Preservando seu caráter nacional único, o país poderia ter se tornado uma potência democrática, mas seguiu no caminho do autoritarismo. Vilma Gryzinski:
Vamos começar (e terminar) com uma piada sobre Mikhail Gorbachev. É provavelmente a mais conhecida do gênero:
“Um
trabalhador russo está esperando na fila para comprar vodka. Depois de
duas horas, fala para o sujeito atrás dele: ‘Não aguento mais. Segura
meu lugar enquanto vou dar um tiro em Gorbachev’.
Volta duas horas depois e o homem que estava guardando seu lugar pergunta: ‘Deu o tiro?’
Responde o indignado: ‘Não, a fila para atirar nele estava maior ainda’.”
A
piada resume o ressentimento que Mikhail Gorbachev continua a despertar
entre os russos (e o fato, quase esquecido, de que ele começou querendo
controlar os níveis de alcoolismo na Rússia). E também uma espécie de
estado de espírito nacional que sempre provoca as mesmas dúvidas: Seriam
os russos intrinsecamente incapazes de conviver com a democracia?
Sempre vão preferir um homem forte no comando? Nunca conseguirão
conciliar direitos individuais, liberdade econômica e império da lei?
Os
39 segundos que Vladimir Putin passou entre entrar na sala onde estava o
caixão aberto de Gorbachev, deixar um maço de rosas vermelhas, encenar
consternação, fazer o sinal da cruz (da direita para a esquerda, como
fazem os ortodoxos) e ir embora resumem a má vontade no limite do
desrespeito com que o homem que assinou o atestado de óbito da União
Soviética foi tratado na morte, como na vida.
“Um
comunista que enterrou a ideia do comunismo a sete palmos (muito
provavelmente contra sua própria vontade) e o líder de um grande país
cujo colapso assistiu imponentemente”, resumiu a agência Ria Novosti,
que evidentemente reflete a opinião oficial.
A
agência ironizou: não seria surpresa se Gorbachev tivesse dois
enterros, um em Moscou e outro em Londres, com a participação dos
“nossos emigrantes, convencidos que ele trouxe a liberdade à Rússia e ao
mundo”. Enquanto isso, “nós ainda estamos desembaraçando os fios de seu
governo catastrófico e continuaremos a corrigir as suas consequências
por muito tempo”.
Todo
mundo entende que por “catastrófico” Moscou quer dizer o desligamento
dos países satélites que o império comunista mantinha sob seu domínio e
das repúblicas soviéticas que declararam independência. A Ucrânia é o
caso mais inaceitável e as consequências do repúdio à própria ideia de
que os ucranianos possam seguir seu caminho de autonomia – aprovado em
plebiscito por 92% da população – estão sendo vistas agora no campo de
batalha.
Vale
lembrar, para quem já esqueceu ou não viveu diretamente o momentoso
período, a lista completa dos países, além da Ucrânia, que se
desprenderam da mãe-madrasta Rússia: Armênia, Azerbaijão, Belarus,
Casaquistão, Estonia, Georgia, Letônia, Lituânia, Moldova, Quirguistão,
Tajiquistão, Turcomenistão e Usbequistão.
Mais
de trinta anos depois, muitos russos continuam a achar que “perderam”
não apenas território, população e recursos, mas a posição de potência
dominante. E por culpa de Gorbachev.
Teria
sido possível manter o império ou ele acabaria implodindo de qualquer
maneira? A segunda hipótese é mais provável. Gorbachev era um reformista
que queria melhorar a economia estatizada (estava também aberto a
ousadias quase inacreditáveis, na época, como mandar soltar o dissidente
Andrei Sakharov, suspender a censura, acabar com a lista de livros
proibidos, promover eleições municipais com mais de um candidato).
Esta
rajada siberiana de ar fresco coincidiu com um presidente americano,
Ronald Reagan, que tinha princípios simples (“Como termina a Guerra
Fria? Nós ganhamos, eles perdem”), um projeto militar ambicioso (o nunca
realizado Guerra nas Estrelas) e ao mesmo tempo a disposição de “fazer
negócio” sobre a limitação do arsenal nuclear das superpotências.
Sua
parceira ideológica, Margaret Thatcher, havia detectado exatamente esse
potencial em Gorbachev. Um papa polonês como João Paulo II completou o
palco histórico ao endossar – cautelosamente, embora amparado pela
firmeza da fé – a força moral da rebelião que havia colocado
trabalhadores de um estaleiro e intelectuais sob a mesma bandeira do
Solidariedade.
Gorbachev
teve a grandeza de entender que só uma repressão em escala inominável –
e talvez nem ela – conseguiria interromper a marcha da história. Nesse
ponto, o que não fez foi mais importante do que fez: não chamou os
tanques – e não deixou que os dirigentes comunistas chamassem.
O
jornalista inglês Owen Matthews conta que Gorbachev continuava a usar
os mesmos clichês do vocabulário comunista – “dialética histórica”,
“processos sociais” – para tentar responder às críticas dos russos
comuns, que viram o padrão de vida já bem limitado que tinham na era
soviética despencar quando a URSS acabou em caos.
Matthews
acompanhou, em 1996, o lançamento em Moscou do livro de memórias de
Gorbachev. A livraria estava lotada de “pessoas que haviam ido lá só
para dizer pessoalmente ao ex-líder soviético o quanto o odiavam”.
“Tive
que deixar tudo o que tinha quando fugi do Casaquistão, todos os meus
livros. Por que você deixou a União Soviética desabar?”, perguntou um
senhor idoso. “Por que os bandidos conseguiram tomar nosso grande
país?”, indignou-se uma senhora.
As
perguntas ajudam a entender por que a dissolução da URSS, feita de cima
para baixo, teve tanta rejeição, ao contrário dos processos nos países
satélite.
Uma
transição menos dolorosa teria aproximado a Rússia de um projeto
verdadeiramente democrático? Gorbachev seria lembrado com mais respeito?
A piada de encerramento:
“Lênin,
Stálin, Khrushchev, Brejnev e Gorbachev estão viajando no mesmo trem.
Claro, o trem quebra. Lênin arenga os trabalhadores para se unirem e
consertarem o estrago. Quando isso não dá certo, Stálin enfileira os
trabalhadores e fuzila todos. Não funciona. Khrushchev tenta umas
reformas para ressuscitar os trabalhadores. Como não adianta, Brejnev
fecha a cortina e sugere que finjam que o trem está andando.
Depois de alguns momentos de trem parado e escuridão, Gorbachev diz: ‘Ei, alguém aqui vai querer que eu traga um McDonald’s?’.”
O enterro do falecido líder será amanhã, mas “a agenda de trabalho” de Putin não tem espaço para que ele compareça.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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