
Charge do Nani (nanihumor.com)
Felipe Bächtold e Constança Rezende
Folha
Três dos quatro ministros do TCU (Tribunal de Contas da União) que votaram por punição ao ex-procurador Deltan Dallagnol e do ex-procurador geral Rodrigo Janot na última terça (9) foram atingidos pela Lava Jato e seus desdobramentos e delações, embora as investigações tenham resultado em escassas consequências contra eles até agora.
Deltan, Janot e o ex-chefe do Ministério Público Federal no Paraná João Vicente Romão foram condenados nesta semana a devolver R$ 2,8 milhões em diárias e passagens pagas à força-tarefa da operação a partir de 2014, quando uma equipe de procuradores foi fixada em Curitiba para se dedicar com exclusividade aos casos da Lava Jato. A decisão, que ainda será objeto de recurso, pode provocar a inelegibilidade dos ex-procuradores.
PERSEGUIÇÃO CLARA – O ex-procurador paranaense, que chefiou a força-tarefa de 2014 a 2020, vem afirmando que o TCU faz perseguição política e tem questionado a credibilidade dos ministros para julgá-lo.
Nas redes sociais, Deltan disse que foi condenado por “delatados na Lava Jato”. Especificamente sobre o relator do caso no TCU, ministro Bruno Dantas, o ex-procurador questionou sua ligação com o senador Renan Calheiros (MDB-AL) e o acusou de acelerar a tramitação por causa da eleição.
Os outros três ministros que compõem a câmara que expediu a decisão contrária aos ex-procuradores foram investigados em inquéritos relacionados à Lava Jato. Os três têm trajetórias políticas, inclusive com mandatos no Congresso antes da indicação para a corte de contas.
PAI E FILHO – O elo mais direto com apurações da Lava Jato paranaense, de atribuição de Deltan, era do ministro Aroldo Cedraz, cujo filho, o advogado Tiago, chegou a ser alvo de buscas decretadas pelo então juiz Sergio Moro em 2017.
A apuração tratava de suposto recebimento de propina do advogado no exterior em um negócio da Petrobras com a americana Sargeant Marine. Cedraz, porém, não chegou a ser denunciado em Curitiba. Ele e o pai foram formalmente acusados, em 2018, de tráfico de influência pela sucessora de Janot no comando da Procuradoria-Geral, Raquel Dodge.
A denúncia partiu da delação do empresário Ricardo Pessoa, dono da empreiteira UTC. Investigadores da Lava Jato chegaram a suspeitar que o ministro havia repassado informações sobre processo de interesse da UTC. No ano seguinte, porém, o STF (Supremo Tribunal Federal) rejeitou a acusação.
NOVA DENÚNCIA – O filho de Cedraz voltou a ser denunciado em 2020, desta vez pela chamada Lava Jato fluminense, que mirava pagamentos feitos por um ex-presidente da federação do comércio do Rio de Janeiro, Orlando Diniz.
A acusação a respeito, com menções também a Aroldo, chegou a ser recebida pelo juiz federal Marcelo Bretas, mas o Supremo anulou as decisões dele, sob a justificativa de que o caso era de atribuição da Justiça estadual, não da federal.
Os procuradores afirmavam que houve desvio de R$ 13,7 milhões de verbas do Sesc-RJ e Senac-RJ para tentar influenciar decisões do TCU. Em abril deste ano, um juiz estadual anulou a colaboração de Diniz.
NA LISTA DE JANOT – Outro dos ministros que votaram no caso e que esteve às voltas com inquéritos da Operação Lava Jato foi Antonio Anastasia, ex-governador de Minas pelo PSDB.
Seu nome constou nas chamadas “listas de Janot”, como foram apelidados os pedidos em série de investigações feitos ao Supremo pelo então procurador-geral, no auge da Lava Jato. Anastasia conseguiu o arquivamento dos três inquéritos públicos no qual tinha sido incluído. O primeiro foi ainda no início da Lava Jato e havia partido de depoimento de um ex-policial que atuava transportando dinheiro para o doleiro Alberto Youssef.
Nesse caso, o próprio Janot acabou considerando que não havia provas e posteriormente solicitou o arquivamento, chancelado pelo STF. Os outros casos eram desdobramentos da delação da Odebrecht, a maior da Lava Jato, que miravam também seu antigo padrinho político, o hoje deputado federal Aécio Neves (PSDB-MG).
CAIXA DOIS – Relatório da PF de 2021, que indiciou Aécio por suposto caixa dois da empreiteira baiana no pleito de 2014, citava suspeita de financiamento ilegal também à campanha de Anastasia ao Senado. Porém concluiu que não há indícios de “ciência ou participação direta” do hoje ministro do TCU no caso.
Em relação a Augusto Nardes, que também votou pela condenação das ex-autoridades da Lava Jato, também houve inquérito aberto em decorrência de depoimentos de delação.
Em 2018, Nardes foi alvo de um pedido de busca e apreensão da Polícia Federal, autorizada pelo ministro Dias Toffoli, do STF.
OUTRAS DELAÇÕES – A polícia apreendeu documentos e celulares na casa do ministro do TCU, depois de ele ter sido citado na delação premiada de Luiz Carlos Velloso, ex-subsecretário de Transportes do Rio.
Também houve menções a ele em outros em depoimentos de colaboradores da Lava Jato, que até hoje não se tornaram públicos, como o do ex-deputado federal Pedro Corrêa e o ex-diretor da Petrobras Renato Duque.
Fora da Lava Jato, Nardes foi investigado na Operação Zelotes, sobre suposto esquema de corrupção no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf). O caso ficou sob relatoria do ministro Ricardo Lewandowski no STF, que arquivou inquérito em 2019.
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