BLOG ORLANDO TAMBOSI
Nas próximas semanas será decidido se a campanha presidencial de 2022 será em um ou dois turnos. Redação Crusoé:
Se
agosto é o mês do desgosto na política brasileira (lembremos do
suicídio de Getúlio Vargas, da renúncia de Jânio Quadros, da morte de
Eduardo Campos), setembro é o mês do desassossego – especialmente de
quatro em quatro anos, quando acontecem eleições presidenciais.
A
um mês do primeiro turno, este é o momento em que a campanha pega fogo.
Em 2022, dois cenários bastante diferentes são plausíveis, segundo as
pesquisas de intenção de voto, o que deixa o ambiente político ainda
mais aquecido. Num deles, Lula vence a eleição no primeiro turno. Em
outro, a distância entre o petista e Jair Bolsonaro se estreita a ponto
de levar a disputa para um segundo turno embolado.
Dois
institutos de pesquisa, o Ipec e o Datafolha, ainda acenam com a
possibilidade de Lula liquidar a fatura já no dia 2 de outubro. No
levantamento do Ipec divulgado na última terça-feira, 30, Lula surgiu
com 44%, seguido por Bolsonaro com 32%, Ciro Gomes com 7%, Simone Tebet
com 3% e Felipe D’Ávila com 1%.
O
Datafolha mostra que as chances de uma eleição resolvida em um só turno
diminuíram. Na pesquisa divulgada pelo instituto nesta quinta-feira,
essa vitória já não acontece: Lula tem 45%, Bolsonaro 32%, Ciro Gomes
9%, Simone Tebet 5%, e Felipe D’Ávila, Soraya Thronicke e Pablo Marçal,
1% cada um.
Outros
institutos indicam os dois principais candidatos separados por margens
bem mais estreitas. No Ipesp da quarta-feira, 31, Lula tem 8 pontos
percentuais de vantagem sobre Bolsonaro: 43% a 35%. Também na quarta, o
Paraná Pesquisas mostrou o petista com 41,3% contra 37,1% do presidente,
situação de empate técnico quando se leva em conta a margem de erro.
Também há empate técnico na sondagem da Futura Inteligência, mas com
Bolsonaro à frente: 40,1% a 36,9%.
A
possibilidade de que o voto em Bolsonaro esteja subestimado foi
mencionada nesta quinta-feira pelo cientista político Antônio Lavareda,
em entrevista ao canal CNN. “Bolsonaro tem crescido regularmente nas
últimas pesquisas, chamando atenção para a hipótese de subnotificação do
voto em alguns segmentos, especialmente naqueles de menor renda e
escolaridade”, disse Lavareda. “Quando algumas pessoas têm uma opinião
que discrepa da opinião majoritária do seu grupo, elas escondem e
ocultam essa preferência, para não entrar em conflito.”
Qual
dois retratos está correto? A incerteza pressiona os candidatos, que
precisam cativar os eleitores indecisos e impedir que seus apoiadores
menos convictos escapem. Há missões a cumprir e armadilhas a evitar –
sabendo que o tempo é curto para corrigir eventuais mancadas.
O
número de pessoas que declaram já ter decidido o seu voto é alto. Nas
diferentes sondagens, ele gira em torno de 80%. Isso dá uma ideia das
dimensões da “lagoa” onde os candidatos ainda podem pescar eleitores.
Falamos de menos de 20% do eleitorado, porque também existem aqueles que
pretendem votar em branco ou anular. A pesquisa Ipec recém-divulgada
identificou 6% de indecisos. Mas, além dos indecisos “puros”, também
existem aqueles que, apesar de manifestarem uma preferência, ainda podem
ser levados a mudar de ideia pelos acontecimentos. Diretor do instituto
de pesquisas Idea Big Data, o cientista político Maurício Moura estima
em cerca de 15% do eleitorado a soma dos que ainda não fizeram uma
escolha com os que ainda podem mudar de ideia.
A
maioria desse grupo habita as áreas metropolitanas da região Sudeste,
São Paulo e Minas em particular. Mais da metade são mulheres e metade
desaprova o governo.
