BLOG ORLANDO TAMBOSI
Entre liberdade e responsabilidade existe um nexo indissociável. O silêncio dos indiferentes não os iliba das responsabilidades. Especialmente perante as acções dos intolerantes. Vicente Ferreira da Silva para o Observador:
1
As ideias que surgiram com as revoluções americana – todos os homens
nascem iguais e a procura da felicidade – e francesa – [o tríplice
princípio da] liberdade, igualdade e fraternidade – originaram uma
mudança sem precedentes na história da humanidade.
Os
conceitos supramencionados são abstratos. São valores. Não são
instrumentos ou mecanismos. A liberdade é, na minha opinião, o mais alto
dos valores, mas dela decorre toda a responsabilidade. Já George
Bernard Shaw dizia: “Liberdade significa responsabilidade. É por isso
que tanta gente tem medo dela”. Hoje em dia, se perguntarmos às pessoas o
que é a liberdade, dificilmente obteremos uma resposta errada. Contudo,
será raro conseguir uma resposta completa. A resposta mais comum será a
possibilidade de escolha. Todavia, as escolhas, tangíveis ou
intangíveis, não tem consequências? Naturalmente que sim. Logo,
liberdade não é apenas a possibilidade de escolher. Liberdade é aceitar
as responsabilidades das escolhas que fazemos. Inclusive, quando optamos
por insultar alguém.
Seguidamente,
é urgente perceber que não existe igualdade no plano individual. Apenas
desigualdade. Só é possível perceber a igualdade se subirmos dois
níveis: o primeiro, os países (que também são desiguais) e, o segundo, a
espécie. Consequentemente, só quando observamos «a humanidade» é que
deixamos de distinguir os indivíduos. Por fim, a fraternidade, que pode
ser perspectivada como a tradução da harmonia que possibilita um meio
para ultrapassar o estado da natureza.
Transpostos
para uma Constituição, estes valores permitem aos cidadãos perceberem
os limites da sua ação, a igualdade da sua condição diante a lei e as
regras da convivência social. Por outras palavras, é pela e perante a
lei, como cidadãos, que as características individuais, embora
reconhecidas, são tratadas do mesmo modo e que oportunidades de
realização do seu desigual potencial são facultadas a todos os cidadãos.
2
O Estado não existe à-priori. Resulta de um processo de agregação
social. E a determinado ponto, foi consolidado politicamente pela tomada
de consciência da necessidade de limitar a liberdade impossível (poder
ilimitado do Rei) de forma a concretizar a liberdade possível
(Constituição).
O
Estado é a convenção à-posteriori que impede o abuso e a arbitrariedade
de todos, principalmente de quem tem poder, enquanto garante a
possibilidade da liberdade a qualquer um. Contudo, qualquer acto de
liberdade individual, intangível ou não, exercido por qualquer pessoa
não é ilimitado. A liberdade existe dentro dos parâmetros da Lei.
Ultrapassados esses limites, haverá consequências. Entre liberdade e
responsabilidade existe um nexo indissociável.
Ora,
consciente da responsabilização inerente aos nosso actos, sempre
defendi, e continuo a defender, que não deve haver limites à liberdade
de expressão. A ironia, o sarcasmo e até o insulto devem ser permitidos.
A educação não é uma obrigação. É uma opção. A diferença deve ser dada
por quem se expressa. E é precisamente pela amplitude da expressão
utilizada que quem se expressa revelará a sua natureza. Para além disso,
uma liberdade de expressão ilimitada não impede a responsabilização de
quem diz o que quer. E o assumir dessa responsabilização pode
perfeitamente acontecer em tribunal.
3 Não gosto da palavra tolerância. Prefiro aceitar a diversidade e a diferença. Tolerância implica condescendência. Quando
os ditos tolerantes se manifestam fazem-no exibindo toda a grandeza da
sua superioridade e arrogância. Como donos da verdade, estão
indisponíveis para dialogar. Só eles tem razão e agem como se fossem
moralmente superiores. É por isso que não é suficiente afirmar a diversidade. É imperioso defendê-la. A diversidade conduz ao respeito.
Não
podemos ignorar o passado. Devemos combater a intolerância sem cair na
tentação de a substituir por outra. Trocar uma intolerância por outra
intolerância não é a solução. A melhor maneira para combater o discurso
do ódio é através de mais liberdade de expressão. Jamais o será pelo
silenciamento. Qualquer medida que vise a restrição da liberdade de
expressão deve ser ferozmente combatida, pois poderá transformar-se num
meio de censura e de condenação.
Por
exemplo, nem a retórica falaciosa do Mamadou Ba, nem a do André
Ventura, podem passar incólumes na sociedade. Ambas devem ser objecto de
contundentes críticas discursivas, sendo essencial que essas críticas
evidenciem a plenitude da ilusão que os intolerantes prometem. E quando
as palavras dos intolerantes incitam à acção, não é admissível ficar em
silêncio.
O silêncio dos indiferentes não os iliba das responsabilidades. É pelas acções dos intolerantes que se esvanece a liberdade.
Membro da Comissão Executiva da Iniciativa Liberal
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