MEDIÇÃO DE TERRA

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MEDIÇÃO DE TERRAS

sexta-feira, 3 de março de 2023

A disputa pela verdade na Wikipédia

 



A descrição de eventos como o de 08 de janeiro leva a grandes embates entre os editores da Wikipédia, um dos dez sites mais visitados da internet. Reportagem de Guilherme Mendes para a Crusoé:


Em 2020, a revista norte-americana Wired definiu a Wikipédia como “O Último Lugar Legal da Internet” — uma afirmação que não é, de todo, exagerada: criada em 2001, ela é o sétimo site mais visitado do planeta e o único site do Top 10 que não tem fins lucrativos. Movida por conteúdo criado pelos próprios leitores, livre de direitos autorais, a plataforma serve de contraponto aos grandes negócios criados no Vale do Silício.

As 6,6 bilhões de visitas mensais (o dobro da Amazon, indica o site Statista) colocam a Wikipedia no topo dos resultados de busca do Google em diversos assuntos. Do primeiro disco de Tim Maia à lista de papas que tiveram vida sexual documentada, a lista de respostas que ela oferece é vastíssima. Para quem deseja informação rápida, a procura com frequência começa e termina na Wikipédia. Mas por trás de uma página da enciclopédia digital pode haver guerras sendo travadas.

A página brasileira sobre a invasão bolsonarista aos prédios dos Três Poderes em 8 de janeiro ilustra bem a situação: discussões sobre democracia, extrema-direita e o uso do termo “terrorismo” para os atos de vandalismo mobilizam, há mais de um mês, exércitos de colaboradores da plataforma.

Edições em série — A página sobre o tema tem o nome de Ataques às sedes dos Três Poderes do Brasil em 2023 e nesta quinta-feria, 23, assim começava:

Os ataques às sedes dos Três Poderes foram uma série de crimes ocorridos na tarde de 8 de janeiro de 2023, quando bolsonaristas extremistas invadiram as sedes dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário do Governo federal do Brasil, localizadas na Praça dos Três Poderes, em Brasília.

A página apontava para 250 fontes externas, 11 fotos e seis tweets, além de centenas de links internos. Mas ela começou pequena e com outra entonação: uma primeira versão, no ar a partir das 19 horas daquele mesmo 8 de janeiro, falava em “vândalos bolsonaristas”. Ao final da noite, a expressão utilizada era “terroristas bolsonaristas”. No dia 10, a Wikipédia falava de “terroristas e criminosos bolsonaristas”.

Apesar do caráter livre, a enciclopédia só pode ter seus verbetes alterados por “editores autoconfirmados estendidos” – voluntários mais experientes, que estão na plataforma há pelo menos 30 dias e com mais de 500 revisões confirmadas. A discussão sobre a invasão dos Três Poderes ocorre em um endereço separado, onde afloraram os ataques e contra-ataques.

“Por que TANTO medo da palavra ‘terrorista’? Usa-se em artigos da Wikipédia todo o tempo”, escreveu um editor no painel, às 23h daquele domingo turbulento. “Se aplicada a própria definição da Wikipédia, os invasores são TERRORISTAS.” Com maiúsculas e tudo.

“Por mais que eu concorde com vocês, tenho medo de que a ideia de apresentar manifestantes (mesmo que violentos) como uma organização terrorista (quando são apenas manifestantes violentos e que não têm respeito pelo próprio país), possa ser considerado parcial (mesmo que não intencionalmente)”, escreve outro colaborador. “Creio que imparcialidade política é essencial nessas horas e evitar uso de adjetivos para descrever um partido como ‘bom’ ou ‘mal’ seria recomendado.”

Outro atrito envolveu o nome da página: “O termo ‘invasão’”, diz um, se referindo ao primeiro termo usado na página, “não é representativo do ocorrido, eis que não ocorreram meras invasões, mas também destruição, saques e vandalismo. Portanto, sugiro a mudança para algo mais adequado aos eventos.” Quando esse editor lembra da página sobre o acontecimento semelhante ocorrido nos Estados Unidos em 2021, outro discorda: “O que aconteceu no Capitólio foi em menor número em comparação com a Sede dos Três Poderes.”

