Há um esforço global para derrubar espaços exclusivamente femininos e acomodar uma agenda radical de gênero que promova ideologias anticientíficas como verdade. Ana Paula Henkel para a Oeste:
A
demoníaca cultura do cancelamento fez — ou pelo menos tentou fazer —
outra vítima. Desta vez foi com Adele, a cantora britânica mundialmente
reconhecida. A vencedora de mais de uma dúzia de Grammys cometeu o crime
hediondo de defender o sexo feminino na premiação anual de música da
British Phonographic Industry.
Os
organizadores do BRIT Awards anunciaram pela primeira vez que sua
premiação seria “sem gênero”. A mudança, alegaram, pretendia mostrar o
“compromisso da organização em evoluir para ser a mais inclusiva e
relevante possível”. Em vez disso, enterrou as realizações de artistas
conceituadas como Adele, que veem sua feminilidade como um ativo no
mercado. Ao receber o prêmio de melhor artista do ano, Adele resolveu
dizer o óbvio: que as mulheres não querem e não devem ser apagadas em
nome de uma suposta “inclusão”. “Entendo por que o nome deste prêmio
mudou, mas eu amo ser mulher e ser uma artista feminina — eu amo, eu
amo!”
Boom. Os comentários de Adele receberam mais atenção do que a excepcional qualidade de sua música e de seu trabalho. No dia seguinte, muitos meios de comunicação destacaram vários tuítes de “influencers” da comunidade LGBT difamando a “Artista do Ano” como uma “feminista radical trans-excludente”, ou “TERF”, nome pejorativo dado a mulheres que, supostamente, não apoiam as causas trans. Os intolerantes do bem do teclado criticaram Adele por ela receber o prêmio e — pasmem! — não usar a baboseira da tal linguagem neutra em seu discurso. Mas não há nada de errado no comentário pró-mulher da cantora; muito pelo contrário, a verdade é que as mulheres podem — e devem — falar quando espaços dedicados a nós são arrancados em nome de uma suposta “inclusão”.
Há
um esforço global para derrubar espaços exclusivamente femininos e
acomodar uma agenda radical de gênero que promova ideologias
anticientíficas como verdade. E isso está acontecendo em escolas,
prisões, esportes e no mundo do entretenimento. Crianças e adolescentes
com idades entre 4 e 18 anos estão aprendendo em muitas escolas públicas
dos Estados Unidos que podem trocar seus pronomes, a aparência e até
suas partes íntimas, dependendo de como se sentem. Essas mesmas escolas,
financiadas com o dinheiro dos pagadores de impostos, justificam
permitir que meninos do ensino médio que se identificam como meninas
entrem nos banheiros femininos, o que abriu a porta para agressões sexuais.
Homens, alguns acusados de crimes sexuais contra mulheres, estão sendo
transferidos para prisões femininas aqui na Califórnia e em outros
Estados democratas simplesmente porque afirmam que são mulheres. Mesmo
esportes universitários exclusivos para mulheres, que deveriam ser
protegidos pelo Título IX (lei de 1972 que previne a discriminação de
gênero no sistema educacional atlético dos EUA, dando a cada gênero
direitos iguais a programas educacionais, atividades e assistência
financeira federal), são ameaçados por homens biológicos que “se sentem
como mulheres”, como a nadadora da Universidade da Pensilvânia Lia
Thomas, e aliados radicais das políticas de gênero na NCAA (Liga
Universitária Americana).
Identidade de gênero como ideologia
Adele
não é a primeira celebridade feminina a ser cancelada pela turba que
jura por tudo que é mais sagrado proteger as minorias e as mulheres. Em
2019, J.K. Rowling, autora da série Harry Potter, saiu em defesa de uma
mulher britânica que foi demitida de seu emprego por postar em suas
redes sociais que “homens não podem se transformar em mulheres”, uma
visão que muitos chamam de transfóbica. Como resultado, fãs furiosos
tacharam a autora de TERF, queimaram seus livros e até enviaram ameaças
de morte. Rowling saiu em defesa de Maya Forstater, que apenas disse o
óbvio: que existem somente dois sexos biológicos. A bilionária do mundo
literário também acrescentou em uma entrevista que “muitas mulheres
estão preocupadas com os desafios aos seus direitos fundamentais que
estão sendo colocados em xeque por certos aspectos da ideologia de
identidade de gênero”. Logo após o episódio, Rowling se envolveu em uma
outra “polêmica”, depois de criticar um artigo que usava o termo
“pessoas que menstruam” em vez de “mulheres”.
