Mais do que o antissemitismo propriamente dito, é o visceral ódio à democracia que está por trás desse desejo que Israel desapareça do mapa. Texto do professor Paulo Tunhas para o Observador:
Lembro-me
bem dos tempos que se seguiram, em 1989, à fatwa lançada pelo Ayatollah
Khomeini – “aiatolo”, dizia-se nesses tempos, tempos ainda ignorantes
do que se estava a preparar, apesar do choque – sobre Salman Rushdie a
24 de Fevereiro, por causa da publicação dos Versículos Satânicos. Em
Portugal, que eu saiba, não houve manifestações de rua. Mas um poeta
conhecido de alguns, convertido ao Islão, apoiou a fatwa (o Cat Stevens
possível). E o medinho português, é claro, aproveitou para dar um ar da
sua graça. Numa livraria, que já não existe, perto de uma casa onde já
não vivo, o empregado perguntou-me, através dos seus bigodes
farfalhudos, se eu estava interessado no livro, que retirou furtivamente
debaixo do balcão, onde logo, depois da minha negativa, e como se
estivesse a vender pornografia há setenta anos atrás, com um gesto
clandestino o voltou a colocar.
Noutros
lugares, é claro, foi diferente. Por todo o mundo islâmico, e em todos
os lugares onde a comunidade islâmica era numerosa, multidões saíram à
rua para apoiar a fatwa. O grande especialista do Islão Malise Ruthven
publicou em 1990 um livro, A Satanic Affair, sobre o que estava em jogo
para os seguidores de Khomeini, notando, entre outras coisas, a
importância da questão sexual. No início do livro, conta o seu contacto,
em Londres, a 27 de Maio, com manifestantes que apoiavam a fatwa. No
meio de incitamentos ao assassinato de Rushdie, falava-se, a propósito
do livro, de conspiração sionista. Dois deputados trabalhistas – um
deles o notório Keith Vaz, que viria a renunciar ao seu cargo em 2007,
devido a um escândalo com prostitutos masculinos e cocaína –
discursaram, apoiando a multidão e condenando Rushdie. Não custa
imaginar que Hadi Matar, o homem que, a 12 deste mês, esfaqueou várias
vezes Salman Rushdie quando ele se preparava para falar no estado de
Nova Iorque, os tivesse aplaudido e juntado a sua voz à da turba
enfurecida.
O
que é certo é que o Irão, pretendendo falar em nome de 1,5 mil milhões
de muçulmanos, não está nada descontente com o feito de Hadi Matar. A
culpa do esfaqueamento, lembrou um responsável iraniano, no seguimento
de artigos entusiásticos na imprensa do regime, é do próprio Rushdie e
dos seus apoiantes, dada a manifesta impiedade que exibem. O mesmo, de
resto, devem pensar os simpáticos talibãs do Afeganistão, que, graças à
catastrófica retirada das forças americanas e outras organizada por Joe
Biden, acabam de celebrar um ano de reconquista do poder, no meio da
mais extrema miséria, do terror e de discriminações de vária espécie.
É
curioso notar que esta gente toda tem merecido o desvelo de Vladimir
Putin, no exacto momento em que leva a cabo a sua tentativa de
extermínio dos ucranianos. O seu círculo de dilectas amizades
estende-se, além disso, à Coreia do Norte de Kim Jong-un, outro adorável
regime que a todos nos maravilha pelos seus feitos em prol da
humanidade. E nem sequer falo da China, lugar dos maiores morticínios do
século XX, já que é preciso sempre, tendo em conta a longevidade,
descontar alguma coisa ao mais velho despotismo da história humana. Toda
esta gente faz muita gente. Muita gente que despreza a democracia até à
ponta dos cabelos e que, quando é preciso, sabe bem entender-se. Afinal
de contas, independentemente das diferenças, esse ódio pela democracia
tem um forte poder unificador. Há qualquer coisa de natural nestas
simpatias que se tecem.
São
afinidades electivas que se estendem aos países democráticos. Pensem no
PCP, por exemplo. Alguns dos regimes que referi, merecem-lhe simpatia
manifesta. Outros não lhe suscitam qualquer crítica de maior. O que se
vê sobretudo se compararmos a sua atitude para com estes regimes com
aquela que têm face aos países democráticos. Destes últimos,
simbolizados pela sua união na NATO, é que vêm todos os males do mundo.
Representam, no seu conjunto, o acto puro da agressão e da destruição
universal. Falo do PCP como exemplo. Vária outra gente pensa exactamente
assim: o ódio às democracias – junto, é verdade, com um velho fascínio
pelo poder brutal – é a única coisa que, em certos casos, mobiliza o
pensamento e determina a posição política.
Em
nenhum outro caso se vê isso tão bem como na atitude a respeito de
Israel. É uma coisa, por acaso, que penso há muito tempo: Israel
concentra em si todo o ódio que essa gente tem à democracia. Até por se
encontrar rodeada por países que de democrático nada têm, os inimigos da
sociedade aberta, para retomar a expressão que Popper foi colher a
Bergson, celebrizando-a, tomam-na como alvo preferencial. Mais do que o
anti-semitismo propriamente dito, é o visceral ódio à democracia que
está por detrás desse desejo – comum a Saramago e a Boaventura Sousa
Santos, entre muitos – que Israel desapareça do mapa. Até porque é uma
democracia que sobrevive nas mais adversas circunstâncias e que não
desiste de lutar pela sua sobrevivência. Para os camaradinhas
totalitários, portanto, um mau exemplo, um péssimo exemplo. Para nós,
com todos os seus problemas, um excelente exemplo – como a Ucrânia. Se
quisermos que a sociedade aberta sobreviva aos seus inimigos, é claro.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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