Maria do Carmo Ferreira é a grande vencedora do Prêmio Academia Mineira de Letras 2025
Premiação agracia a autora mineira, de 86 anos, com R$40 mil reais e tem patrocínio da Fundação Lucas Machado (Feluma)
O livro Poesia reunida [1966 – 2009] (Martelo Casa Editorial, 2024), de Maria do Carmo Ferreira, foi o grande vencedor do Prêmio Academia Mineira de Letras 2025. Publicada pela primeira vez em formato de livro, a obra da poeta mineira chega ao público como um verdadeiro acontecimento literário. Sob a organização de Fabrício Marques e Silvana Guimarães, ao todo, são 231 poemas distribuídos em três volumes — Cave Carmen, Coram populo e Quantum satis — que revelam a sofisticação e a inventividade de uma autora elogiada por nomes como Augusto de Campos, Décio Pignatari e Sebastião Nunes. O prêmio, que tem patrocínio da Fundação Lucas Machado (Feluma), concede R$ 40 mil à autora laureada.
Para o sobrinho da poeta, Rogério Ferreira Cardoso, este é um reconhecimento histórico da obra da tia, que está hospitalizada e já com um gradual declínio da consciência, há um ano e meio. “Para ela é um reconhecimento muito importante ganhar o Prêmio Academia Mineira de Letras, embora ela não tenha procurado esse reconhecimento; ela escreveu muito e divulgou pouco. Mas, na verdade, quem mais se beneficia é o público, por conhecê-la e ter acesso a toda a sua obra”, afirma.
Organizado por Fabrício Marques e Silvana Guimarães, o trabalho de reunir a poesia dispersa da autora foi árduo. “Essa publicação reúne uma parte substancial da produção poética de Maria do Carmo Ferreira. Nela, os interessados poderão conhecer as principais linhas de força da sua poesia”, explicam os organizadores. “O conjunto de poemas era enorme, não estava organizado e exigiu um trabalho apurado. Toda a poesia dela é muito bem elaborada, inventiva e audaz. A tarefa obrigou-nos também a fazer uma revisão rigorosa, considerando o Acordo Ortográfico de 1990 e os neologismos que a autora criou em diversas línguas”, acrescentam.
Convencer a poeta a autorizar a publicação não foi simples. No posfácio de Cave Carmen, Silvana lembra: “Eu não me conformava com o verbo desistir. E insistia na publicação de seu livro, na importância que ele teria para a poesia, fazia das tripas coração para convencê-la, mas ela permanecia inflexível. Muitas vezes, desligou o telefone na minha cara, pedindo-me que não ligasse mais para falar desse ‘assunto’”. A persistência deu resultado, e agora a trilogia conquista seu primeiro prêmio — justamente em Minas Gerais, terra natal da poeta. “Recebemos a notícia com muita emoção. Ser reconhecida pelos escritores e poetas que compõem a AML é motivo de muito orgulho para nós: quem escreveu esta obra, quem a organizou e quem a editou”, celebram Fabrício e Silvana.
O Prêmio Academia Mineira de Letras acontece por indicação dos acadêmicos da AML e premia, anualmente, livros lançados por autores mineiros (ou radicados em Minas há, pelo menos, 5 anos) no ano anterior ao da premiação. O Prêmio será entregue em sessão solene, convocada pelo Presidente da AML, em outubro deste ano.
SOBRE “POESIA REUNIDA” DE MARIA DO CARMO FERREIRA
Escreve Angelo Oswaldo de Araújo dos Santos – acadêmico da AML (cadeira 3), jornalista, curador, gestor público e político brasileiro
“Recorro ao dicionário de frases latinas do velho cataguasense Arthur Vieira de Rezende para curtir os títulos dos três volumes de poesia de Maria do Carmo Ferreira, também nascida em Cataguases, designados por expressões extraídas da língua de Virgílio.
Cave Carmen, o primeiro tomo, consagra a advertência que a musa de Bizet já fazia a quem dela se aproximasse: “si je t’aime, prend garde à toi!” Cave quer dizer cuidado. “Cave canem”, conforme acha-se inscrito numa pedra resgatada das cinzas de Pompeia: cuidado com o cão. Cave Carmen: cuide-se quem vier ler Maria do Carmo Ferreira, sua poesia é a porrada de que fala Pessoa, cortante como o verso de João Cabral e luminosa como a de Sophia de Melo Breyner, desdobravelmente feminina como Adélia Prado para ser gauche como Drummond. Carmen está solta, “prend garde à toi”!
