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Talvez os comunistas não compreendam que uma invasão violenta, mesmo quando perpetrada por comunistas, é a forma extrema de interferência nos assuntos internos dos outros países. Artigo do professor João Carlos Espada para o Observador:
1 Dizem
os noticiários que terá lugar esta semana a visita do ditador comunista
chinês Xi Jinping ao ditador comunista russo Vladimir Putin. Vamos ver,
como se costuma dizer, em que é que esse encontro entre ditadores vai
resultar.
Mas
terá de ser referido desde já que o ditador chinês tem apregoado como
distintivo da sua política externa — por alegado contraste com a
política externa ocidental, ou do que ele designa por “anglo-saxões” — a
chamada “não interferência” nos assuntos internos dos outros países.
Gostaria de recordar tranquilamente — o que certamente não me seria
permitido fazer se estivesse a viver sob a ditadura comunista chinesa ou
sob a ditadura comunista russa — que a Rússia do sr. Putin invadiu a
Ucrânia. Talvez os comunistas não compreendam que uma invasão violenta,
mesmo quando perpetrada por comunistas, é a forma extrema de
interferência nos assuntos internos dos outros países.
2 A
visita do ditador comunista chinês à Rússia vai ocorrer na sequência do
muito badalado “acordo histórico” entre o Irão e a Arábia Saudita —
muito badaladamente promovido pelos comunistas chineses. Mas vai ocorrer
também poucos dias após o Tribunal Penal Internacional ter emitido um
mandato de detenção contra Vladimir Putin por suspeitas de crimes de
guerra associados à deportação ilegal de crianças da Ucrânia para a
Rússia.
3
Entretanto, no Ocidente, assistimos ao eclodir de mais uma crise
bancária de grandes proporções e de consequências ainda imprevisíveis.
Em
França, manifestações e greves, por vezes violentas, paralisam o país
devido à “terrível” alteração da idade de reforma — de 62 para 64 anos.
Dois partidos radicais — um à esquerda, liderado pelo sr. Mélechon,
outro à direita, liderado pela sra. Le Pen — convergem abertamente no
apoio e incentivo aos distúrbios.
Por
outro lado, nos EUA, o sr. Ron DeSantis, governador da Florida e
potencial candidato republicano às eleições presidenciais, declara
publicamente que a invasão da Ucrânia pela Rússia é um mero “conflito
territorial” que não constitui um “vital interesse nacional” da América.
4
Perante esta sucessão de ameaças ao Ocidente e de desorientação por
parte do Ocidente, vale a pena recordar dois livros recentes que
felizmente têm sido amplamente discutidos pela melhor imprensa
internacional.
Em
The Crisis of Democratic Capitalism (Allen Lane, 2023), Martin Wolf
recorda que a consolidação do capitalismo democrático no Ocidente depois
da II Guerra foi em grande parte resultado da comum percepção — ao
centro-direita e ao centro-esquerda — da ameaça comunista soviética
contra a democracia que dominou a chamada Guerra Fria. Por outras
palavras, a Guerra Fria contra o imperialismo soviético e a percepção da
ameaça de um possível final violento da democracia proporcionaram no
Ocidente um clima de responsabilidade que permitiu o fortalecimento do
capitalismo democrático — fundado numa concorrência e alternância
civilizadas entre centro-direita e centro-esquerda.
Curiosamente,
um argumento muito semelhante é apresentado por Timothy Garton Ash no
seu livro Homelands: A Personal History of Europe (The Bodley Head,
2023), que aqui referi brevemente há duas semanas. Também ele recorda a
hubris que subitamente começou a dominar o Ocidente após a queda do Muro
de Berlim: a democracia liberal do Ocidente parecia então invencível e
essa percepção triunfalista gradualmente enfraqueceu o sentido de
responsabilidade para com a defesa da democracia — quer no plano
externo, quer no plano interno.
Entre
nós, Miguel Monjardino apresenta também um argumento semelhante num
livro que também já aqui citei, e cuja publicação foi aliás anterior aos
de Wolf e Garton Ash. Em Por Onde Irá A História: O desequilíbrio do
sistema internacional e o futuro da geopolítica (Clube do Autor, 2023),
Miguel recorda que “uma das nossas ilusões desde o final da Guerra Fria
em 1989 e o colapso da União Soviética em 1991 foi acreditar que o
futuro das democracias liberais estava assegurado e que a rivalidade
entre as grandes potências era mesmo uma coisa do passado.”
5
Num artigo publicado ontem, domingo 19 de Março, no Telegraph de
Londres, Brendan Simms e Charlie Laderman (autores do livro Hitler’s
American Gamble: Pearl Harbor & the German March to Global War,
Penguin, 2021) alertam, em tom bastante sombrio, para a ameaça de uma
possível aliança entre a Rússia e a China — estabelecendo um sombrio
paralelo com a aliança entre a Alemanha nazi e o Japão em 1941. Concluem
que “uma guerra global está longe de ser inevitável. Mas só poderemos
evitá-la se fornecermos uma dissuasão credível.”
Curiosamente,
quer The Telegraph, quer o Financial Times, quer The Economist saudaram
o recente acordo de defesa entre a Austrália, o Reino Unido e os EUA, o
chamado AUKUS, como expressão de uma política de dissuasão na região do
Indo-Pacífico. Aqueles jornais saúdam também a recente aproximação
entre a França e o Reino Unido quanto à questão dos imigrantes
clandestinos no Canal da Mancha, bem como entre a União Europeia e o
Reino Unido sobre a questão do comércio com a Irlanda do Norte. Haja
esperança.
Postado há 6 days ago por Orlando Tambosi

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