A nova doutrina naval russa anunciada por Putin inclui a defesa "das águas russas do Ártico". Numa região cheia de riqueza natural e interesses geopolíticos, a guerra da Ucrânia deixa todos nervosos. Cátia Bruno para o Observador:
Svalbard
é um arquipélago gelado, onde vivem menos de três mil pessoas e é
obrigatório andar armado quando se sai das cidades, por causa do risco
de ataques dos ursos polares. É a zona permanentemente habitada mais a
norte de todo o globo. E é também o “calcanhar de Aquiles da NATO no
Ártico”, como lhe chamou em tempos um professor de Estudos de Segurança.
Formalmente,
Svalbard está sob soberania norueguesa — mas graças a um tratado com um
século, muitos outros países têm direito a explorar os seus recursos
naturais. Em concreto a Rússia, que explora minas na região há anos,
muitas vezes com recurso a trabalhadores ucranianos, na maioria vindos
da região do Donbass. Na cidade abandonada de Pyramiden, ainda é possível encontrar um busto de Lenine e um slogan que diz “O comunismo é o nosso objetivo.”

Entrada da cidade abandonada de Pyramiden, onde durante décadas funcionaram minas soviéticas
Em
janeiro deste ano, cerca de um mês antes da invasão russa da Ucrânia,
deixou de haver internet por alguns dias em Svalbard. Um dos cabos de
fibra ótica subaquático, que assegura o fornecimento, estava danificado.
As autoridades locais disseram que uma das hipóteses para explicar o
problema era o “impacto humano”, não chegando oficialmente a apontar
dedos. Mas, para bom entendedor, meia palavra basta. No último relatório anual
dos serviços de segurança noruegueses, destacava-se que a Rússia estava
a desenvolver a capacidade de danificar cabos subaquáticos e o país era
identificado como “a maior ameaça” para a Noruega em termos de ataques
cibernéticos.
Nada
que seja propriamente novo. Há vários anos que a Rússia tem levado a
cabo pequenas provocações no arquipélago, usando-o como se fosse seu
território. Foi o caso da visita-surpresa do vice primeiro-ministro
Dmitry Rogozin a Svalbard em 2015 ou a escala de forças especiais
chechenas na região. Mas, até há pouco tempo, ninguém acreditava que a
paz no Ártico estivesse verdadeiramente em causa. “Por um lado, a Rússia
demonstra o seu poderio militar violando espaços aéreos e marítimos,
realizando exercícios de larga escala, reabrindo bases soviéticas”, escrevia já em 2017 o Wilson Center.
“Por outro lado, os responsáveis russos sublinham consistentemente a
necessidade de despolitizar a cooperação na região e de manter canais de
comunicação de alto nível.”
Com a guerra na Ucrânia, a situação mudou. Em junho, a Rússia acusou a Noruega
de impedir a passagem pelas suas águas de um navio com destino a
Svalbard, que transportava bens alimentares. “As autoridades norueguesas
estão a tentar garantir que os menores russos fiquem sem comida, o que é
imoral”, acusou um responsável de Moscovo. Na prática, a Noruega estava
a aplicar as sanções europeias aplicadas à Rússia — e o país poderia
contorná-las enviando o barco por outra rota, como fazia até então.
Uma suspensão e uma nova doutrina naval. As consequências da guerra da Ucrânia no Ártico
Um mês depois, a Rússia anunciava a sua nova doutrina naval,
onde acusa os EUA e a NATO de estarem a tentar uma estratégia de
domínio mundial — incluindo no Ártico. “Estas são as nossas águas”,
declarou Vladimir Putin no discurso no Dia da Marinha russa,
referindo-se a essa região. “Vamos garantir a sua proteção firme e com
recurso a todos os meios.” O documento inclui agora menções a
“Preparação e prontidão para a mobilização” e “Procedimentos para
recurso aos instrumentos da política nacional marítima para proteger os
interesses nacionais”, que estavam ausentes da versão anterior, publicada em 2015.
David
Auerswald é taxativo sobre os últimos acontecimentos em Svalbard: “São
daquelas ações provocadoras que chamam a atenção, mas é pouco provável
que levem a um conflito armado”, diz ao Observador este professor da
norte-americana National War College, que prestou declarações a título
pessoal. Já quanto à questão do Ártico na nova doutrina naval russa,
Auerswald diz que “é muito difícil saber as verdadeiras intenções da
Rússia relativamente ao Ártico”, mas arrisca uma hipótese: “Os anúncios
recentes parecem ser uma continuação da política russa e não uma
iniciativa totalmente nova. A Rússia teve de desviar recursos
significativos para sul, para o conflito na Ucrânia. Talvez estes
anúncios sejam uma forma de compensar as capacidades militares
decrescentes a norte.”

