BLOG ORLANDO TAMBOSI
Marcelo Perrone para o Fronteiras do Pensamento:
Na conferência que fez em 2017 no Fronteiras do Pensamento, Niall Ferguson
antecipou um dos temas que abordava em seu próximo livro ainda inédito
“A Praça e a Torre”: o impacto das redes sociais na sociedade, não a
partir da visão utópica vislumbrada na interconexão universal, fraterna e
civilizada de pessoas mundo afora, mas por estas redes terem se
transformado em canais para disseminação de ódio, intolerância,
inverdades e polarização. À época, estavam em evidência episódios como a
jornada de terror patrocinada pelo Estado Islâmico, a eleição de Donald
Trump à presidência dos Estados Unidos e a ruptura política e comercial
proposta pelo Reino Unido com o Brexit, cada qual mostrando o poder dos
meios digitais para promover seus protagonistas e mobilizar corações e
mentes das audiências.
Historiador
britânico reconhecido como um dos mais influentes analistas
contemporâneos do cenário global, por um viés que costura ações e
efeitos da política e da economia, Ferguson é professor da Universidade
de Harvard e autor de livros referenciais como “Civilização”, “Império” e
“A Ascensão do Dinheiro”. Em sua nova conferência
no Fronteiras do Pensamento, neste dia 13 de outubro, o papel das redes
sociais tanto no empobrecimento dos debates quanto nas ameaças à
democracia deve entrar na pauta, assim como outro tema sobre o qual ele
tem se debruçado nos últimos anos: a ascensão da China como antagonista
dos Estados Unidos, sobretudo no campo da economia, no que classifica
como a nova Guerra Fria. Embora o nome de Ferguson costume ser associado
à observação do mundo sob a lente das transformações impostas pelo
capitalismo, ele não é, a rigor, um analista econômico.
–
O Ferguson é um historiador bastante convencional no sentido da
formação, tem uma tradição de análise dos principais pontos da história
nos séculos 19 e 20, aos quais ele mais se dedicou – diz o historiador e
pesquisador Saulo Goulart, doutor em História Cultural pela Unicamp e
autor da aula preparatória sobre Ferguson disponibilizada para
assinantes da Temporada 2021 – Ele tem um viés econômico, mas esta é uma
ênfase um pouco artificial que se faz. O que acontece é que a gente
olha mais para a economia hoje em dia. O Ferguson tenta equacionar como a
sociedade vai mudando do ponto de vista sociocultural atrelado ao viés
econômico, correlaciona camadas de acontecimentos, de fenômenos. Por
exemplo, quando ele fala do Império Britânico moldar o mundo para
favorecer o seu sustento comercial, principalmente a partir da Revolução
Industrial, no século 19. Olha para o Império Britânico a partir de uma
pergunta atual, “como viemos parar aqui?”, e localiza a grande mudança
de estruturação da nossa sociedade capitalista. Faz essas perguntas e
inevitavelmente entra na economia, que tem um impacto gigantesco a
partir do século 19 como um determinante social. Não tem forma de pensar
o mundo após a Revolução Industrial sem conceber a implantação de
modelos econômicos.
