 países, sinalizando uma agenda que
busca combinar controle e incentivo.
O desafio central será transformar a
preservação em um ativo econômico verificável. Para isso, será
necessário medir, monitorar e comprovar. A mesma inteligência
territorial utilizada para identificar e bloquear produtos associados ao
desmatamento também poderá ser empregada para reconhecer produtores
responsáveis, reduzir riscos, direcionar capital e oferecer melhores
condições financeiras.
Uma oportunidade para o Brasil
Essa transformação cria uma oportunidade
especialmente relevante para o Brasil. O país possui escala,
diversidade produtiva, tecnologia tropical e capacidade para ampliar sua
participação na segurança alimentar mundial. Mas o diferencial
competitivo do futuro não será apenas produzir mais. Será produzir mais
com origem comprovada, transparência territorial e capacidade de
demonstrar continuamente a conformidade ambiental de suas cadeias.
As empresas exportadoras de
matérias-primas ou produtos finais que consigam incorporar e comprovar
atributos ambientais adicionais poderão conquistar posições cada vez
mais valorizadas nos mercados internacionais. Da mesma forma, países e
estados que desenvolverem mecanismos eficientes de monitoramento e apoio
às empresas poderão fortalecer a identidade e a reputação de seus
produtos.
Mais do que cumprir uma exigência,
trata-se de criar diferenciação. Territórios capazes de demonstrar
transparência, regularidade e integridade ambiental estarão mais bem
posicionados para acessar mercados, atrair capital, desenvolver produtos
de maior valor agregado e atender consumidores e compradores cada vez
mais atentos à origem do que consomem.
A crise climática europeia, portanto,
não deve ser analisada apenas como um problema interno do continente. Ao
atingir diretamente a produção agrícola, o abastecimento e a vida
cotidiana, ela tende a influenciar também as decisões políticas,
econômicas e comerciais da região.
O Brasil que souber utilizar tecnologia
para diferenciar o produtor responsável daquele que atua de forma
irregular poderá converter uma exigência em vantagem competitiva. Em vez
de tratar rastreabilidade e monitoramento exclusivamente como barreiras
ou custos de conformidade, poderá utilizá-los para proteger sua
reputação, ampliar o acesso aos mercados e criar melhores condições para
a atração de capital.
A próxima fronteira do agronegócio
global será definida não apenas pela capacidade de produzir alimentos em
escala, mas também de comprovar sua origem. Nesse cenário, tecnologia,
inteligência territorial e rastreabilidade completa deixam de
representar apenas instrumentos de controle. Tornam-se ferramentas de
competitividade, valorização da produção e acesso aos mercados.
A grande oportunidade estará justamente
na capacidade de trazer visibilidade aos elos que, durante muito tempo,
permaneceram fora do campo de visão das empresas e dos sistemas
tradicionais de controle. Porque, no novo comércio global, produzir será
fundamental. Mas conseguir provar como, onde e sob quais condições se
produziu poderá ser o verdadeiro diferencial competitivo.
*CEO e fundador da Agrotools.