Vladimir Putin e Dmitry Medvedev na sua viagem ao Ártico em 2017
Esta
política de continuidade no Ártico é explicada ao Observador pelo russo
Alexander Sergunin: “Já na estratégia naval russa de 2015 o Ártico e o
Atlântico Norte eram identificados como regiões onde tem havido aumento
de atividades militares da NATO”, afirma o professor da Universidade de
São Petersburgo. “Esta doutrina naval mais recente é um reflexo das
políticas mais assertivas da NATO na região na sequência deste agravar
da crise ucraniana em 2022.”
Logo
após o início da invasão à Ucrânia, sete dos oito membros do Conselho
do Ártico — que reúne Rússia, Canadá, Estados Unidos, Dinamarca,
Noruega, Islândia, Finlândia e Suécia — decidiram suspender a
participação russa no órgão. Um primeiro sinal de que a definição da
região como uma “zona de paz e cooperação”, como em tempos a definiu
Mikhail Gorbachev, pode deixar de fazer sentido.
“A
suspensão temporária da Rússia do Conselho do Ártico é um
reconhecimento por parte dos poderes ocidentais de que o trabalho do
Conselho já não pode ser compartimentalizado e afastado dos
desenvolvimentos geopolíticos mais latos”, comenta David Auerswald.
“Isto é novo. O Conselho continuou a funcionar depois da anexação russa
da Crimeia em 2014, porque se acreditava que a cooperação científica e
ambiental era importante e que o Conselho poderia ser um local onde a
Rússia podia exercer o hábito da atividade diplomática normal.”
Na
prática, os restantes países Árticos não se podem dar ao luxo de
ignorar a Rússia. É o país que detém a maior área territorial da região,
com uma costa ártica que se estende por quase 25 mil quilómetros e uma
zona económica exclusiva com mais de dois milhões de quilómetros
quadrados de área. Em termos militares, a Frota do Norte é a maior frota
russa e o seu quartel-general, na península de Kola, tem depósitos de armamento nuclear.
Mas essa mesma militarização pode fazer aumentar o risco na região, num
momento em que a tensão na Ucrânia se alastra a outros pontos de globo.
As riquezas geladas do Ártico e a influência da China
E
a guerra na Ucrânia começa a ter outros efeitos na região. As sanções
aplicadas à Rússia têm levado à diminuição do investimento no Ártico, o
que provocou o congelamento de vários projetos, incluindo até na área científica.
Também
muitos investimentos económicos russos estão agora em stand by, e isso é
dizer muito numa região que se manifesta como um novo El Dorado para
muitos países. Com a aceleração das alterações climáticas, o degelo das
calotes permite agora a navegação por zonas que antes não eram
circuláveis, o que abre rotas comerciais inéditas. Além disso, o Ártico é
rico em recursos: 16% de todo o petróleo mundial por explorar está ali,
bem como 30% do gás natural. Somam-se a isso minerais raros.
“O
Ártico está a aquecer de forma muito mais rápida do que o resto do
planeta, o que significa que é agora mais fácil e barato aceder a
hidrocarbonetos”, explica o professor Auerswald. “Ao mesmo tempo, porém,
as sanções ocidentais tornam extremamente difícil [para] a Rússia
continuar a extrair esses recursos em larga escala.” Empresas como a
Total, a Exxon Mobil e a BP já cancelaram os projetos que tinham com
Moscovo na região.
Veja-se ainda o caso do projeto Arctic LNG 2, ligado à extração de gás liquefeito (GPL) no Ártico. Com a suspensão da compra de GPL russo por parte de quase toda a União Europeia
(a Hungria ficou fora do acordo), a Rússia teve de interromper a
construção de um projeto que tem um custo estimado de mais de 20 mil
milhões de euros. “A primeira linha de produção do Arctic LNG 2 já está
pronta a 98% e provavelmente entra em funcionamento em 2023. Contudo, a
principal dona, a Novatek, anunciou recentemente que a construção da
segunda e da terceira linhas de produção vai ser adiada por falta de
investimento e de tecnologia”, ilustra Sergunin. Isso não significa,
porém, a morte do projeto: “A China já é o maior investidor estrangeiro
no Arctic LNG e certamente vai aumentar o seu papel neste setor.”
A
isso soma-se a dependência russa dos mercados chineses, agora que o
mercado europeu se fechou. Mas David Auerswald relembra que a China não
tem a poção mágica para resolver todos os problemas económicos de
Vladimir Putin: “A China não consegue preencher todo o vazio deixado
pelo Ocidente. Dou apenas um exemplo: as linhas de abastecimento que
existem atualmente e as planeadas representam apenas uma fração das que
existem a ligar a Rússia à Europa.”

