O presidente recompensa a lealdade de Cristiano Zanin com uma vaga no STF. Seu nome deverá ser aprovado pelo Senado, mas haverá faturas a pagar. Vanessa Lippelt, Julia Schiaffarino e Wilson Lima para a revista Crusoé:
O presidente Lula já foi muito criticado por suas indicações ao Supremo Tribunal Federal.
Até
esta semana, a mais polêmica havia sido a de Dias Toffoli, que em 2009
era advogado-geral da União e ex-advogado da liderança do PT na Câmara
dos Deputados. Na época, muito se falou da juventude — Toffoli tinha 41
anos — e do “notório saber jurídico” do candidato, que estava longe de
ser notório. Apesar dos pesares, ele foi aprovado pelo Senado e o resto é
história.
Agora,
Lula dobra a aposta e resolve indicar o seu ex-advogado pessoal,
Cristiano Zanin, de 47 anos, para o Supremo. A companheiros, o
presidente admite que saber jurídico pode ter algum valor, mas que a
lealdade de Zanin ao longo do seu processo na Lava Jato foi determinante
para a escolha. Em resumo: o advogado foi premiado com uma vaga no STF
por ter tirado o petista da cadeia.
Deve
ser especialmente saborosa para o presidente a seguinte ironia: a tese
de que Sergio Moro foi parcial ao julgá-lo anulou seus processos e lhe
deu a liberdade. Agora, ele emplaca no Supremo um advogado que considera
fiel, enquanto os meios político e jurídico agem como se o risco de
parcialidade fosse irrelevante.
Antes de anunciar sua decisão, Lula obviamente procurou se certificar que o nome será aprovado no Senado.
Na
Comissão de Constituição e Justiça, a tendência é que Zanin seja
aprovado sem maiores dificuldades (obviamente, com voto contrário do
senador Moro). Mas até mesmo integrantes do PL já admitem, em caráter
reservado, que não vão se opor quando a indicação chegar ao plenário do
Senado. Ninguém vê vantagem em despertar a antipatia de quem está muito
perto de vestir a toga.
O
fato é que desde 1894 um indicado ao STF não é barrado pelo Senado.
Para isso, talvez fosse necessária a indicação de um personagem como
Cândido Barata Ribeiro, que nem sequer jurista era. E olhe lá.
FATURA A PAGAR
Os
sinais para Lula e Zanin são positivos – mas isso não significa que não
haverá uma fatura a pagar. Articuladores políticos do Congresso admitem
que Lula ainda precisará lidar com uma tensão interna no União Brasil
para ver o nome de seu advogado sacramentado.
Nesta
quarta-feira, 31 de maio, o presidente da República conversou com o
presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, Davi
Alcolumbre (União-AP), para tratar da indicação. Alcolumbre, no início
do ano, recebeu a chave do cofre do Ministério de Integração Nacional e
sugeriu o nome de Waldez Góes para a função.
Contudo,
a indicação de Góes não contemplou a ala da Câmara do União Brasil —
que articulou com integrantes da bancada ruralista uma derrota para o
governo Lula na votação da MP dos Ministérios, nesta semana. Se, por um
lado, a MP não perdeu a vigência, por outro o governo Lula foi obrigado a
engolir o esvaziamento das funções do Ministério do Meio Ambiente e do
Ministério dos Povos Indígenas.
Durante
conversas com o presidente da Câmara, Arthur Lira, Lula acenou com uma
mudança ministerial para contemplar Elmar Nascimento, amigão de Lira e
líder do União na Câmara. Mas isso poderia prejudicar justamente
Alcolumbre. É bom lembrar que o presidente da CCJ deixou na gaveta a
indicação de André Mendonça ao STF por quatro meses, até que o então
presidente Jair Bolsonaro resolvesse abrir o cofre (via emendas
parlamentares) para o senador amapaense.
O
ajuste para agradar a dois senhores não será fácil. Com os tropeços da
articulação política, o governo se vê refém tanto da Câmara quanto do
Senado nas votações importantes.
Uma
solução que começa a ser traçada é a promessa de apoio a Alcolumbre
para disputar a presidência do Senado em 2025, quando Pacheco não poderá
se reeleger. Também entra nessa conta a possibilidade de um
posicionamento mais firme do Palácio do Planalto em favor da perfuração
de petróleo na Foz do Amazonas, que poderia render bilhões em royalties
ao Amapá. Alcolumbre — que não tem boas relações com Marina Silva,
ministra do Meio Ambiente e contrária à exploração da reserva marinha —
vê no empreendimento da Petrobras a possibilidade de colher dividendos
políticos.
O CORPO A CORPO DE ZANIN
Enquanto
Lula procura desfazer nós no Congresso, o próprio Zanin faz corpo a
corpo com políticos e outras autoridades que possam poupá-lo de um
revés.
Em
março, o advogado participou de dois jantares com integrantes do PT
para tratar da sua até então hipotética indicação ao STF. Durante os
encontros, parlamentares conversaram com Zanin sobre possíveis
fragilidades de sua candidatura. A deputada federal Gleisi Hoffmann
(PR), que também é presidente do PT, tornou-se uma das suas principais
defensoras no Congresso.
No
mesmo período, dois ministros do Supremo — Gilmar Mendes e Cármen Lúcia
— se manifestaram favoravelmente à indicação de Cristiano Zanin. O
ex-ministro Celso de Mello também saiu em defesa do advogado. Em
entrevistas, disse que o fato de ter sido advogado de Lula não
desqualificava Zanin “para o elevado ofício que exercerá na Corte”.
Já
em abril, depois de cumprida a agenda política, Zanin mirou o
Judiciário em sua busca por apoio e agendou reuniões com membros do
Superior Tribunal de Justiça. O que deveria ser um encontro discreto
entre o preferido de Lula e os ministros do STJ acabou sendo descoberto,
por acaso, pelo senador Davi Alcolumbre durante uma visita do
parlamentar à presidente daquela corte, a ministra Maria Thereza de
Assis Moura. Àquela altura, o senador do Amapá apoiava Luis Felipe
Salomão, ministro do STJ, para a vaga de Lewandowski.
Talvez
não seja surpresa saber que os menos entusiasmados com a indicação de
Zanin são seus colegas de carreira. Advogados endinheirados que vivem em
torno de Lula e do PT, como os do grupo Prerrogativas e do Instituto
para Reforma das Relações entre Estado e Empresa (Iree), reclamam que
falta “milhagem” a Zanin. “É um bom advogado, mas não tem leitura
política, não tem densidade, não tem produção intelectual”, diz um
deles, de nariz torcido.
Antes
de indicar Zanin, Lula teve três encontros com o ex-ministro Ricardo
Lewandowski para discutir a sua sucessão. Em todos, Levandowski
reafirmou seu apoio à indicação de Manoel Carlos de Almeida Neto,
ex-secretário-geral do STF e TSE. Nas conversas, Lula pediu compreensão
ao colega ex-ministro e disse que desjava colocar alguém de absoluta
confiança no STF. Não era o momento de Manoel Carlos. Entre o pagamento
de uma dívida que se acumula desde o julgamento do mensalão — ninguém
prestou mais serviços a Lula e ao PT no STF do que Lewandowski — e a
expectativa de contar com a lealdade canina de um ministro, o presidente
optou pela segunda alternativa.
Postado há 3 weeks ago por Orlando Tambosi

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