“Os
contos de Lu Rodrigues partem de temas como solidão, deslocamento e o
não pertencimento para falar sobre a vida de mulheres que nunca se
adequaram.”
Quarta capa assinada pela escritora Fabiane Guimarães
-
“Mariposas não voam longe”, segundo livro da jornalista Lu Rodrigues (@lurodriguesescritora),
aborda, a partir de personagens femininas muito diferentes entre si, a
inadequação, a angústia e o não-pertencimento que as imposições
patriarcais fomentam em mulheres. Publicada pela editora Litteralux (116
págs.), a coletânea de contos conta com blurbs das escritoras Fabiane
Guimarães e Ana Holanda na quarta capa.
Composta
por quinze histórias divididas em três seções, a obra mergulha na
subjetividade de personagens que buscam romper com a angústia que as
opressões infligem em suas vidas da infância à velhice. Ao trazer esses
dramas à tona, a escritora alcança um tom coletivo e político que
aproxima o eu e o ela a um nós composto por mulheres que vivem, viveram
ou testemunharam alguém viver experiências parecidas.
A
fim de dar maior profundidade ao seu trabalho literário, a autora fez
um estudo de arquétipos femininos de deusas e, a partir disso, definiu
que o esqueleto de sua coletânea seria criado de acordo com o arquétipo
da deusa das bruxas, Hécate: “A estrutura do livro tem três partes: a
primeira parte são as donzelas, que representam a juventude, as novas
possibilidades. A segunda parte chama-se mulheres-mães, porque traz a
mulher adulta, seu poder, proteção e maturidade”, explica Lu. “E a
terceira parte são as bruxas, as mulheres mais velhas que são repletas
de sabedoria e se deparam com as questões de morte e transformação”,
completa.
“Mariposas não voam longe”
transita entre Brasil e Portugal e diferentes realidades, além de
abordar temas como a descoberta do corpo, a ancestralidade, a
maternidade e o envelhecimento. As personagens criadas por Lu Rodrigues
têm em comum uma sensação de inadequação que as lançam em buscas,
internas e/ou externas, de sentido. “São como mariposas que voam à
procura de conexão, mesmo correndo o risco de se perderem", como
ressalta trecho da sinopse.
Se
culturalmente existe uma expectativa de que a casa, a intimidade e o
corpo guardem tudo que acontece com o gênero feminino, Lu subverte isso
ao tornar essas personagens protagonistas de suas próprias histórias.
“Escrevo sobre um sistema que segrega as mulheres na sociedade, no
mercado de trabalho e nos espaços de poder. Todas sofrem, mas escrevo
também sobre as mulheres pobres, pretas e imigrantes, as que estão na
base dessa pirâmide de opressão e nunca podemos nos esquecer disso”,
reflete.
Nesse
sentido, a imigração ganha contornos importantes na obra, fazendo com
que a história dessas mulheres tracem um paralelo com a história do
Brasil e de Portugal. Mesmo as personagens que não são imigrantes se
deslocam e se sentem deslocadas perante as descobertas do mundo
patriarcal. Tanto a imigração quanto a sensação de deslocamento não
ficam contidas na dualidade de Brasil e Portugal e nas relações de poder
entre homens e mulheres, Lu Rodrigues trabalha a contradição desses
mundos e seus diversos tons de cinza ao expor o racismo de mulheres
brancas, por exemplo. Além disso, a obra reflete a busca pessoal da
autora pela ancestralidade e o desejo de compreender a própria
identidade e conhecer a história das mulheres de sua família.
Segundo
Lu, a escrita do seu livro trouxe grandes aprendizados para ela como
autora e mulher, porque a fez refletir sobre sua própria solidão na
infância e na maternidade, além de tê-la ajudado a perceber como esse
sentimento se acentuou depois que ela mudou de país. “É muito difícil a
gente se sentir parte de uma sociedade que nos exclui desde a infância
até o envelhecer. Muitas de nós iremos sentir essa solidão e talvez
buscar um espaço que faça sentido, para escapar desse voo em espiral das
mariposas, que nunca leva a lugar algum”, pondera.
