MEDIÇÃO DE TERRA

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MEDIÇÃO DE TERRAS

sexta-feira, 17 de março de 2023

Do talquei ao tudo joia

 

BLOG  ORLANDO  TAMBOSI


Todos esses presentinhos, pela lei, deveriam ser patrimônio do estado, e não ir para os bolsos dessas pessoas espiritualíssimas, 100% desprendidas dos bens materiais, que são Jair e Michelle. A crônica de Ruy Goiaba para a Crusoé:


Existem palavras que você até sabe que estão em algum lugar perdido no meio do dicionário, mas não se imagina usando em nenhum momento da sua vida, seja falando ou escrevendo. Por exemplo, braquidactilia. Dolicocéfalo. Licnomancia. Bufarinheiro. Absconso. Até que elas fossem resgatadas da obscuridade para aparecer neste texto — ou seja, vão continuar obscuras —, nunca houve uma circunstância que me obrigasse a escrever nenhuma delas.

Mas eis que o surrealismo da política brasileira (ou realismo fantárdigo, como diria o deputado Tiririca) me obriga a usar o precioso verbo MOCOZAR — o Houaiss registra “mocozear”, grafia careta que estraga bastante a fina sintonia entre o som e o sentido. Não há outro termo: em 2021, o então ministro Bento Albuquerque e seu auxiliar Marcos Soeiro acharam que podiam passar de boinha pela Receita Federal em Guarulhos mocozando no fundo da mochila do assessor joias avaliadas em R$ 16 milhões. Foi um presente da monarquia absolutista da Arábia Saudita, para quem 16 milhão deve ser dinheiro de pinga, para o ex-casal presidencial Jair e Michelle Bolsonaro. Como mostrou o Estadão, Jair fez várias tentativas de reaver as joias e ainda mocozou um segundo pacote dos árabes, com relógio, abotoaduras, um “rosário islâmico” e outras mumunhas mais.

Todos esses presentinhos, pela lei, deveriam ser patrimônio do estado, e não ir para os bolsos dessas pessoas espiritualíssimas, 100% desprendidas dos bens materiais, que são Jair e Michelle. A máquina de desculpas esfarrapadas, claro, já foi acionada: desde “o presidente não sabia” (o que lembra muito um outro, cujo nome não vou revelar aqui, mas começa com “Lu” e termina com “la”) até “o entendimento do TCU é recente”, argumento usado por Flávio Bolsonaro ao tentar defender o pai. Sim, recentíssimo: o que são sete anos — o acórdão do TCU sobre presentes aos mandatários é de 2016 — diante da imensidão do tempo, das eras geológicas sucessivas, de tudo que rolou desde o Big Bang?

O caso das joias eclodiu na última sexta (3), e desde então todo mundo já fez todas as piadas possíveis e imagináveis sobre o assunto. Os humoristas amadores das redes sociais podiam, no entanto, variar um pouquinho: perdi a conta de quantas vezes passou pelas minhas timelines aquela charge com alguém perguntando “tudo joia?” e outro alguém respondendo “não, metade é cocaína”. O mais surpreendente para mim, considerando os usos e costumes do Bananão, foi a firmeza dos auditores da Receita no aeroporto em garantir o cumprimento da lei. Puxa, como é bom ter servidores públicos com autonomia, independência, estabilidade no emprego, que não precisam se sujeitar aos caprichos do governante de turno e fazem o que tem de ser feito. Não é?

Exceto se esse servidor for presidente do Banco Central. Aí é um vendido aos interesses da Faria Lima e precisa ser chicoteado todo dia, em nome do povo (não precisa vir aqui gritar “falsa simetria!”, não. Grita aí no seu bloco de notas).

***

A GOIABICE DA SEMANA

Muitos bons candidatos na semana que passou, mas desta vez o troféu vai para Aline Peixoto, a mulher de Rui Costa, ex-governador da Bahia e hoje ministro da Casa Civil de Lula. Na última quarta (8), a Assembleia Legislativa baiana elegeu a ex-primeira-dama do estado para uma vaga no Tribunal de Contas dos Municípios — claramente, por sua formação em enfermagem, e não pela coincidência de ela ser casada com um ministro e ex-governador. Durante a sabatina a que foi submetida pelos deputados estaduais, Aline chorou e se disse vítima de “machismo estrutural”. E a cara de pau estrutural, terá cura algum dia?

Aline Peixoto é abraçada por sua principal qualificação para o tribunal de contas
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