Elizabeth II recordava-nos que havia algo de bom no mundo mais antigo, em que subiu ao trono - um tempo em que a palavra tinha valor e uma promessa se cumpria. Ademar Vala Marques para o Observador:
Isabel
II era uma lenda viva, a soberana com o reinado mais longo do nosso
tempo. Ficará certamente nos livros de História pela sua longevidade e
pela duração absolutamente extraordinária do seu reinado. Fica,
igualmente, como exemplo para várias gerações, naquilo que é o valor de
um compromisso.
Inspiração
para filmes e séries, referência cultural para várias gerações, uma das
mulheres mais reconhecidas do mundo, Isabel II foi igualmente uma
excepcional e privilegiada observadora da evolução do mundo. Há apenas
10 anos o nosso tempo como “um tempo em que o ritmo regular e digno da
vida é menos atraente do que fazer algo extraordinário”.
Foi
uma espécie de lamento pela cruel superficialidade deste final da era
isabelina. Mas é verdadeiramente um paradoxo: só é notado, nos dias que
correm, quem faz algo de extraordinário. Por contraste, o leal e zeloso
cumpridor dos seus deveres, que mantenha um “ritmo regular e digno” na
sua vida, dificilmente será notado ou reconhecido.
Isabel
II percebeu que, nesta era da superficialidade em que o efémero impera,
não lhe bastava ser irrepreensível no serviço e na dedicação. Tinha de
fazer coisas extraordinárias para reavivar a chama da Monarquia, razão
pela qual até contracenou com James Bond em 2012 e com o Urso Paddington
há apenas uns meses.
Isabel
II reinou num tempo de paz, em que a Monarquia esteve privada do seu
papel de instituição unificadora da nação. Jorge V e Jorge VI lideraram o
país e foram símbolos da luta contra os inimigos nas duas Grandes
Guerras.
Isabel
teve de encontrar um propósito para que, na análise custo-benefício que
é feita do Monarquia, os benefícios se sobreponham. O constante
escrutínio parlamentar e sobretudo mediático assim o exigiu. Esse
propósito surge em torno da palavra que marca o seu reinado: o serviço.
Ao
longo destas sete décadas, a Rainha e a Família Real formaram e
reforçaram laços com centenas de instituições assistenciais, militares,
religiosas e sociais, tornando-se parte essencial do movimento
associativo um pouco por todo o País.
Em
simultâneo e pela mão, primeiro, do Duque de Edimburgo e, depois, do
Príncipe de Gales, os Windsor dedicaram-se a causas novas para a
realeza: a protecção da vida animal e do ambiente, o apoio ao
empreendedorismo e à mobilidade social, e defesa da interculturalidade e
do diálogo inter-religioso, esta última questão estruturante e
fundamental numa sociedade tão culturalmente diversificada como a do
Reino Unido.
É
inquestionável que ao longo de 70 anos houve uma transformação efectiva
da Monarquia que, continuando a ser causa de grande pompa e
circunstância, se colocou em campo, totalmente e sem reservas, nos
assuntos que preocupam as pessoas.
Este
serviço abnegado não será alheio ao facto de os traços essenciais do
carácter de Isabel de Inglaterra terem sido traçados numa forja
irrepetível em que se juntaram dois acontecimentos históricos: a
Abdicação de Eduardo VIII e a Segunda Guerra Mundial. Cada um deles foi
traumático para a nação, para a Família Real e para a jovem Isabel. No
primeiro, pela singular circunstância de um rei que abandonou o seu
dever para com o seu país, colocando em risco a instituição que estava
obrigado a preservar. No segundo, pela dimensão da violência, da
destruição e do horror, misturados com o inspirador sentido de coragem e
de resistência que os então Reis Jorge VI e Isabel, pais de Isabel II,
representaram para o seu reino e para todo o mundo livre.
Estas
duas experiências, vividas no tempo em que a jovem princesa cresceu e
se tornou adulta e herdeira do trono, foram sem dúvida determinantes na
formação do espírito de serviço e de resistência às adversidades de que
Isabel II deu provas ao longo do seu reinado, que agora terminou.
Mesmo
assim, não deixa de surpreender que se possa ser tão admirado num mundo
reverencial como era o de 1952 e num tão pouco dado a essas subtilezas
como é este de 2022. Em 1953, o Duque de Norfolk, responsável pela
organização da Coroação, decidiu criar uma ficção de arcaísmo e baniu
todos os veículos motorizados do Dia da Coroação. Ou se chegava de
coche, ou a cavalo, ou a pé. Em 2022, O Reino Unido vive no extremo
oposto, em que só o moderníssimo é tolerado como politicamente correcto e
em que as meras afirmações do antigo senso comum, como a defesa da
existência de dois sexos, são contestadas por turbas intolerantes,
inclementes e censórias.
O
arcaísmo da monarquia é inegável, como inegável é o fascínio que exerce
nas pessoas. A sua inserção numa sociedade democrática, uma sociedade
que é inquestionavelmente senhora do seu destino e que vota livremente
nos seus governos, tem provado ser uma fórmula de sucesso em muitos
países da Europa, onde a sangria das monarquias terminou após a Segunda
Guerra, com a excepção grega. Os monarcas europeus transformaram-se em
símbolos de união e de estabilidade e Isabel de Inglaterra, decana e
exemplo de todos, não é excepção.
Com
o seu serviço abnegado e constante ao longo de 70 anos, com evidentes
sacrifícios pessoais e familiares, conseguiu impor a instituição que
encarna à ditadura do efémero e manter, quase inalterado, esse fascínio,
apesar de a época reverencial em que subiu ao trono, em que mal se
falava ao telefone e a televisão era uma novidade, ter sido substituída
pela robótica, pelo digital e por tanta ligeireza nos assuntos de
Estado.
Isabel
II recordava-nos que havia algo de bom no mundo mais antigo, em que
subiu ao trono, um tempo em que a palavra tinha um valor, em que uma
promessa se cumpria.
E
assim, no dia triste em que a recordamos e o mundo inteiro chora a sua
morte, devemos ter presente a forma estoica e exemplar como cumpriu a
sua promessa, feita em 1947, ao cumprir 21 anos: a sua vida, longa como
se veio a provar, foi dedicada ao serviço do seu país. Com isso, com o
cumprimento da palavra dada e a honra a um compromisso, deveríamos todos
aprender. Obrigado, Majestade.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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