Lu Rodrigues, mulher em deslocamento
Lu
Rodrigues nasceu em São Paulo e hoje mora em Lisboa, Portugal. É
escritora, jornalista e mãe do Rafael e da Clara. Trabalhou por duas
décadas em emissoras de TV brasileiras, como Rede TV!, Band e Record TV.
Em 2017, decidiu dar uma pausa no jornalismo para aprender a ser mãe e
se reencontrar na escrita. Desde então, escreve sobre maternidade,
feminismo e autocuidado nas redes sociais - e fora delas também.
Em
2023, lançou seu primeiro livro, “Maternidade com autoamor” e agora
estreia na ficção com a coletânea de contos “Mariposas não voam longe”
(Litteralux, 2025). Além de manter uma newsletter, a “Cartas da Lu”, sobre sua rotina em Lisboa, escrita e criatividade na plataforma Substack.
A
autora escreve desde a infância, tendo flertado com a poesia durante a
adolescência e visto a vida adulta chegar, com todas as suas obrigações e
expectativas, a afastando da escrita literária. Seu retorno para a
escrita literária se deu a partir da maternidade. “Veio a vontade de
escrever para traduzir meus sentimentos em palavras”, compartilha. Esse
retorno aconteceu inicialmente tendo como foco uma escrita mais
terapêutica, mas em 2020, após lançar um projeto virtual de escrita,
passou a se enxergar mais como escritora do que como jornalista.
Suas
referências artísticas são, por escolha política, femininas. Sua
estante dá destaque às obras de Elena Ferrante, Mariana Enriquez,
Dolores Reyes, Camila Sosa Villada, Clarice Lispector, Lygia Fagundes
Telles e Paulinny Tort.
“De
alguns anos pra cá, eu tomei a resolução de ler e apreciar
preferencialmente a arte de mulheres. Assim como outras escritoras,
percebi o quanto a nossa formação intelectual vem de conteúdo produzido
por homens. Também tinha vontade de conhecer mais as mulheres vivas que
estão hoje fazendo arte. Por isso, estou em meio a uma longa pesquisa de
autoras contemporâneas”, resume.
Esse interesse se reflete no próprio percurso de escrita e desenvolvimento de seu livro mais recente, “Mariposas não voam longe”.
Ele surgiu de contos produzidos na comunidade de escrita da professora e
escritora Ana Holanda, foi trabalhado junto da também escritora Nara
Vidal durante acompanhamento literário e várias das técnicas utilizadas
nos contos da obra vieram de ensinamentos de Fabiane Guimarães, outra
autora reconhecida.
Entre
seus projetos atuais e futuros destaca-se a medição de clubes do livro
para mulheres e seu início como mentora e facilitadora de oficinas de
escrita. Já sua próxima meta literária é escrever um romance.
Confira um trecho do conto “Caçadora” (pg. 55):
“O
vento trazia o cheiro do mar e fazia sua roupa esvoaçar. Aquele momento
guardava a promessa de algo novo, nada estava ali em vão. Parou na
beira da água, sentiu as ondas molhando a barra da calça. Olhou para o
horizonte em busca de respostas que pareciam tão distantes quanto a
linha entre o céu e o oceano. Sabia que seu corpo tinha guardado na pele
os vestígios do fogo. Ela precisava redescobri-lo, mas ainda não tinha
coragem de romper com o que a prendia. Até quando?, sussurrou para o
mar. Talvez o mar não tivesse a resposta, porém algo dentro dela começou
a se agitar com as ondas que se desfaziam aos seus pés.”
FICHA TÉCNICA
Livro: Mariposas não voam longe
Autora: Lu Rodrigues
Rede social da autora: @lurodriguesescritora
Site: lurodriguesescritora.com
Número de páginas: 116
ISBN: 978-65-83205-65-0
Gênero: Contos
Editora: Litteralux
Ano: 2025
Adquira o livro no site da editora: https://www.editoralitteralux.com.br/loja/mariposas-nao-voam-longe
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