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A liberdade e o desejo de independência em relação ao império russo tornaram-se o elemento-chave da identidade da nação ucraniana. A geografia não vence sempre. Os heróis são os que vencem o destino. Artigo do professor Fernando Alexandre para o Observador:
A
invasão da Ucrânia pela Rússia em 24 de fevereiro de 2022 inaugurou uma
nova era. Nesse dia, o processo de aproximação da Rússia à Europa
ocidental, iniciado com a Queda do Muro de Berlim em 1989, foi
interrompido abruptamente. A Rússia voltou a comportar-se como um
império, procurando alargar as suas fronteiras através da submissão dos
países vizinhos.
A
libertação da Alemanha de Leste, da Polónia, dos países Bálticos, da
Chéquia, da Eslováquia, da Hungria, da Roménia e da Bulgária do jugo do
exército vermelho permitiu a estes países escolherem a democracia e as
economias de mercado como modelo de desenvolvimento. Escolheram também a
União Europeia como espaço privilegiado de integração económica. Para
se protegerem da ameaça secular do império russo, aqueles países
procuraram o escudo protetor da NATO. A libertação do domínio soviético e
do modelo de economia comunista resultou em elevadas taxas de
crescimento económico e numa rápida convergência do nível de vida
daqueles países para a média da UE.
A
Rússia seguiu um caminho diferente, com resultados económicos e sociais
muito menos positivos. Ao regime comunista de economia planificada
sucedeu um regime totalitário e cleptocrático, baseado no extrativismo
da enorme riqueza em recursos energéticos e minerais. A divisão da
colossal riqueza do maior país do mundo por umas escassas dezenas de
indivíduos nunca poderia resultar numa verdadeira democracia. Os
detentores do poder económico controlaram o poder político para
protegerem as suas fortunas, que não pararam de crescer nas últimas duas
décadas. Foi nesse contexto que Vladimir Putin chegou à presidência de
um dos países mais poderosos do planeta. Putin foi colocado à frente dos
destinos da Rússia por Boris Ieltsin, um líder que se encontrava em
avançado estado de degenerescência, para gerir uma cleptocracia. Para
Putin, e para os cleptocratas que o rodeiam, a Rússia pertence-lhes. Os
direitos dos cidadãos russos não existem. Os russos são meros
instrumentos numa estratégia de preservação do poder. Não é por isso
difícil acreditar que Putin persistirá nesta agressão à Ucrânia qualquer
que seja o custo em vidas humanas.
A
Alemanha e vários países da UE tornaram-se muito dependentes do
fornecimento energético da Rússia. A Alemanha e a UE esperavam que a
intensificação das relações comerciais com a Rússia, e a consequente
interdependência entre aqueles dois grandes espaços económicos,
conduzisse a uma progressiva liberalização da Rússia. Na verdade,
iludiram-se com o fornecimento barato de gás e petróleo. Também por essa
razão a Alemanha e a UE foram complacentes com a ocupação da Crimeia e
as ameaças da Rússia desde 2014.
A
relação entre a Rússia e a Europa Ocidental, em particular com a
Alemanha, foi sempre de elevada tensão, com várias guerras entre as duas
grandes potências europeias e muitas variações nas fronteiras. Por
exemplo, Konigsberg, a terra do filósofo Immanuel Kant, autor de A Paz
Perpétua, é hoje o enclave russo de Kaliningrado, situado entre a
Polónia e a Lituânia. Durante a Guerra Fria, a paz foi garantida à custa
da submissão dos países da Europa do Leste ao domínio Soviético, que aí
estacionou exércitos permanentes. O regresso da guerra às fronteiras da
Rússia com a Europa ocidental é algo que a geografia fazia prever –
ver, por exemplo, A Vingança da Geografia de Robert Kaplan. Mas a
história não é determinada apenas pela geografia. As decisões dos povos e
dos seus líderes podem vencer a geografia.
Perante a agressão russa, a Alemanha reagiu imediatamente. Olaf Scholz anunciou a entrada numa nova era – zeitenwende
– em que a Rússia se tornou uma ameaça e em que a Alemanha assumirá as
suas responsabilidades na defesa da Europa e no apoio à Ucrânia. O
chanceler alemão anunciou um investimento de 100 biliões de dólares no
equipamento das forças armadas e um novo posicionamento estratégico em
que a parceria transatlântica e a NATO são centrais. A NATO saiu também
reforçada com os pedidos de adesão da Suécia e da Finlândia, dois países
que permaneceram neutrais durante décadas. Os Estados Unidos têm sido
decisivos no fornecimento de material militar e na mobilização da
comunidade internacional.
Em
junho de 2022, o Conselho Europeu atribuiu à Ucrânia e à Moldávia o
estatuto de países candidatos à UE. Ainda que com imperfeições, a UE
continua a ser um espaço de liberdade e democracia, a que as nações
europeias desejam aderir livremente. Uma estratégia de construção de uma
comunidade internacional que a Rússia imperial não consegue perceber. O
alargamento do seu espaço de influência foi sempre alcançado pela força
e submissão dos países vizinhos.
Putin
quis mostrar que a Ucrânia não existia e contava com a passividade do
Ocidente, que ele, pasme-se, líder de uma cleptocracia, toma por uma
civilização decadente. O povo ucraniano, liderado por Vlodomir Zelenski,
mostrou que a Ucrânia existe e que não aceita ser um estado vassalo da
Rússia. Nunca é demais lembrar a resposta inspiradora e mobilizadora do
presidente Zelenski quando o presidente americano ofereceu ajuda para o
retirar do país: ‘não preciso de boleia, preciso de munições’. A
liberdade e o desejo de independência em relação ao império russo – já
demonstradas nas heroicas manifestações de 2014 na Praça Maidan –
tornaram-se o elemento-chave da identidade da nação ucraniana,
sobrepondo-se às ligações históricas e à geografia. A geografia, por
muito influente que seja, não vence sempre. Os heróis são os que vencem o
destino.
Postado há 4 days ago por Orlando Tambosi

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