Campanhas políticas são sórdidas, candidatos são desonestos. Mas a democracia continua a menos pior das opções. Theodore Dalrymple via revista Oeste:
Eleições
são cada vez mais tediosas nos países modernos porque parecem durar
para sempre. Assim que alguém é eleito, essa pessoa começa a fazer
campanha para a próxima eleição, assim como todas as pessoas ao seu
redor ou que fazem oposição a ela. As eleições se tornaram uma condição
permanente da humanidade.
Nem
é preciso dizer que campanhas eleitorais não são necessariamente a
melhor forma de descobrir a verdade sobre nada. O debate durante uma
campanha consiste basicamente em acusar e contra-acusar, junto com uma
forte dose de autopromoção.
As
condições da vida política na democracia ocidental se tornaram tão
terríveis que apenas um tipo de gente consegue ter êxito nela, e não
necessariamente o melhor tipo de ser humano, para dizer o mínimo. Se
você entra para a política de forma séria, toda a sua vida se torna uma
espécie de investigação policial sobre o seu passado. E, como a maioria
de nós tem coisas no passado que não gostaria que fossem reveladas ao
olhar lascivo da multidão, apenas as pessoas com couro de rinoceronte,
capazes de enfrentar ou tolerar revelações vergonhosas sobre si mesmas
(em outras palavras: os imorais), conseguem avançar na política.
Isso
só pode piorar nos próximos anos, uma vez que atualmente todo mundo
deixa um rastro eletrônico da própria vida. Se eu, Deus me livre,
entrasse para a política, ninguém poderia, graças a Deus, descobrir
muito sobre mim quando eu tinha, digamos, 28 anos: não deixei rastro ou
pelo menos nenhum rastro que não possa ser negado. No futuro, no
entanto, vai haver muito pouca gente nessa grata posição, graças ao
narcisismo em massa incitado pelas chamadas mídias sociais. Ou seja, a
qualidade dos nossos notáveis políticos só pode piorar, e aqueles que
entram para essa vida só serão cada vez mais imorais (a menos que sejam
santos, mas santos não entram para a vida política). Cada palavra que
uma pessoa já disse, cada pose que ela já fez serão filtradas por seus
oponentes em busca de evidências de corrupção moral. Dessa forma, o
descaramento será promovido junto com o puritanismo, uma combinação
muito pouco atraente e favorável.
O topo do pau de sebo
Claro,
ainda existem pessoas que não se exibem nas redes sociais, mas elas
provavelmente não são o tipo que resulta em aspirantes a políticos. Cada
vez mais, os políticos são o tipo de gente que precisa de uma plateia
para existir, mesmo para si mesma. Essas figuras não são exatamente
novas. Certa vez perguntaram a John Maynard Keynes, o famoso economista
que conheceu pessoalmente David Lloyd George, primeiro-ministro
britânico da época, o que ele achava que Lloyd George pensava quando
estava por conta própria. “Quando Lloyd George está sozinho, não tem
ninguém ali”, respondeu Keynes. Em outras palavras, tudo a respeito dele
era uma performance: atrás da fachada havia outra fachada.
David Lloyd George, ex-primeiro-ministro britânico
Não
sei se estou romantizando o passado, mas parece que os políticos se
tornaram ainda mais vazios. Recebi a incumbência de resenhar as memórias
do ex-primeiro-ministro britânico David Cameron (claro, só concordei
fazer isso pelo dinheiro), que tinham 700 páginas em uma fonte bem
apertada.
Deve
ser difícil escrever 700 páginas sem expressar um único pensamento
interessante ou mesmo surpreendente, descrever crises como se fosse a
tabela dos horários do trem, conhecer as pessoas mais poderosas do mundo
sem notar nada de minimamente interessante ou significativo sobre elas,
sem fazer um único comentário divertido, mas Cameron conseguiu, com
folga. Ele não manifestou nenhum interesse cultural, e só se pode
concluir que sua única característica excepcional era a ambição, uma
avidez pelo cargo e os privilégios decorrentes dele. Porque ninguém
chega ao topo do pau de sebo, por assim dizer, por acidente, sem
ambição.
David Cameron, ex-primeiro-ministro britânico
Então
é natural que a população sinta desprezo pela classe política como um
todo. Desconfio que algumas pessoas tenham entrado para a vida política
com alguma convicção e um desejo de fazer o bem, mas elas logo caíram no
esquecimento ou foram tragadas pelo atoleiro moral para que suas
carreiras avançassem. Notei algo semelhante nos hospitais: quando um
médico que pode ter sido da mais alta qualidade é cooptado pela
administração, ele quase imediatamente começa a soar como um diretor.
Começa a falar de uma forma completamente diferente da dos seres humanos
normais, e menciona demitir pessoas da equipe, como se isso fosse a
melhor coisa que poderia acontecer com elas.
Contenção da maldade
Mas
o homem é um animal político, como Aristóteles comentou algum tempo
atrás, e os políticos são bem parecidos com os pobres de acordo com o
Evangelho: “Porquanto sempre os tendes convosco”. E, mesmo com as
características comuns dos políticos — vaidade, exibicionismo,
falsidade, ambição, narcisismo, desonestidade, egoísmo, cinismo e
crueldade, para citar apenas algumas das menos atraentes —, existem
sempre os melhores e os piores. Pelo menos no que diz respeito às
políticas que promovem, se não às suas qualidades morais individuais.
E,
mesmo que não houvesse nenhuma diferença entre eles, as eleições seriam
uma coisa boa, porque a possibilidade de perder uma eleição deveria
funcionar como algum tipo de contenção em sua maldade, mesmo que seja
apenas pelo medo de serem descobertos. O fato de serem passíveis de
substituição num futuro próximo deve conter um pouco sua tendência à
megalomania, algo que um mandato ou o poder vitalício não fazem.
Por
isso, a indiferença maciça ao campeonato político em uma democracia é
perigosa, assim como o entusiasmo excessivo por ele. Nesse caso, porque o
ódio pelos demais — pela oposição, por quem pensa diferente de você — é
de longe a mais forte das emoções políticas. A alegria de prejudicar ou
afrontar os outros é muito mais forte que o prazer de fazer o bem, pelo
menos em uma escala geral.
Portanto,
é preciso manter tanto nossa esperança quanto nosso desgosto dentro de
certos limites. E é preciso votar em alguém, mesmo que, para isso, seja
necessário tampar o nariz.
BLOG ORLANDO TAMBOSI




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