Essas
informações ajudam a explicar por que tanto Lula quanto Bolsonaro deram
a largada em suas campanhas em Belo Horizonte, a capital mineira.
Também dá uma ideia das vantagens e desvantagens de cada um dos dois. É
sabido, por exemplo, que segurança e economia são grandes preocupações
para quem mora na periferia das grandes cidades. O primeiro tema
favorece a opção por Bolsonaro, o segundo, neste momento, a opção por
Lula. Também é sabido que o eleitorado feminino se afastou de Bolsonaro
durante o seu governo – e ele ainda não encontrou a maneira certa de
falar com as mulheres.
Tudo
isso compõe o pano de fundo da campanha eleitoral. Em primeiro plano se
desenrolam as agendas políticas e fatos do dia a dia que, ao longo das
próximas quatro semanas, poderão fazer o ponteiro das pesquisas se
movimentar.

A
primeira aposta de Jair Bolsonaro é o 7 de Setembro. O presidente quer
transformar o evento agendado no Rio de Janeiro no maior comício a céu
aberto de sua campanha. Uma intensa mobilização está sendo feita nas
redes sociais.
O
tom será de comemoração, mas a palavra é ambígua quando se trata do
bolsonarismo. Em vez de apenas celebrar o bicentenário da Independência,
o presidente pretende destacar o que chamará de “vitória” obtida sobre o
Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que nesta quarta-feira concordou em
submeter as urnas eletrônicas a procedimentos requisitados pelas Forças
Armadas: testes de integridade dos equipamentos realizados durante o dia
de votação e com os próprios eleitores (em vez de técnicos do
tribunal).
Também
são esperados discursos contra o TSE e o Supremo Tribunal Federal,
particularmente o ministro Alexandre de Moraes, por causa da recente
operação que ele autorizou, para vasculhar as casas, apreender celulares
e bloquear contas de redes sociais de oito empresários que andaram
trocando mensagens com fantasias golpistas em grupos fechados de
WhatsApp. Na campanha de Bolsonaro, há quem defenda que ele descreva a
eleição como “uma guerra pela liberdade”. Durante os muitos meses em
que Bolsonaro vem disparando contra o sistema eleitoral e o TSE, ficou
claro que ele atrai rejeição quando critica as urnas e simpatia quando
defende a liberdade de expressão. Uma fala do presidente na próxima
quarta-feira pode pender para qualquer dos lados.
Mais
contundente seria uma crítica disparada contra o próprio Lula. O tema
da corrupção não ocupa o centro destas eleições, mas ainda tem potencial
para pôr o ex-presidente na defensiva e para reavivar o antipetismo em
eleitores que hoje declaram voto em Lula a contragosto. O debate da Band
foi exemplar nesse sentido: Bolsonaro conseguiu colocar o assunto
corrupção na pauta, levando a que o petista titubeasse nas suas
tentativas de declarar-se inocente dos escândalos do petrolão e vítima
de armação judicial.
O
PT ainda não bateu o martelo sobre as atividades de Lula durante o 7 de
setembro. A decisão de não disputar espaço nas ruas com Bolsonaro e
seus seguidores foi tomada, para evitar confrontos e também comparações
(as mobilizações de bolsonaristas têm atraído mais gente que as dos
petistas). A cidade onde Lula passará o dia, sua fala sobre a data
histórica e a estratégia para reagir às declarações de seu adversário
ainda estão em discussão no seu entorno.
A
economia é o tema crucial dos próximos trinta dias. O time de Bolsonaro
começa a perder a esperança de que o uso do Auxílio Brasil de R$ 600
para conquistar o voto dos miseráveis ainda possa dar certo. Diversas
pesquisas eleitorais vêm confirmando a vantagem de Lula entre os
beneficiários do programa e frustrando o comando da campanha
bolsonarista. Além disso, o PT deu um tiro certeiro ao martelar que
Bolsonaro enviou ao Congresso uma proposta de gastos para 2023 em que o
benefício do Auxílio Brasil é de apenas R$ 405 – ou seja, os R$ 600 só
seriam pagos até o final deste ano. É sabido que a interrupção do
auxílio emergencial, no final do ano passado, desesperou muitas
famílias.
