BLOG ORLANDO TAMBOSI
A resposta de Claudine Gay sobre exortações ao genocídio de judeus não seria a mesma perante qualquer outra minoria. João Pereira Coutinho para a FSP:
Sempre
gostei do verbo desconversar. Aplicado em contexto político ou
cultural, significa corromper uma discussão pelo uso de argumentos
laterais, estados de alma, puras exibições de má-fé.
Desconversar
é sabotar: quando a evidência e os fatos destroem uma boa narrativa, o
melhor é mudar de assunto para matar o assunto principal.
Um caso extremo dessa arte encontra-se na carta que Claudine Gay publicou no New York Times para justificar a sua renúncia ao cargo de reitora de Harvard.
O título resume o espírito do texto: "What Just Happened at Harvard Is
Bigger than Me", ou o que acabou de acontecer em Harvard é maior do que
eu. Mas o que aconteceu, afinal?
Semanas atrás, Claudine Gay esteve presente no Congresso americano,
juntamente com Liz Magill, da Universidade da Pensilvânia, e Sally
Kornbluth, do MIT, para ser questionada sobre a passividade da sua
instituição na luta contra o antissemitismo.
A guerra entre o Hamas e Israel incendiou
os ânimos nas três universidades e exibições de ódio aos judeus (e não
apenas aos "sionistas" ou "israelenses") se tornaram frequentes.
Foi
nesse contexto que Claudine Gay foi questionada se era aceitável
exortações ao genocídio de judeus. "Depende do contexto", respondeu Gay.
A
resposta é moralmente aberrante para qualquer pessoa dotada de
atividade cerebral: a liberdade de expressão tem limites e um deles é o
encorajamento à prática de crimes contra terceiros.
Mas
a resposta é também hipócrita e ilógica. Hipócrita, porque Gay jamais
responderia o mesmo perante exortações ao genocídio de negros, gays ou
de qualquer outra minoria.
E
é também ilógica, porque faz tanto sentido responsabilizar todos os
judeus pelos atos do governo de Netanyahu em Gaza como responsabilizar
todos os negros pelos atos de brutalidade de um qualquer governo
africano em estado de guerra.
A ideia de que uma etnia é coletivamente responsável pelos atos de alguns é um pensamento totalitário, digno do Terceiro Reich, mas indigno de uma democracia e de um estado de direito.
Mas
Claudine Gay não foi apenas contestada pelas suas respostas
relativistas. O seu trabalho acadêmico, visto à lupa, revelou vários
casos de plágio —um crime intelectual que não seria perdoado a um aluno
de primeiro ano em Harvard.
Pois
bem: na sua carta, Claudine Gay não nega os erros cometidos. Na
audiência do Congresso, deveria ter dito que a exortação ao genocídio de
judeus é aberrante e inaceitável. Nos plágios, deveria ter feito as
citações devidas.
Porém,
o seu afastamento explica-se por outros motivos, acrescenta Gay: pelo
racismo que opera na sombra e pela demagogia daqueles que querem
destruir "a fé pública nos pilares da sociedade americana", como as
universidades, e que não toleram a missão acadêmica de "excelência,
abertura, independência, verdade".
Eis
a má-fé de Claudine Gay: confrontada com os seus erros, ela
desconversa. E joga a carta racial como boia de salvação, sem se
aperceber que Liz Magill, reitora da Universidade da Pensilvânia, também
pediu a renúncia ao cargo depois de fazer iguais figuras na audiência
do Congresso. Liz Magill é branca.
Por
outro lado, é impressionante como a ex-reitora de Harvard denuncia uma
vasta conspiração contra a sua imaculada pessoa sem apresentar um único
fato para a comprovar.
Se
alguém destruiu a "fé pública" na Universidade Harvard, foi Claudine
Gay, com a tolerância infame ao antissemitismo. Se alguém pôs em causa a
"excelência" e a "verdade" da instituição, foi Claudine Gay com os seus
plágios.
Que
a senhora não veja as coisas da mesma forma só mostra como, na luta
contra o racismo e a discriminação, são por vezes os seus "ativistas"
que mais sujam essa luta. Como?
Manipulando uma causa justa para se limparem dos seus erros pessoais.
.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário