A incompatibilidade entre Ciência e Estado é estrutural. A Ciência
progride através de tentativas e erros; o Estado é intransigente com o
erro e a incerteza. O Estado é o pior inimigo da Ciência. Carlos M.
Fernandes, em artigo escrito para o Observador:
A ciência é o artefacto sistematizado da curiosidade humana. Como
tal, está em permanente dialéctica com a ignorância, alimentando-se da
dúvida, da incerteza, do risco, e, sobretudo, da liberdade de
pensamento. Conceitos como consenso, autoridade e verdade, são-lhe
estranhos. O conhecimento científico, «qual pluma al vento», é volúvel e
entre as suas funções não se encontra a formulação de juízos
metafísicos.
Contudo, nunca, como na actualidade, se falou tanto de consenso e
jamais a autoridade dos peritos foi tão reverenciada – principalmente
quando está em sintonia com a agenda de governantes oportunistas. Com
efeito, a especialização sôfrega e o elogio da autoridade definem, ao
dia de hoje, a imagem da ciência e do cientista. Junte-se, a este
equívoco, políticas de investigação centralizadas e administradas por
burocratas e temos o esboço de um declínio há muito anunciado. A ciência
moderna, numa fase contranatural do seu ciclo vital, enfrenta o mais
duro teste desde que Descartes e Bacon lançaram a suas fundações.
Averiguar as causas do desvio das boas práticas científicas não é uma
tarefa trivial, até porque a própria natureza da ciência pode estar na
origem do problema. Passo a explicar. Se é certo que uma leitura de John
Milton beneficia de um convívio com Homero, Vergílio e Ariosto, uma
abordagem a Paraíso Perdido que se assuma menos conhecedora (ou
reconhecedora) das suas influências e modelos não está condenada à
irrelevância: não é preciso discernir afinidades entre a lança de Satã e
o escudo de Aquiles para apreciar a (sempre difícil) épica miltoniana.
Compreender os resultados de Einstein sem um conhecimento consistente de
mecânica clássica é mais complicado. Por outras palavras, há uma
propriedade cumulativa na ciência que não podemos descartar no
apuramento de responsabilidades pela deriva da multidisciplinaridade e
triunfo da especialização.
Na verdade, para a degradação do edifício científico concorrem um
conjunto de factores, um dos quais, nada despiciendo, é o acesso de
outra instituição aos corredores da ciência: o Estado. Nem sempre foi
assim. Ao longo de quase três séculos, os cientistas gozaram de uma
relativa independência do poder político. É um facto que, no decurso
desse período, houve apoios mecenáticos à investigação e às grandes
empresas de exploração geográfica, mas, salvo algumas excepções, foram
patrocínios desinteressados, propostos por sócios silenciosos em busca
de prestígio social e que não interferiam nas linhas de investigação dos
cientistas. A situação mudou em meados do século passado. Desde então, a
ciência franqueou as portas da sua casa ao poder, ficando sujeita à
depredação de uma entidade voraz. A perda de liberdade e autonomia foi a
consequência irreparável desse descuido.
A incompatibilidade entre ciência e Estado é estrutural. A ciência
progride através de tentativas e erros; o Estado, na sua concretização
contemporânea e socializante, é intransigente com o erro e a incerteza.
Na investigação científica, há caminhos infecundos e sinuosos, mas não
há caminhos inúteis; os governos, autodesignados guardiões da esfera
pública e da esfera privada (cuja fronteira gostariam de abolir),
rejeitam o direito individual a fazer más escolhas. A ciência é um
processo de descoberta colectivo, apoiado na liberdade individual, e,
por esse motivo, dá-se muito mal com o colectivismo. O Estado é o pior
inimigo da ciência.
Antes de prosseguir, impõe-se aqui uma advertência: temos uma maior
sensibilidade para a época em que vivemos e não é de excluir a hipótese
de que este juízo sobre a actual conjuntura científica esteja
comprometido por um viés de observador. Não obstante, há sinais
inequívocos do declínio da ciência. A fraude tem crescido
significativamente e a quantidade de artigos retirados ou retractados
nas revistas de maior prestígio alcançou, na década passada, uma
dimensão alarmante. A investigação básica, pouca mediática e afastada
das prioridades do poder, definha. Os cientistas, pressionados pela
necessidade de financiamento – e de gestão desse mesmo financiamento –,
são desviados com cada vez mais frequência para tarefas de
administração. A relação próxima entre mestre e aluno e entre colegas
foi substituída pelo contacto à distância e por colaborações fictícias
que visam, principalmente, a obtenção de fundos e o milagre da
multiplicação das aptidões curriculares. Em suma, o mau comportamento
científico prospera sob a vigilância atenta a anuente do Estado.
O sistema de financiamento por projecto, que concentra os fundos
públicos em meia dúzia de áreas definidas pelos governos, é uma das
principais causas do problema. Margaret Thatcher constatou que «os
grandes avanços científicos não surgiram de planos práticos, mas sim de
mentes criativas científicas.» Thatcher tinha treino científico
(licenciatura em química por Oxford), era inteligente e conhecia os
perigos da sovietização da ciência. Já os governantes contemporâneos,
julgando-se competentes para definir áreas prioritárias, subvertem os
fundamentos da investigação e inibem as qualidades fundamentais dos seus
agentes: curiosidade, criatividade e liberdade. A ciência não se
controla por decreto.