Não entre em pânico
Não,
não somos os únicos com a sensação de que o mundo está de cabeça para
baixo. Estamos em tempos de tiranias governamentais e culturais. É fato
que cada geração teve de lidar com suas próprias manifestações de
bullying e vergonha pública. A década de 1950 viu o macarthismo, a
perseguição política que expliquei em detalhes num artigo
publicado aqui em Oeste e que voltou com tudo nesses tempos atuais de
extrema polarização política. Na década de 1690, em Salem, no Estado de
Massachusetts, a história testemunhou a caçada e os julgamentos de
bruxas. Agora, estamos sofrendo com a digital perversa de nossa geração,
que ficará marcada nos livros como a “cultura do cancelamento”. A
vergonha pública do século 21, no entanto, não atinge milhares, mas
dezenas de milhões e é capaz de fazer isso de maneira instantânea na
internet e nas mídias sociais — com muita frequência, sob o manto do
anonimato dos mascarados do Twitter, a cracolândia da internet.
A
ruína de nossa geração é uma hidra de muitas cabeças, como o doxing
(prática de descobrir informações pessoais sigilosas de uma pessoa e
divulgá-las on-line), a exposição pessoal, a vingança e o cancelamento
das carreiras de figuras públicas. As “manchas” são baseadas na
suposição de que os alvos entrarão em pânico; eles se desculparão e
buscarão penitência, reduzindo-se a ídolos tímidos e bajuladores da
turba demoníaca. O objetivo é a trotskização eletrônica: fazer essa
gente que ousa questionar a vil e segregacionista agenda identitária —
pedindo desculpas ou não — desaparecer das telas dos computadores como
se nunca tivesse existido.
| Kurt Cobain com roupas femininas |
Adele é uma mulher adulta que canta sobre suas experiências como mulher. Por que ela deveria se desarmar ou negar o que, essencialmente, é seu “superpoder”? Apesar de todo o lixo encontrado no Twitter, outras pessoas saíram em sua defesa — um sinal de que possivelmente estamos começando a emergir de um estado catatônico excessivo. Onjali Rauf, outra autora britânica de sucesso e fundadora da ONG Making Herstory, uma organização de direitos da mulher que combate o abuso e o tráfico de mulheres e meninas no Reino Unido, foi até a cracolândia da internet e disse: “Obrigado, Adele! Obrigado por falar duas palavras que estão sendo difamadas. Mulher. Feminino”. Um editorial da educadora Debbi Hayton, publicado pela revista Spectator, foi igualmente efusivo, agradecendo a Adele por se arriscar a ter o mesmo destino de J.K. Rowling e outras mulheres que “foram perseguidas, e perseguidas sem piedade, simplesmente por defender seu sexo. A mensagem de Adele para mulheres e meninas foi inspiradora”, disse Hayton.
Trinta
anos atrás, Kurt Cobain abriu a década de 1990 usando vestidos. Quem
pensaria que o discurso de Adele, abraçando e afirmando sua
feminilidade, seria considerado tão transgressor hoje em dia? Dizer em
voz alta que você tem orgulho de ser mulher agora é ofensivo. Estamos
realmente surpresos neste momento? Há uma década, se alguém dissesse que
uma mulher seria criticada pelo crime de pensamento de dizer que
gostava de ser mulher, teríamos caído em gargalhadas por uma piada tão
ridícula. Mas agora é real. E a cultura do cancelamento não vai parar a
menos que aqueles que estão sujeitos a ela revidem.
Adele,
como nos ensina um dos maiores pensadores contemporâneos, Jordan
Peterson, não pediu desculpas a uma turba sedenta de sangue e tampouco
suavizou suas declarações. Toda vez que uma pessoa pede desculpas ou se
ajoelha no confessionário dos jacobinos para algum tipo “reeducação”, os
tubarões bradam: “Veja, nós fizemos isso!”. E isso não é apenas
ideológico, é também pessoal. Muitos saem de suas obscuras tocas em
tempos de julgamentos, como o das bruxas de Salem ou mesmo no reinado de
terror da Revolução Francesa. Criaturas inúteis e parasitas de almas,
essa gente mesquinha, no fundo, faria de tudo para trocar de lugar com
os cancelados. Eliminando o brilho que incomoda, o ego dos abutres fica
fortalecido. E sob o pretexto da justiça social, eles cometem ações
irresponsáveis e até perigosas. Toda essa insanidade não vai parar até
que lutemos e sejamos explícitos que não temos medo, que não vamos nos
desculpar por quem somos ou por aquilo em que acreditamos. A cultura do
cancelamento é uma ilusão que deve ser destruída.
Os
espaços femininos são projetados para fortalecer, proteger e celebrar
as mulheres por suas realizações. Quando influências culturais, como
prêmios e conquistas, abandonam o prestígio específico do sexo, eles
acabam por tirar a honra e o respeito que vêm de ser uma mulher
realizada. Apesar das tentativas do BRIT Awards, que segue a nefasta
agenda de gênero neutro de apagar a importância do sexo, Adele
orgulhosamente defendeu as mulheres e disse ao mundo que ama como foi
criada. Ao final de seu discurso, ela afirmou: “Estou muito orgulhosa de
nós. Estou realmente muito orgulhosa”.
Eu também, Adele. Eu também.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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