De acordo com o Dieese, cesta básica saiu a R$ 576 em agosto, puxada pelo leite (+9,55%). Mesmo sendo o terceiro menor custo entre as capitais, é preciso trabalhar 13 dias para botar o trivial na mesa
Foto: Romildo de JesusPor Lily Menezes
Comer ou pagar as contas essenciais? Esse conflito de necessidades tem permeado a vida de todo cidadão que depende dos R$ 1121 do salário mínimo (líquido, após o desconto da Previdência Social) para sobreviver. Analú Santos veio de Sergipe (AL) para estudar em Salvador, tem um filho de 5 anos e toma um susto toda vez que vai ao supermercado, principalmente com o preço do leite. “Toda hora o preço muda, não tem condição. Um pacote de leite em pó já está custando quase R$ 10. Fica difícil, estando sozinha aqui”, desabafou a dona de casa. E bota difícil nisso: o levantamento elaborado pelo Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostrou que a cesta básica em Salvador custa R$ 576,93.
É a terceira cesta mais barata do Brasil, perdendo apenas para João Pessoa (R$ 568,21) e Aracaju, onde Analú vivia (R$ 539,57). Apesar de um recuo de 1,64% em relação a julho, o conjunto dos 12 itens primordiais já acumula alta de 11,33% neste ano. Trocando em miúdos: 51,46% do dinheiro suado dos soteropolitanos vai para a comida, sem supérfluos. A sensação de que só se está trabalhando para botar comida na mesa é verdadeira: o Dieese calculou que uma pessoa de Salvador precisa de 104h para bancar os R$ 576. Se for considerada a jornada de 8h, são nada menos do que 13 dias. A auxiliar administrativa Larissa de Araújo que o diga: “Eu fico abismada que uma besteirinha, cinco ou seis coisas no mercado, dá quase R$ 100. Parece que a gente leva cada vez menos coisa pra casa”.
O Dieese informou à reportagem que dos 12 itens listados na cesta básica, cinco aumentaram de julho para cá em Salvador. Três deles fazem parte do café da manhã: o leite (+9,55%), a manteiga (+4,89%) e o pão (+1,23%). As maiores reduções foram vistas no quilo do tomate (-18,44%), óleo de soja (-8,58%) e feijão carioquinha (-4,37%). Considerando o intervalo de um ano, o item com o aumento mais alarmante foi justamente o leite integral, que vem tirando o sono das donas de casa: de agosto para cá, o aumento foi de nada menos do que 72,46%, seguido pelo café em pó (51,8%) e da penca de banana (39,24%). Para se ter uma ideia, o pacote de 200g já foi encontrado em agosto de 2021 por pouco mais de R$ 6; hoje, é comprado por aproximadamente R$ 8. Já o litro está entre R$ 7 e R$ 10.
Uma das principais razões para esse aumento tão assustador do leite é o encarecimento da produção pecuária, impactado pela alta de insumos como a ração e os fertilizantes. As altas sucessivas no aumento dos combustíveis também influenciam na escalada: como o setor de laticínios depende do óleo diesel para realizar o transporte, esse custo a mais acaba sendo passado ao consumidor. Vale lembrar que o diesel que está mais caro do que a gasolina, com valores ultrapassando os R$ 7. O clima seco pode ser um problema no futuro não só para o leite, por conta da redução da pastagem, mas para outros produtos que subiram bastante, como o café em pó e o pão francês, que depende da colheita do trigo.
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