O Ártico tem das maiores reservas de gás natural por explorar em todo o mundo
Esta
dependência, porém, não agrada a Moscovo. “A China sabe o quão
dependente a Rússia se tornou da sua generosidade. E essa relação
desequilibrada só vai fazer aumentar o sentimento de insegurança da
Rússia”, acrescenta o professor norte-americano. Da Rússia chega a
confirmação dessa perceção: “A Rússia não está interessada em que a
China se torne um ator geopolítico mais relevante na região e vai tentar
limitar a sua cooperação com Pequim no Ártico à esfera económica”,
resume Alexander Sergunin.
Ao
mesmo tempo, Moscovo tentará jogar com os receios do Ocidente face ao
gigante chinês para não perder a sua influência na região. “Se sairmos
de Spitsbergen, quem pode substituir-nos? A China, por exemplo”, avisou há uns tempos o cônsul russo Sergei Guschin, usando o nome russo de Svalbard (Spitsbergen), o arquipélago norueguês da discórdia.
NATO e Rússia. Um embate de titãs a Norte?
Este
puzzle complexo não deixa ninguém indiferente no Ártico. A Noruega,
país a que pertence Svalbard, já há muito que se preocupa com a atuação
russa na região. “As Forças Armadas russas modernizaram-se
significativamente nos últimos 12 anos”, avisou o ex-ministro da Defesa
de Oslo, Frank Bakke-Jensen, no ano passado. “A Rússia consegue agora conduzir operações sobre uma vasta área no Ártico”, o que reduz “a liberdade de movimento da NATO”.
À
altura, a Noruega era um dos vários membros do Conselho do Ártico que
pertence à NATO, a par dos EUA, Canadá, Dinamarca e Islândia. Um ano e
meio depois, porém, a situação é outra. A guerra na Ucrânia levou a
Suécia e a Finlândia a pedirem a adesão à Aliança Atlântica, o que muda
significativamente o cenário na região: em breve, a Rússia será o único
país do Conselho que não pertence à NATO.

Militares da NATO num dos exercícios militares da Aliança na região
Simbolicamente,
é uma grande transformação da geopolítica do Ártico, que pode servir
para a Rússia carregar no discurso de que se sente ameaçada pelo avançar
das fronteiras da Aliança. Desde o início do conflito na Ucrânia, a
NATO reforçou a sua presença no Ártico com uma série de exercícios
militares no norte da Noruega, a que deu o nome de Resposta Fria 2022.
Mas,
na prática, a mudança é mais cosmética, segundo o professor Sergunin.
Apesar de reconhecer que, com a entrada na NATO, a relação da Rússia com
a Finlândia e a Suécia “nunca mais será a mesma”, o russo considera que
é uma mudança mais de forma do que de conteúdo. “A Suécia e a Finlândia
estão alinhadas com o Ocidente há décadas. Ainda antes de se
candidatarem à NATO, participaram em exercícios militares e treinos com
membros da NATO durante anos. A única coisa que muda é que os dois
países comprometem-se agora com o Artigo 5 [‘Um ataque a um membro é um
ataque a todos’]”, diz.
E
haverá na verdade o risco de um conflito militar no Ártico? As opiniões
dividem-se. Auerswald considera que o risco existe em várias formas,
como “uma escalada na Ucrânia, uma invasão militar dos Estados bálticos
ou um erro de cálculo durante um exercício militar”, que
“inevitavelmente se espalhariam ao Ártico”, devido ao envolvimento da
Frota do Norte. Já Sergunin sublinha que nenhuma das partes tem
interesse em partir para um conflito na região, incluindo a própria
Rússia: “Moscovo não está interessada em meter-se em mais um conflito
perto da sua fronteira além do da Ucrânia. Além disso, [a Rússia]
entende que agora, no Ártico, está rodeada de países da NATO e qualquer
conflito com eles traz riscos de uma escalada militar considerável ou
até mesmo uma guerra em larga escala.”

As intenções militares da Rússia no Ártico não são claras e os especialistas dividem-se
Numa
zona militarizada e numa época de tensão, o risco está sempre presente.
A forma como se olha para o futuro no Ártico pode, por isso, ser mais
ou menos cor-de-rosa. Alexander Sergunin quer manter-se otimista: “É
claro que a nova fase da crise ucraniana tem um efeito de alastramento
negativo ao Ártico, mas creio que é mais uma interrupção temporária da
cooperação na região do que o início de um conflito”, afirma, apontando
os problemas comuns que assolam todos os Estados da região, como as
alterações climáticas.
Em
Washington, porém, o ambiente é de reserva face a uma Rússia que se
revelou imprevisível, como resume David Auerswald. “Eles estão a colocar
recursos no Ártico que tentam projetar poder. Isso, combinado com a
vontade da Rússia de desprezar o Direito Internacional, faz com que os
Estados a Norte tenham todo o direito a preocuparem-se. As tentativas de
intimidação russa podem escalar para a coerção militar — talvez até
para um conflito armado.”
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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