Coram populo é o nome do segundo livro. Falar coram populo, no fórum da Roma antiga, era falar alto, sem receio, diante do povo reunido. Maria do Carmo Ferreira brada, sem medo, eleva a voz, e o tom é de quem afronta, enfrenta, frente a frente, desafiando a todos e a si mesma. Mas o discurso não é linear, ele aumenta a pressão da linguagem sobre a língua, e a poesia inova e surpreende, inventa e instiga, perturba.
O terceiro intitula-se Quantum satis. Artur Rezende ensina ser “quanto bastante”, termo aplicado em fórmulas farmacêuticas. O leitor sairá dessas páginas certo de não terem sido suficientes e, alucinado, vai desejar mais, querer descobrir se ainda há poções guardadas pela autora que por tantos e tantos anos esquivou-se da publicação de uma obra que alcança um dos pontos mais altos da poesia brasileira.
Tomemos a frase inserida na saída da famosa ponte metálica sobre o rio Pomba, em Cataguases, e a ofereçamos a Maria do Carmo Ferreira ao fim da leitura desse tríptico monumental: “Revertere ad me, suscipiam te” – Volte a mim, que eu te acolherei. O leitor retornará sempre ao prazer de reencontrar a grande poesia que a autora, aos 86 anos, permitiu fosse revelada e compartilhada, na trilogia preparada por Fabrício Marques e Silvana Guimarães. Habemus poetam, gaudium magnum. Ave, Maria do Carmo!”
SOBRE MARIA DO CARMO FERREIRA
Maria do Carmo Ferreira foi a única mulher a publicar, em 1967, na mítica revista Invenção, editada pelos poetas concretos. Foi Celina, mãe de Rogério e irmã de Carminha, quem apresentou a escritora a Murilo Rubião, fundador e editor do Suplemento. Murilo logo reconheceu o talento e a ousadia formal da jovem poeta e a incentivou a buscar interlocução com o grupo de poetas concretistas de São Paulo. Redigiu-lhe uma carta de apresentação e a orientou a procurar Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari, editores da revista Invenção. Assim, em janeiro de 1967, o poema “Meretrilho” de Carminha foi publicado no número 5 da revista.
Seu nome acabou ficando mais ligado ao Suplemento Literário de Minas Gerais (SLMG), onde publicou, de 1966 — ano de lançamento do periódico — até 2002, cerca de 78 poemas. Sua estada em Illinois, nos Estados Unidos, quando fez o mestrado em Literatura Comparada, preparou-a ainda mais para o domínio da língua inglesa, revelando-a também como exímia tradutora de escritores ingleses importantes como Emily Dickinson, William Butler Yeats, além dos franceses Tristan Corbière, Stéphane Mallarmé e Jules Laforgue, e nomes do universo hispânico como García Lorca e Pablo Neruda. Em 2009, decidiu abandonar a poesia, dedicando-se a uma jornada espiritual, sob influência católica.
SOBRE OS ORGANIZADORES DA OBRA PREMIADA
Fabrício Marques nasceu em Manhuaçu (MG). É poeta e jornalista, doutor em Literatura Comparada pela UFMG (2004). Publicou quatro livros de poemas, além de, entre outros, Fuera del alcance de la memoria (antologia de poemas, edição bilíngue/espanhol-português, trad. Agustín Arrosteguy, Vallejo&Co, 2019, com apoio da FBN), e o ensaio Aço em Flor: a Poesia de Paulo Leminski (Belo Horizonte: Autêntica, 2001; 2. ed. Belo Horizonte/Campinas: UFMG/Unicamp, 2024). Dirigiu em 2004 o histórico Suplemento Literário de Minas Gerais.
Silvana Guimarães nasceu em Belo Horizonte (MG), onde vive. Escritora, é formada em Ciências Sociais pela UFMG. Foi pianista e especialista em transporte público. É editora da Germina — Revista de Literatura & Arte e do coletivo Escritoras Suicidas. Revisou e organizou incontáveis livros de poesia alheios. Participou de várias antologias poéticas nacionais e estrangeiras. O corpo inútil, no prelo, é o seu primeiro livro de poesia. Provavelmente, o único.
INFORMAÇÕES PARA IMPRENSA
Assessoria de Imprensa AML - Amanda Magalhães
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