Putin, um estrategista astuto ou um líder imprudente?
Para alguns analistas, a pandemia pode tê-lo deixado mais paranoico, magoado e imprudente. Anton Troianovski via Estadão:
Neste momento de crescimento da crise na Ucrânia, tudo se resume ao tipo de líder que o presidente Vladimir Putin
é. Em Moscou, muitos analistas continuam convencidos de que o
presidente russo é essencialmente racional e que os riscos de invadir a
Ucrânia seriam tão grandes que o enorme acúmulo de tropas só faz sentido
como um blefe muito convincente.
Mas
alguns também deixam a porta aberta para a ideia de que ele mudou
fundamentalmente em meio à pandemia, uma mudança que pode tê-lo deixado
mais paranóico, mais magoado e mais imprudente.
A
mesa de 6 metros de comprimento que Putin usou para se distanciar
socialmente este mês de líderes europeus que foram ter conversas
diplomnáticas simboliza, para alguns observadores, seu descolamento da
realidade do resto do mundo. Por quase dois anos, Putin se escondeu em
um casulo livre de coronavírus, diferente de qualquer líder ocidental,
com a televisão estatal mostrando-o realizando a maioria das reuniões
importantes por teleconferência sozinho em uma sala e mantendo até seus
próprios ministros à distância nas raras ocasiões em que ele os convoca
pessoalmente.

A
especulação sobre o estado mental de um líder é sempre preocupante, mas
à medida que a importante decisão de Putin se aproxima, analistas
baseados em Moscou e conhecedores do dia-a-dia do Kremlin, intrigados
com o que ele pode fazer a seguir na Ucrânia, não estão conseguindo
fugir da psicologia.
"Há
essa impressão de irritação, de falta de interesse, de falta de vontade
de se aprofundar em algo novo", disse Ekaterina Schulmann, cientista
política e ex-membro do conselho de direitos humanos de Putin, sobre as
recentes aparições públicas do presidente. “Está sendo mostrado ao
público que ele está em isolamento prático, com cada vez menos pausas,
desde a primavera de 2020.”
Uma
invasão em larga escala da Ucrânia, muitos analistas apontam, seria uma
escalada enorme em comparação com qualquer uma das ações que Putin já
tomou antes. Em 2014, o Kremlin ordenou que as forças russas ocupassem a
Crimeia sem disparar um único tiro. A guerra por procuração que Putin
fomentou no leste da Ucrânia permitiu que ele negasse ser parte do
conflito.
Mesmo
que Putin pudesse assumir o controle da Ucrânia, ela observou, tal
guerra realizaria o oposto do que o presidente diz querer: reverter a
presença da Otan na Europa Oriental. No caso de uma guerra, os aliados
da Otan estariam "mais unificados do que nunca", disse Likhacheva, e
provavelmente implementariam novos armamentos poderosos ao longo das
fronteiras ocidentais da Rússia.
Em
casa, Putin sempre desejou projetar a aura de um estadista sóbrio,
anulando os incendiários nacionalistas em programas de entrevistas no
horário nobre e no Parlamento, que o exortam há anos a anexar a Ucrânia.
E
enquanto ele se apresenta como o garantidor da estabilidade da Rússia,
ele pode enfrentar uma tempestade econômica com as sanções ocidentais e
convulsões sociais se houver baixas no campo de batalha e entre civis.
Milhões de russos têm parentes na Ucrânia.
No
momento, os russos parecem concordar em grande parte com a narrativa do
Kremlin de que o Ocidente é o agressor na crise da Ucrânia, disse Denis
Volkov, diretor do Levada Center, um instituto de pesquisa independente
em Moscou. As mensagens alarmistas de Washington sobre uma iminente
invasão russa apenas reforçam essa visão, diz ele, porque faz com que o
Ocidente pareça ser aquele que está “exercendo pressão e aumentando as
tensões”.
Se
Putin realizasse uma operação militar curta e limitada nos moldes da
guerra de cinco dias contra a Geórgia em 2008, disse ele, os russos
poderiam apoiá-la. Mas "se esta for uma guerra longa e sangrenta,
chegaremos a uma situação em que é impossível prever", disse Volkov. “A
estabilidade acaba.”
Dado
que tal guerra ainda parece impensável e irracional para muitos em
Moscou, especialistas em política externa russos geralmente veem o
impasse sobre a Ucrânia como o último estágio do esforço de um ano de
Putin para obrigar o Ocidente a aceitar o que ele vê como preocupações
de segurança russas fundamentais.
Na
década de 1990, segundo esse pensamento, o Ocidente forçou uma nova
ordem europeia sobre uma Rússia fraca que desconsiderava sua necessidade
histórica de uma zona geopolítica de amortecimento a seu oeste. E agora
que a Rússia está mais forte, dizem esses especialistas, seria razoável
que qualquer líder do Kremlin tentasse redesenhar esse mapa.
Fyodor
Lukyanov, um proeminente analista de política externa de Moscou que
assessora o Kremlin, disse que o objetivo de Putin agora é "forçar a
revisão parcial do resultado da Guerra Fria". Mas ele ainda acredita que
Putin vai parar antes de uma invasão em grande escala, usando “meios
especiais, assimétricos ou híbridos” – incluindo fazer o Ocidente
acreditar que ele está realmente preparado para atacar.
"Um
blefe tem que ser muito convincente", disse Lukyanov. E os Estados
Unidos, continuou ele, com seus retratos robustos de uma Rússia
agressiva pronta para uma invasão, “está jogando 200% a favor de Putin”.
Por
essa linha de pensamento, dizem os analistas russos, as autoridades
americanas estão se apaixonando por uma imagem exagerada de Putin como
um gênio do mal. Como as tentativas anteriores de Putin de negociar com o
Ocidente sobre o controle de armas e a expansão da Otan fracassaram,
dizem eles, o Kremlin optou por aumentar as apostas a um ponto em que
seus interesses se tornaram impossíveis de ignorar.
"Ele
é muito bem-sucedido em usar a imagem negativa que foi criada dele como
um demônio", disse Dmitri Trenin, chefe do think tank Carnegie Moscow
Center, descrevendo Putin como alguém que está capitalizando os temores
de que ele estava preparado para desencadear uma guerra horrível. “O
plano era criar uma ameaça, criar a sensação de que uma guerra poderia
acontecer.”
Mas
os especialistas já estavam errados antes. Em 2014, Putin tomou a
Crimeia, mesmo quando poucos analistas de Moscou previam uma intervenção
militar. E os céticos da visão de que Putin está blefando apontam que,
durante a pandemia, ele já tomou medidas que antes pareciam improváveis.
Sua
dura repressão contra a rede de Alexei Navalni, por exemplo, contradiz o
que era uma visão amplamente difundida de que Putin estava feliz em
permitir alguma dissidência doméstica como uma válvula de escape para
administrar o descontentamento.
“Putin,
no ano passado, cruzou muitas linhas vermelhas”, disse Michael Kofman,
diretor de estudos da Rússia no CNA, um instituto de pesquisa com sede
em Arlington, Virgínia, na semana passada. “As pessoas que acreditam que
algo tão dramático é improvável podem não ter observado essa mudança
qualitativa nos últimos dois anos.”
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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