Maurício
Moura, do Idea Big Data, acha prudente aguardar um pouco mais para
chegar a uma conclusão sobre esse assunto. “A experiência internacional
justifica o ceticismo. Maurício Macri fez o diabo na economia da
Argentina para tentar se reeleger. Donald Trump mandou cheques para as
casas das pessoas com a sua assinatura, como auxílio pela pandemia.
Nenhum dos dois venceu as eleições”, diz ele. “Ao mesmo tempo, a manobra
do governo foi inédita pelo momento em que aconteceu e pelo volume de
recursos gastos. Não se pode descartar a hipótese que o dinheiro tenha
impacto na aprovação do presidente depois de 60 dias, bem às vésperas do
primeiro turno. O auxílio emergencial da pandemia levou esse tempo para
fazer efeito.”

Como
o tempo corre, o ministro da Economia Paulo Guedes já ajustou o
discurso e jogou para primeiro plano os números da economia,
especialmente a queda da inflação e a do desemprego. Nesta semana, em
almoço com a diretoria da Confederação Nacional da Indústria (CNI), ele
disse que o Brasil gerou mais empregos (15,7 milhões) que os EUA (12,9
milhões), entre agosto de 2020 e agosto de 2022. Como um dos
coordenadores da campanha, Guedes vem alinhando com o marqueteiro Duda
Lima a melhor forma de enfatizar essas “conquistas”. Ainda não houve
consenso sobre a mensagem, que precisa ser forte e direta – como o PT
fez com o caso do Auxílio Brasil. Uma das hipóteses é que as peças
publicitárias combinem, daqui em diante, a propaganda dos feitos do
governo com o medo de que Lula no Planalto coloque tudo a perder.
Segundo
o economista André Braz, coordenador dos índices de preços da Fundação
Getúlio Vargas, dar destaque à inflação também pode frustrar Bolsonaro.
Na última terça-feira, a FGV divulgou o Índice Geral de Preços de
agosto, mostrando uma queda de 0,70%. Mas o fenômeno não beneficiou os
mais pobres, porque não chegou aos alimentos, itens que mais pesam no
orçamento desse grupo. A boa notícia é que a situação deve mudar já em
setembro. “Grãos e também proteínas vão deixar de aumentar de preço”,
diz Braz. “O problema é que estamos falando apenas em desacelaração da
inflação para esses produtos, que em doze meses acumularam aumentos da
ordem de 15%. Assim, os eleitores mais pobres podem até concluir que
parou de piorar, mas não terão uma sensação de melhora no seu dia a dia.
Continuará sendo difícil abastecer a despensa.”
As
principais armadilhas para os candidatos vêm da chamada “pauta de
costumes”. Além dos dois debates previstos no calendário – um no dia 24,
promovido por SBT, CNN, rádio Nova Brasil FM e revista Veja; o outro no
dia 29, na Rede Globo -, há incontáveis oportunidades para gafes e
atitudes desastradas. No debate do ano da Band, Bolsonaro perdeu as
estribeiras diante da pergunta de uma jornalista e a criticou num tom
que foi interpretado como misógino. Lula vem cometendo deslizes em
série. Há dez dias, referindo-se à violência contra mulheres, disse:
“Quer bater em mulher? Vá bater em outro lugar, mas não no Brasil.” Ele
perdeu oportunidades de conversar com o eleitor evangélico ao declarar
que o aborto “deveria ser transformado em uma questão de saúde pública e
todo mundo ter direito” e dizer “Não sou candidato de uma facção
religiosa” – com um acento pejorativo na palavra “facção”. Bolsonaro
sabe que não pode deixar o petista conquistar votos entre os evangélicos
e por isso sua campanha disseminou nesta semana a história de que o PT,
no poder, pretende perseguir cristãos.
Setembro está só começando – e não há certezas.

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