Nem sempre a coisa é amistosa e, em alguns momentos, o tom aumenta: “Acho melhor você controlar seu linguajar caso não queira que eu leve essa para a administração”, ameaça um administrador que atua na plataforma desde 2007. Outro wikipedista com 13 anos de casa perde a paciência: “A Wikipédia não é o Twitter. Não é uma democracia.”

Histórico — Nos últimos 30 dias, 9.416 editores mexeram em algum dos 1,1 milhão de artigos da Wikipédia lusófona. Alguns são mais experientes que outros e, na hierarquia, têm certas vantagens: 716 são autorrevisores e podem editar artigos sem supervisão; e 50 são administradores do site (apenas duas mulheres). São professores, historiadores, militares, jornalistas, tradutores, engenheiros, advogados e estudantes — todos voluntários.

Há uma espécie de regimento interno. Cinco pilares devem seguidos incondicionalmente (entre eles o de manter a imparcialidade e entender que regras e condutas podem ser revistas). Há políticas de conteúdo (onde novamente prevalece a imparcialidade), além de regras de estilo. O autor na Wikipédia não deve forçar a barra para comprovar seu ponto de vista, e deve buscar sempre fontes confiáveis, que sejam verificáveis e não sejam inéditas.

Não que editar o que é a verdade factual para uma enciclopédia tão ampla e tão acessada seja simples, mas o caso do 8 de janeiro não é novidade para a comunidade lusófona: em 2015 o artigo “Impeachment de Dilma Rousseff” já era um ponto de atrito entre os editores.

“Esse verbete está sendo escrito de forma parcial” é o primeiro comentário escrito, ainda em dezembro de 2015. A discussão sobre o artigo se estende até 2021 — cinco anos após o fim do processo no Congresso. Há debates sobre o uso de palavras como “petista” (os editores não consideraram pejorativo), “golpe” — utilizada 61 vezes no artigo, em diferentes contextos — e mesmo “presidenta”. A uma dessas réplicas, um editor mais antigo novamente ponderou: “A Wikipédia não cria e nem interpreta fatos. A Wikipédia apenas reproduz o que está nas fontes confiáveis.”

Um dos que reclamaram da “falta de neutralidade” na página sobre o impeachment acabou banido no ano passado de maneira definitiva, após 26 advertências. O processo que culminou na sua saída foi definido por consenso — outra característica central da Wikipédia. “Por exemplo, não havendo consenso sobre uma determinada alteração a um artigo, ou chama-se mais gente a participar ou então mantém-se o status quo, isto é, mantém-se a última versão da página antes do conflito”, explica o português Luis Almeida, um dos administradores da Wiki lusófona.

Em artigos ainda mais controvertidos, como a página em inglês da invasão ao Capitólio em Washington, a conversa toma 21 páginas. O tema, ainda sensível no universo político americano, levou a Wikipédia em inglês a também fechar a página para novos editores, após vários ataques de vandalismo em seu conteúdo.

Lições aprendidas — Um dos administradores da Wikipédia lusófona, o brasileiro Rodrigo Padula argumenta que a comunidade está acostumada a lidar com grandes eventos e tragédias quase em tempo real. “Fazemos desde sempre nosso dever de casa, criando e melhorando nossas regras, filtrando e classificando fontes para que em acontecimentos importantes como esses, naturalmente tenhamos mecanismos de controle e acompanhamento”, pondera.

Mesmo ele — que atua editando artigos desde 2006 — já viu as coisas saírem de controle no ano passado, ao trabalhar na edição de outra página sensível, a das eleições de 2022. Em abril, ele foi acusado pelo portal Brasil247 de ferir o princípio da neutralidade ao retirar o blog da lista de “fontes confiáveis” a serem utilizadas em artigos da Wikipedia. O ataque, que durou meses, gerou uma rara nota de repúdio por parte da Wikipédia.

Diz Padula: “Por falta de compreensão das regras da Wikipédia e também por viés político, alguns blogs, jornalistas e até associações profissionais de imprensa se embrenharam em campanhas difamatórias contra os editores envolvidos na classificação desses veículos como não confiáveis para uso na Wikipédia.”

Quanto à página dos atos de 8 de janeiro, ela continua aberta e livre para contribuição em 30 idiomas, entre eles galês, basco, curdo, indonésio e quéchua.
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