Em nome do rigor, há que dizer que o declínio não é exclusivo das
ciências naturais e é até mais evidente nas ciências sociais e nas
humanidades, onde a liberdade de expressão e o debate de ideias foram
pulverizados por um novo ideal censório: os clássicos são reprovados e
afastados dos programas académicos se ofendem os dogmas do feminismo e
de outras doutrinas totalitárias; a dissidência é perseguida e tratada
como um delito de opinião; a linguagem é vigiada e a gramática
modificada de acordo com os padrões das ideologias dominantes; o
património histórico e artístico, com a aprovação tácita das elites
bem-pensantes, é alvo da fúria popular. A sensação de crepúsculo
civilizacional é categórica. Neste contexto social e histórico, a
apoteose do consenso e da verdade e a chamada dos «especialistas» ao
palco seria um espectáculo hilariante, se não fosse trágico.
A propósito da especialização e do conflito entre burocracia e
liberdade científica, mencionarei agora um episódio da história da
ciência e da técnica que ilustra bem a importância do conhecimento
horizontal, da liberdade de consciência e da insubmissão à autoridade.
Como muitos se devem recordar, no dia 28 de Janeiro de 1986 o vaivém
espacial Challenger desintegrou-se sobre o oceano Atlântico. Depois de
um inquérito interno inconclusivo, a presidência norte-americana decidiu
recorrer a uma comissão independente para investigar as causas do
acidente. Para o efeito, convocou um grupo variado: alguns, engenheiros
aeronáuticos com ligações à NASA, poder-se-iam considerar especialistas;
outros, que constituíam uma parte significativa da equipa, eram
formados nas mais diversas áreas. Um desses «não especialistas» era
Richard Feynman, físico teórico e prémio Nobel – e a quem tomei de
empréstimo o título deste artigo.
Foi Feynman quem identificou a falha técnica que, com elevada
probabilidade, causou o acidente do Challenger. Foi também ele quem se
apercebeu de que a hierarquia da NASA silenciou avaliações de risco
menos favoráveis ao lançamento do vaivém naquela data. Durante as
averiguações, Feynman notou ainda que alguns elementos da comissão, mais
comprometidos com a instituição, se sentiam pouco à vontade para fazer
as perguntas contundentes e assinalar, publicamente, as fragilidades da
missão. A autoridade é incompatível com o apuramento dos factos
científicos.
A história do Challenger demonstra ainda que qualquer cientista bem
treinado pode oferecer soluções para problemas que, em aparência, se
encontram fora da sua área de eleição. Desqualificar um cientista ou um
engenheiro por não ser, de acordo com os estritos critérios
contemporâneos, um especialista, não é ciência: é censura. Além do mais,
um especialista não é um deus nem um oráculo. Pode até ser uma criatura
intelectualmente limitada, mesmo que bem preparada numa área reduzida
do conhecimento científico. E em ocasiões, nem isso é. Ao dia de hoje,
passam por especialistas toda a espécie de aficionados e farsantes:
milionários com uma estranha obsessão por vacinas, candidatos
presidenciais frustrados com mensagens apocalípticas, adolescentes
absentistas com transtornos neurobiológicos, jornalistas com pouca
vocação para o jornalismo mas muito talento para o drama, matemáticos
que se aventuram na epidemiologia antes de estudarem as barreiras de
imunidade. Dá para tudo – até para políticos semianalfabetos
reinventarem o espectro de acção dos antibióticos.
A comunicação social, que devia vigiar estes simulacros de informação
e os ataques ao edifício da ciência, não só se demite das suas funções,
como ainda faz o papel de mestre-de-cerimónias de um circo de
aberrações, promovendo o medo, o obscurantismo e toda a classe de
charlatões – quem ainda se lembra do «especialista» Artur Baptista da
Silva?
Esta não é, decididamente, uma época científica. Numa época
científica, os mensageiros do pânico não teriam tanto tempo de antena e o
cepticismo informado não seria apodado de negacionismo. Numa época
científica, não se desinfectariam escolas fechadas durante meses, nem se
despejaria lixívia sobre praias e respectivas comunidades bióticas.
Numa época científica, não se sujeitaria um cidadão saudável a tapar a
cara com um pano a pretexto de uma doença respiratória. Numa época
científica, a condução solitária com máscara cirúrgica seria uma cena
invulgar e burlesca. Numa época científica, considerar-se-ia
inadmissível que o Estado fizesse com a morte aquilo que faz com os
recursos dos contribuintes: transferi-la, com critérios arbitrários, de
um domínio para o outro – a fazer lembrar as inquietantes palavras de
Edgar Morin: «A morte é o campo de batalha, o palco eterno, cuja posse
dá o poder sobre as almas. Quem possui a morte possui o poder!» Numa
época científica, a razão não seria vencida pelo medo.
Concluindo, a ciência foi infectada pelo vírus do Estado, está ligada
ao ventilador e, mesmo que recupere, as sequelas podem ser permanentes.
E quando a ciência, a razão e o conhecimento se ausentam, o
obscurantismo e o poder discricionário sentir-se-ão tentados a ocupar o
lugar vago. Sem os freios, institucionais e informais, de uma sociedade
aberta, sem a vigilância de uma imprensa livre e o controlo do poder
judicial, os governos transformar-se-ão então em bandos de funcionários
prepotentes, chefiados por sociopatas (ou simples imbecis) convencidos
da supremacia natural sobre uma população assustada e submetida
voluntariamente a todos os abusos. Nessas circunstâncias, os únicos
recursos de um cidadão livre são a desobediência e a resistência:
intelectual ou física, passiva ou violenta.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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