BLOG ORLANDO TAMBOSI
Um governo que trata metade da população como inimigos a serem calados tem pouquíssima margem de manobra. Luciano Trigo para a Gazeta do Povo:
Começa
a se disseminar entre analistas políticos o uso da palavra
“calcificação” para descrever a situação atual do eleitorado brasileiro.
É um patamar acima (ou talvez abaixo) da polarização: em sua grande
maioria, a sociedade não está mais “apenas” raivosamente dividida; o
apego das pessoas às suas convicções é tamanho, que rigorosamente nada
do que aconteça as fará mudar de ideia.
Suas
opiniões estão enrijecidas: elas passam a pensar, julgar e agir de
forma irrefletida e automática – e a abominar qualquer forma de
contestação ou questionamento. É o fim do debate e do contraditório como
componentes essenciais da democracia.
É
também, de certa forma, a negação da política e até do bom-senso. Ora,
deveria ser natural a popularidade de um governo aumentar ou diminuir
proporcionalmente à qualidade de sua gestão e aos resultados que ele
entrega à população.
Mas,
em uma sociedade politicamente calcificada e enrijecida, a gestão e os
resultados pouco importam: só interessa reforçar a cada dia, com um
fervor religioso, a narrativa do “nós contra eles” que divide e envenena
brasileiros já há mais de 20 anos.
O
primeiro a adotar de forma sistemática a expressão “calcificação” no
Brasil foi o cientista político Felipe Nunes, dono do instituto de
pesquisa Quaest. Mas ela é americana na origem: foi cunhada por John
Sides, Chris Tausanovitch e Lynn Vareck, os três autores do livro The
bitter end: The 2020 presidential campaign and the challenge do American
democracy” (“O amargo fim – A campanha eleitoral de 2020 e o desafio à
democracia americana”), uma análise da tumultuada campanha eleitoral de
2020 nos Estados Unidos.
Mesmo se tratando de uma análise enviesada, por defender a “democracia de um lado só” (lá como aqui, democracia é só quando o meu grupo está no poder; se outro grupo vencer a eleição, a democracia estará em risco), o livro aponta para um fenômeno que afeta de modo concreto a sociedade americana (e também a brasileira), com consequências amargas para todos os cidadãos: a politização de todos os aspectos da vida cotidiana, que por sua vez reforça a divisão do eleitorado em duas torcidas que se odeiam mutuamente, a ponto de negar a humanidade daqueles que pensam de forma diferente.
No
Brasil, esse fenômeno tem relação com o longo movimento de guerra à
divergência empreendido pelo partido ora no poder. O problema é que,
confinados ao cercadinho ideológico em que vivem, os militantes
narrativos deixam de olhar para o Brasil real e acabam se acostumando a
falar sozinhos, desaprendendo a ouvir e enxergar sem o filtro da
ideologia.
Como
acham que só eles têm voz, acham também que só eles podem apontar o
dedo acusatório para os outros. Contam para isso, aliás, com o apoio da
grande mídia passa-panista e abafadora. Esse monopólio da verdade e da
fala fez com que os atuais governistas perdessem o hábito de conviver de
forma civilizada e respeitosa com a diferença – princípio rudimentar de
qualquer democracia.
A
consequência foi o surgimento de um vácuo entre os detentores do
monopólio da fala – a “classe falante”, na expressão do sociólogo
francês Pierre Bourdieu – e os brasileiros comuns, o grosso da
população, cujos valores e costumes tendem a ser muito mais
conservadores e tradicionais do que imagina a militância progressista
que prega a agenda woke e o fascismo identitário – financiada, vejam só, por megacapitalistas que a esquerda costumjava abominar.
Mas
apostar na continuidade e na radicalização desse fenômeno, como
aparentemente vem fazendo o governo, é uma estratégia arriscada, por
diferentes motivos. A começar pelo fato de que a radicalização sempre
tende a beneficiar a oposição - até porque é sempre mais fácil criticar,
atacar e destruir do que defender, governar e construir. Mas não é só
isso.
Ainda
que 90% da população sejam indiferentes à realidade e se aferrem
fanaticamente ao seu líder, seja de direita ou de esquerda, ainda restam
10% que apresentam alguma imunidade ao discurso de palanque que
transforma a política em uma disputa entre o bem e o mal, em um
prolongamento sem fim da campanha eleitoral. Quem dedica sua energia a
alimentar esse clima de terceiro turno pode ficar sem tempo para
governar e tocar o país.
Ora,
para estes 10% – empurrados para o silêncio e a apatia voluntária como
estratégia de sobrevivência em um ambiente de censura e intolerância
crescentes – gestão e resultados ainda importam. Se a situação piora,
sobretudo na economia, eles tendem a migrar rápido para o território
adversário, sem dó nem piedade.
Um
governo que, em vez de construir pontes e buscar a conciliação do país,
trata metade da população como inimigos a serem constrangidos e calados
tem pouquíssima margem de manobra. Ao abrir mão, deliberadamente, de
tentar atrair o apoio de adversários e mesmo dos indecisos – ou, pelo
menos, de buscar um convívio minimamente harmônico e civilizado – ele
estabelece para si próprio um teto de apoio perigosamente baixo, já que
dispensa o consentimento de metade dos brasileiros – metade que passa a
torcer pela sua ruína. Nada de bom pode vir daí.
Em
campanha e na oposição, apostar na beligerância raivosa pode funcionar,
porque seduz aqueles que acreditam em dias melhores. No poder e em um
contexto no qual se acumulam sinais de uma emergente crise econômica,
essa atitude pode ter o efeito contrário: deteriorar ainda mais as
condições de governabilidade e acelerar a trajetória no caminho de um
amargo fim.
Postado há 1 week ago por Orlando Tambosi


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