MEDIÇÃO DE TERRA

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MEDIÇÃO DE TERRAS

domingo, 26 de março de 2023

Ortega é ditador, o sandinismo se exauriu e o Papa perdoou o padre Ernesto Cardenal

 



O santo que deu uma bronca no padre socialista

Em 1983, o Papa cassou as atividades litúrgicas de Cardenal

Antonio Carlos Rocha

Augusto Cesar Sandino (1893-1934) foi um nacionalista nicaraguense, e este ano comemora-se os 130 anos de seu nascimento. Lembro que na vitória da Frente Sandinista, em 1979. Ao relatar a entrada triunfal em Manágua, o então impresso Jornal do Brasil publicou que parecia uma comemoração do Flamengo, pois as bandeiras rubro-negras dos sandinistas tremulavam alegremente nas mãos do povo. 

Como bem disse o músico, escritor e poeta Chico Buarque, “foi bonita a festa, pá!”, mas vejo hoje tristes notícias vindas daquele pequeno país da América Central.

A IGREJA SE LEVANTA – Há informes dizendo que muitos clérigos católicos estão presos, outros continuam nas missas insuflando a população à desobediência civil, e algumas paróquias foram fechadas.

Vitoriosa em 1919, a Frente Sandinista governou até 1990, quando houve eleições gerais e eles perderam. O líder Daniel Ortega voltou ao cargo em 2006, tendo sido reeleito em 2011, 2016 e 2021, essa última vez com a prisão de diversos opositores, em eleições rejeitadas pela grande maioria da comunidade internacional.

O que terá acontecido? O fato é que o então democrata Daniel Ortega, ao conseguir voltar ao poder, tomou gosto pelo cargo, esqueceu sua antiga tendência democrática e está se tornando um dos piores ditadores do mundo, a ponto de cassar a cidadania dos opositores e os transformar em apátridas. Mesmo assim, o governo brasileiro continua apoiando Ortega.

NUM MAR REVOLTO – Meu mestre Buda, lá no século 6 antes de Cristo, já ensinava: “Para governar, é preciso muita paciência, como se estivesse em um mar revolto…”.  E não adianta reclamar com o oceano, podemos acrescentar.

Sei que nos países do Terceiro Mundo sempre há ingerências externas e internas, mas é preciso “porfiar com denodo pela democracia”, diria um rotariano que conheci na década de 1970.

Estas linhas que escrevo estão inspiradas no padre sandinista e poeta Ernesto Cardenal (1925-2020), que se formou em Filosofia e Letras no México, fez pós-graduação na Columbia University de Nova York e aprofundou seus estudos em Roma e Paris.

ENCONTRO COM O PAPA – Considerado um dos principais poetas latino-americanos, Cardenal era adepto da Teologia da Libertação, ficou muito famoso e recebeu vários prêmios internacionais.

Quando João Paulo II visitou Manágua em 1983, o mundo inteiro viu Cardenal ajoelhar-se ante o Sumo Pontífice publicamente, em sinal de hierarquia eclesiástica. Mesmo assim foi admoestado pelo Papa, que jamais havia sido visto publicamente de dedo em riste. João Paulo II mandou que Cardenal renunciasse ao cargo de ministro da Cultura, que já ocupava há quatro anos, e suspendeu as atividades litúrgicas dele.

Mas, ironia da História, o padre nicaraguense acabou se tornando opositor ao sandinista Daniel Ortega, por estar extrapolando seus poderes, e 35 anos depois da punição veio a ser perdoado e reabilitado pelo Papa Francisco.

O Papa Francisco recebeu no Vaticano grupo de pessoas vítimas de abusos sexuais Crédito

O Papa Francisco decidiu perdoar Cardenal

SEM COMENTÁRIOS – Em 18 de fevereiro de 2019, ao reabilitar Cardenal, que estava doente, hospitalizado em Managuá, o Vaticano não fez comentários.  

Mas dois dias depois, falando a fiéis provenientes da diocese italiana de Benevento, terra natal do Padre Pio, célebre sacerdote dotado de dons espirituais, o Papa Francisco afirmou que “aquele que ama a Igreja tem de perdoar, porque sabe que ele mesmo é pecador e precisa do perdão de Deus”.

Assim, agora vamos pedir a São João Paulo II que ajude espiritualmente a pequenina Nicarágua e seu povo. E que os governantes ora no poder dialoguem melhor com as oposições e o catolicismo, abandonando suas intenções totalitárias.

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