De acordo com o levantamento, os benefícios desse modelo são evidentes. O Reino Unido teve redução de 12% nas admissões hospitalares em
2022 em comparação com 2019 — o que representa 800 mil internações a
menos —, além de queda de 21% em admissões eletivas e de 9% nas
emergenciais. Em Singapura, o programa MIC@Home, que leva o cuidado hospitalar para a casa dos pacientes, poupou 7 mil dias de leito até meados de 2023 e aumentou em 40% as teleconsultas. Já na Holanda, a iniciativa Better@Home gerou uma economia anual de 2 milhões de euros e aumentou o acesso ao cuidado remoto em 20%. Na Bélgica, um projeto-piloto para pacientes com insuficiência cardíaca reduziu as readmissões em 15% e diminuiu o tempo médio de deslocamento em regiões rurais de 45 minutos para 15 minutos.
O
conceito de descentralização consiste em organizar os serviços de saúde
para que os atendimentos ocorram no ambiente de menor complexidade
possível, de acordo com a condição clínica, deslocando parte do cuidado
para unidades básicas de saúde, ambulatórios ou até a casa do paciente. É
uma proposta que visa aliviar a pressão sobre os hospitais, melhorar o
acesso e promover uma experiência mais humana e personalizada no
tratamento.
O documento apresenta quatro pilares fundamentais para viabilizar modelos de cuidados descentralizados. São eles a políticas públicas e regulação, conectando diferentes níveis de atenção e setores; tecnologia e dados, essenciais para viabilizar o atendimento fora dos hospitais; infraestrutura, que visa estimular prevenção, cuidado domiciliar e remuneração baseada em valor e desfechos, e capacitação de profissionais e engajamento da comunidade, para fortalecer a rede de apoio ao paciente.
Oportunidade para o Brasil
A
descentralização do cuidado é especialmente relevante para o Brasil,
país de dimensões continentais, marcado por desigualdades regionais e
crescente pressão sobre os estabelecimentos de saúde e seus
financiadores. “O debate sobre descentralização é indispensável para
redesenhar o acesso à saúde no Brasil, aproveitando os avanços em
tecnologia e conectividade. Os resultados internacionais mostram que é
possível reduzir internações, melhorar a experiência dos pacientes e
otimizar recursos públicos e privados”, afirma Cintia Scala, líder de
estratégia de dados em saúde da Roche.
O
estudo destaca que o Brasil pode adaptar os aprendizados dessas
experiências para construir um modelo integrado e sustentável,
considerando suas especificidades. O país já conta experiências
importantes, como a Estratégia Saúde da Família, que atua a partir de
equipes multiprofissionais em territórios definidos, integrando médicos,
enfermeiros e agentes comunitários que conhecem de perto as demandas
das comunidades e trabalham de forma preventiva e contínua. Outro
exemplo relevante é a utilização histórica de escolas, centros
comunitários e outros espaços públicos como pontos de vacinação, o que
amplia o acesso e facilita a adesão da população às campanhas.
“Precisamos
transformar essas experiências em políticas permanentes e estruturadas,
pois são fundamentais para garantir a sustentabilidade dos sistemas de
saúde. Ao organizar o cuidado próximo da população e otimizar recursos
de forma regionalizada, essas estratégias reduzem pressões
desnecessárias sobre hospitais, reduzem internações e promovem o uso
mais racional e eficiente dos recursos públicos”, avalia José Gomes
Temporão, ex-Ministro da Saúde e pesquisador da Fiocruz.
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