As democracias também não são imunes às suas vizinhanças. Putin já demonstrou quão desestabilizador pode ser como vizinho. É uma ilusão pensar que se contentaria com a “finlandização” da Ucrânia. Rui Ramos para o Observador:
Que
quer a ditadura russa na Ucrânia? Os comentadores nas democracias
ocidentais encontraram logo a resposta conveniente: Putin quer sabotar
uma democracia, por receio que seja exemplo para a Rússia. Mas porque
não perguntar também: que querem as democracias ocidentais?
Parece
haver relutância em fazer a pergunta. Talvez por receio de admitir
alguma equivalência entre a ditadura russa e o Ocidente. Não há razão
para tal receio. Sim, ambos jogam na Ucrânia o mesmo “grande jogo” (como
se dizia no século XIX) de alargamento de esferas de influência. Uns
ameaçam com tropas, outros com sanções. Mas isso não os torna iguais.
Uma Ucrânia integrada nos sistemas de segurança e de comércio ocidentais
gozaria de uma liberdade e de uma prosperidade que uma Ucrânia
submetida à Rússia nunca obteria. Porque não é isto reconhecido? Não é
por medo de validar a caricatura soviética do imperialismo capitalista, a
que a extrema-esquerda universitária e mediática se mantém fiel. É por
outro motivo: pela presente dificuldade ocidental em reconhecer
obrigações para com a democracia no resto do mundo.
Acabada
a Guerra Fria, os ocidentais acreditaram por um momento que os muros
continuariam a cair por si. Hoje a URSS, amanhã a China. Era só esperar.
O 11 de Setembro fê-los pensar que lhes convinha ajudar a história. Não
estavam, porém, preparados para as resistências. Dividiram-se,
desistiram. Desistiu Obama, desistiu Trump, desistiu Biden. Quase se
resolveu, por fim, que ser lúcido era ser indiferente a ditaduras e
anarquias no resto do mundo. Quanto ao mais, bastaria aos ocidentais
acolher uns refugiados para passearem consciências tranquilas.
A
ditadura russa parece destinada a mudar as coisas outra vez. É que as
democracias também não são imunes às suas vizinhanças. Putin já
demonstrou quão desestabilizador pode ser como vizinho. É uma ilusão
pensar que se contentaria com a “finlandização” da Ucrânia. A Rússia de
Putin não é a China: tem ambições de potência mundial, mas uma economia
mais pequena do que a da Coreia do Sul e uma população decrescente. Só a
agressividade lhe pode trazer prestígio e influência. Daí a
desinformação, a ciberguerra e a pressão militar. Mas o seu efeito
subversivo vai além. Não é por acaso que a extrema-esquerda se agarra às
abas do casaco da ditadura nacionalista russa quase com o mesmo fervor
com que antes servia o despotismo comunista. À falta de Lenine, é Putin
que lhe serve para demonstrar que o futuro não tem de ser democrático.
Ditaduras como a de Putin não atormentam apenas os povos a elas
sujeitos: corrompem o mundo à sua volta.
Por
isso, a liberdade da Ucrânia é a liberdade da Europa, e faz todo o
sentido jogar o “grande jogo” para a defender. Não, não estou a
recomendar qualquer proselitismo democrático, para o qual faltam no
Ocidente competência, perseverança ou consenso. Um célebre cartaz
americano da II Guerra Mundial dizia: “this world cannot exist half
slave and half free”. Mas é assim que existe. Não se trata de mudar o
mundo. Não se trata de agravar conflitos até ao nível do apocalipse.
Trata-se apenas de tornar o mundo o mais seguro possível para as
democracias. Trata-se apenas de limitar, por meios razoáveis, ditaduras
instáveis e agressivas como a ditadura de Putin, e de ajudar aqueles que
resistem a essas ditaduras, e muito em especial os que desejam e podem
constituir-se em sociedades livres. É o que o Ocidente tem tentado na
Ucrânia. Não é uma escolha, é uma necessidade. Não é uma novidade, foi
sempre assim. Não é isento de riscos, mas nada é. É improvável que as
democracias durem se deixarem cercar-se por ditaduras como a de Putin. A
nossa liberdade também começa onde começa a liberdade dos outros.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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