MEDIÇÃO DE TERRA

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MEDIÇÃO DE TERRAS

sexta-feira, 3 de abril de 2026

A paixão de Cristo

 


 

Percival Puggina      

        Durante os primeiros três séculos do cristianismo, a crucifixão de Jesus era vista como algo tão infame que os cristãos não se identificavam pela cruz, mas pelo esquemático desenho de um peixe. Foi com Constantino que ela se afirmou como símbolo cristão. E, mesmo assim, apenas a cruz, não o crucifixo. Outros séculos transcorreram até surgir a representação do crucificado, mas em forma gloriosa, reinando do alto da cruz. E um milênio inteiro decorreu entre agonia do Calvário e as primeiras representações gráficas do sofrimento humano de Cristo.

Creio que esse dado serve para explicar, em parte, o profundo impacto causado pelo filme de Mel Gibson. A pintura e a escultura jamais puderam comunicar, de modo perceptível à sensibilidade humana, a flagelação e a agonia de Jesus. Só com o cinema surgiria o conjunto dos instrumentos de comunicação necessários. E foi preciso ao próprio cinema vencer todo o século XX para chegarmos à uma Paixão de Cristo que alcançasse o realismo e a intensidade atingidos pela obra de Mel Gibson. Se tivermos que buscar um único mérito no filme – e ele tem muitos outros – certamente será este: pela primeira vez em quase dois mil anos, o sofrimento de Jesus encontrou uma representação real, compreensível aos olhos humanos.

Vitorio Messori, num texto que tive a oportunidade de ler, cita São Tomás de Aquino, quando este adverte que não se deve representar a verdade com argumentos irrisórios. A meditação que Gibson faz sobre a Paixão (o filme é isso) por certo não incorre nesse equívoco. Martela, com extraordinário vigor, a mensagem essencial da paixão, morte e ressurreição. Cristo não fez essa trajetória por culpa dos judeus que pediram sua condenação, ou dos romanos que o flagelaram e crucificaram. Foi pelos pecados da humanidade inteira que Ele assumiu a cruz, do alto da qual pediu ao Pai que perdoasse aqueles que o faziam padecer porque eles não sabiam o que faziam. E não sabiam mesmo.

O filme nos põe na cena dos fatos, junto a Maria e João, com uma espada de dor atravessada no peito. Comove e move. Vale à pena submeter-nos à crueza das imagens?  Se apenas comover pela dor, não. Se mover pelo amor, sim.

Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

 

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