BLOG ORLANDO TAMBOSI
Todos esses presentinhos, pela lei, deveriam ser patrimônio do estado, e não ir para os bolsos dessas pessoas espiritualíssimas, 100% desprendidas dos bens materiais, que são Jair e Michelle. A crônica de Ruy Goiaba para a Crusoé:
Existem
palavras que você até sabe que estão em algum lugar perdido no meio do
dicionário, mas não se imagina usando em nenhum momento da sua vida,
seja falando ou escrevendo. Por exemplo, braquidactilia. Dolicocéfalo.
Licnomancia. Bufarinheiro. Absconso. Até que elas fossem resgatadas da
obscuridade para aparecer neste texto — ou seja, vão continuar obscuras
—, nunca houve uma circunstância que me obrigasse a escrever nenhuma
delas.
Mas
eis que o surrealismo da política brasileira (ou realismo fantárdigo,
como diria o deputado Tiririca) me obriga a usar o precioso verbo
MOCOZAR — o Houaiss registra “mocozear”, grafia careta que estraga
bastante a fina sintonia entre o som e o sentido. Não há outro termo: em
2021, o então ministro Bento Albuquerque e seu auxiliar Marcos Soeiro
acharam que podiam passar de boinha pela Receita Federal em Guarulhos
mocozando no fundo da mochila do assessor joias avaliadas em R$ 16
milhões. Foi um presente da monarquia absolutista da Arábia Saudita,
para quem 16 milhão deve ser dinheiro de pinga, para o ex-casal
presidencial Jair e Michelle Bolsonaro. Como mostrou o Estadão, Jair fez
várias tentativas de reaver as joias e ainda mocozou um segundo pacote
dos árabes, com relógio, abotoaduras, um “rosário islâmico” e outras
mumunhas mais.
Todos
esses presentinhos, pela lei, deveriam ser patrimônio do estado, e não
ir para os bolsos dessas pessoas espiritualíssimas, 100% desprendidas
dos bens materiais, que são Jair e Michelle. A máquina de desculpas
esfarrapadas, claro, já foi acionada: desde “o presidente não sabia” (o
que lembra muito um outro, cujo nome não vou revelar aqui, mas começa
com “Lu” e termina com “la”) até “o entendimento do TCU é recente”,
argumento usado por Flávio Bolsonaro ao tentar defender o pai. Sim,
recentíssimo: o que são sete anos — o acórdão do TCU sobre presentes aos
mandatários é de 2016 — diante da imensidão do tempo, das eras
geológicas sucessivas, de tudo que rolou desde o Big Bang?
O
caso das joias eclodiu na última sexta (3), e desde então todo mundo já
fez todas as piadas possíveis e imagináveis sobre o assunto. Os
humoristas amadores das redes sociais podiam, no entanto, variar um
pouquinho: perdi a conta de quantas vezes passou pelas minhas timelines
aquela charge com alguém perguntando “tudo joia?” e outro alguém
respondendo “não, metade é cocaína”. O mais surpreendente para mim,
considerando os usos e costumes do Bananão, foi a firmeza dos auditores
da Receita no aeroporto em garantir o cumprimento da lei. Puxa, como é
bom ter servidores públicos com autonomia, independência, estabilidade
no emprego, que não precisam se sujeitar aos caprichos do governante de
turno e fazem o que tem de ser feito. Não é?
Exceto
se esse servidor for presidente do Banco Central. Aí é um vendido aos
interesses da Faria Lima e precisa ser chicoteado todo dia, em nome do
povo (não precisa vir aqui gritar “falsa simetria!”, não. Grita aí no
seu bloco de notas).
***
A GOIABICE DA SEMANA
Muitos
bons candidatos na semana que passou, mas desta vez o troféu vai para
Aline Peixoto, a mulher de Rui Costa, ex-governador da Bahia e hoje
ministro da Casa Civil de Lula. Na última quarta (8), a Assembleia
Legislativa baiana elegeu a ex-primeira-dama do estado para uma vaga no
Tribunal de Contas dos Municípios — claramente, por sua formação em
enfermagem, e não pela coincidência de ela ser casada com um ministro e
ex-governador. Durante a sabatina a que foi submetida pelos deputados
estaduais, Aline chorou e se disse vítima de “machismo estrutural”. E a
cara de pau estrutural, terá cura algum dia?

Aline Peixoto é abraçada por sua principal qualificação para o tribunal de contas
Postado há 6 days ago por Orlando Tambosi

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