MEDIÇÃO DE TERRA

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MEDIÇÃO DE TERRAS

sexta-feira, 3 de abril de 2026

O necessário debate entre os extremos

 


 

 

Percival Puggina

         O governador do Rio Grande do Sul se encarregou de ilustrar, por conta própria e sem entender a causa, o que acontece com o debate político brasileiro. Apresentando-se como vítima, ele atacou seu alijamento da campanha presidencial como se fosse consequência dos polos a que se refere. 

Vamos imaginar que Eduardo Leite tivesse razão. Suponhamos que os dois polos, intrometidos e igualmente malvados como parece vê-los, não entendam quanto andaríamos melhor de mãos dadas. Já pensou? A canção “Imagine” na Praça dos Três Poderes! Coroa de flores na cabeça, “all the people” unido num único “centro democrático”, “liberal”, comprometido com a “conciliação” e com a “construção de soluções reais”, etc.?

Certamente ele não está falando no Centrão dos negócios, feirão de votos parlamentares, nem nos partidos sem cor nem sabor que se aglutinam representando a maior parte do aparente sincretismo político brasileiro. Pergunto: e se não for à turma da esquerda, nem à da direita, nem à do Centrão, que se refere o governador gaúcho? Quantos votos têm as pessoas com as quais ele vem conversando e tanto apoio diz lhe terem prestado?

Há algo ainda mais intrigante na tese de Eduardo Leite. Ele teve oito anos consecutivos de mandato. Teve todo o tempo do mundo para aplicar sua harmoniosa plataforma no Rio Grande do Sul. Andou disciplinadamente no Centro e muitos o viram como frequentador habitual do topo do muro. Por afinidade, era muito mais fácil para ele do que para qualquer outro trabalhar junto com o PT. No entanto, para governar, precisou articular-se com a direita, com os conservadores do PP gaúcho. Por quê? Porque o PT jamais dá as mãos ou aceita proximidade com quem senta na cadeira que ele pretendeu ocupar e à qual deseja retornar.

De nada adiantou Eduardo Leite se alinhar com o polo esquerdista em questões bem específicas como o “fecha tudo” da Covid e a anistia. Foi o PP gaúcho, de direita, quem lhe deu o apoio de que precisava ao longo de oito anos. É por ideias e ações que se estabelece o antagonismo político. Os dois polos não existem para aborrecer Eduardo Leite, mas por absoluta necessidade do momento. Vejam o Brasil! O petismo e seus coadjuvantes, seus escândalos e desastres, suas práticas e maus costumes precisam ser confrontados! Ainda bem que, com a inesperada liderança original de Bolsonaro, a direita parou de perder por W.O., rompeu o teatro das tesouras e se alinhou como polo oposto. Isso foi e continua sendo historicamente oportuno e necessário. Há que preservar o que subsiste e retomar o bem que se perdeu nos últimos 40 anos.

Eis o motivo pelo qual o governador gaúcho fala num centro democrático, liberal e conciliador, sem mencionar a palavra “conservador” e sem nenhum registro sobre o valor da tradição e da fé. Se depender dele, a guerra cultural que confronta o Ocidente já tem perdedor e essa posição exige oposição.

Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

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