Os
livros, ensaios, entrevistas e séries de TV derivadas de seus livros,
deram grande projeção midiática a Ferguson e fizeram dele uma voz
influente no debate político. O foco de suas abordagens históricas – em
“Civilização”, ele enumera as razões para que nações da Europa ocidental
invertessem a mão da evolução científica, econômica, social e
tecnológica nascida e desenvolvida no Oriente – e o seu profundo
conhecimento, expresso com firmeza e não raro com comentários ácidos,
trazem no arrasto controvérsias. Por suas posições e sua proximidade com
figuras graúdas do Partido Republicano dos EUA – foi crítico da gestão
do democrata Barack Obama –, assim como seu apoio ao Brexit, Ferguson
costuma ser classificado como um pensador conservador, alinhado mais à
direita do espectro político tradicional, em franca oposição à corrente
historiográfica posicionada mais à esquerda e sintonizada com o
pensamento marxista. Saulo Goulart, porém, destaca que esse espelhamento
não é apropriado:
–
Rotular um historiador em plena atividade é um reducionismo. O
Ferguson, assim como o Yuval Harari e outros historiadores que têm feito
sucesso, não só não é marxista, como nega a existência de um pensamento
marxista atual. Acho correto, porque não existem hoje teóricos
marxistas que sejam lidos e interpretados mundialmente ou que
influenciem sistemas de governo, nem sequer na China. O Ferguson é
descrito como conservador. E conservador no sentido britânico seria uma
figura tradicional, não adepta a revoluções ou mudanças muito bruscas na
política ou na economia, para salvaguardar a sociedade dos impactos que
essas mudanças bruscas podem ter. É o pensamento básico do
conservadorismo britânico. É muito diferente no Brasil, onde a gente não
tem um conservadorismo no sentido político, mas sim um tradicionalismo
que se diz conservador. Os britânicos têm uma escola política
conservadora, daí o Ferguson tem esse recorte mais liberal. Eu diria que
ele está entre o conservadorismo e o liberalismo clássico. Não é o que
as pessoas costumam chamar, como um palavrão, um neoliberal.
Para
Goulart, Ferguson não cabe nesta rotulagem simplista por, entre outras
características, ser crítico tanto do sistema europeu quanto do
americano de atrelar o lobby à prática política. E suas reservas quanto à
China dizem respeito a um Estado autoritário à frente de uma prática
capitalista que se mostra bastante agressiva:
–
Eu prefiro falar que o Ferguson, na verdade, pega o pensamento
republicano de uma maneira geral sob um viés clássico conservador, então
é difícil encaixá-lo num rótulo. Ele tem preocupações que não são
marxistas. O marxismo se preocupou em recortar a história a partir das
contradições baseadas na ideia de luta de classes. Por outro lado, a
historiografia durante muito tempo teve como ênfase focar na montagem
social a partir das contradições, como os tempos vão se dando conforme a
sociedade vai mostrando seus conflitos. O Ferguson traz um recorte
inovador, olha para a história de maneira mais prática, a partir das
perguntas mais imediatas. Por exemplo, por que os Estados Unidos estão
passando por um processo de perda de hegemonia nas últimas décadas? Ele
vai lá atrás buscar as respostas. É um movimento clássico dos
historiadores, só que o Ferguson ignora as contradições, porque a ideia
dele é responder como que a gente chegou a esse ponto, não propriamente
dizer se algo é conflituoso ou não.
As análises acuradas e espirituosas de Ferguson também colaram nele o adjetivo “visionário”. Entre suas “previsões”, estão a grande crise que abalou a economia mundial em 2008, a já citada má influência das redes sociais e a ascensão da China como oponente dos EUA nas tensões econômicas e geopolíticas – nova Guerra Fria que, alerta ele, pode se tornar uma guerra quente diante do fator Taiwan. Em recente entrevista ao jornal espanhol El País, criticando trapalhadas que minam o início do governo Joe Biden, como a vexatória retirada das tropas norte-americanas do Afeganistão, e enxergando um progressivo enfraquecimento político do atual presidente, Ferguson lançou um arriscado vaticínio para o pleito de 2024: “Trump voltará”.
–
Eu diria que ele não é um visionário, mas um historiador do
diagnóstico, por isso essa pergunta do presente para o passado. A
inteligência do Ferguson é pegar esse diagnóstico e apontá-lo para o
futuro. Mediante essa avaliação, quais os caminhos possíveis? O Yuval
Harari também faz isso, mas de uma forma menos direta, menos focada na
política e mais na questão sociocultural. É lógico que não podemos
mistificar a coisa. É um jogo de erro e acerto. Com informação em tempo
real, a possibilidade de diagnosticar o futuro é mais palpável. Muitos
são alarmistas, mas o Ferguson não é, ele coloca a questão de forma
bastante realista.

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