MEDIÇÃO DE TERRA

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MEDIÇÃO DE TERRAS

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

Tratores contra laptops: novas divisões de classe em escala mundial.

 



Revolta de agricultores holandeses é um exemplo da separação da realidade de elites que querem fazer revolução ecológica sem pisar no barro. Vilma Gryzinski:


Pneus queimados, fardos de feno e esterco enfeiam as estradas de um país em que todos os espaços públicos e privados parecem cuidados por gnomos que trabalham em segredo para deixar tudo impecável a cada manhã.

Os protestos são o sinal mais visível de que a Holanda está matando, literalmente, sua galinha de ovos de ouro: a rica e produtiva agricultura que tornou o país de apenas 41 mil quilômetros quadrados o segundo ou terceiro maior exportador mundial de produtos da terra, posição que disputa com o Brasil.

O motivo já é conhecido: por pressão da União Europeia, o governo holandês, que tem um primeiro-ministro de centro-direita, Mark Rutte, quer cortar pela metade a emissão de gases que provocam o efeito estufa, produzidos especialmente pelo uso de fertilizantes químicos e dejetos do gado.

Numa reação absurda aos protestos, o governo diz que os produtores rurais têm que se adaptar ou mudar de ramo. Existe até um documento vazado mostrando os cálculos oficiais: 11.200 pecuaristas teriam que fechar a porteira e mais 17.600 precisariam reduzir a produção.

A crueldade, a falta de conexão com a realidade e até a cegueira aos próprios interesses demonstradas pelo governo holandês são um dos exemplos mais flagrantes do desprezo dedicado pelas elites dirigentes de diferentes lugares do mundo aos “sem laptop”, expressão inventada por Brendan O’Neill, da Spiked, para definir a classe mais prejudicadas por decisões “sem noção” (a definição é metafórica: os produtores rurais holandeses, como os brasileiros, são perfeitamente equipados digitalmente).

O ministro dos Transportes dos Estados Unidos, Pete Buttigieg, ganhou a “medalha de ouro do campeonato de falta de noção”, quando disse que os preços em alta da gasolina eram “bons” para incentivar os consumidores americanos a abandonar seus carrões e fazer a transição para veículos elétricos.

Detalhe: o modelo mais simples da Tesla custa 49 mil dólares. Tem um subsídio do governo, mas mesmo assim pareceu um tapa na cara dos cidadãos que estão cortando até produtos alimentícios para poder abastecer os carros dos quais dependem para ir trabalhar.

Sem contar que, obviamente, não haveria eletricidade suficiente se houvesse uma transição em massa.

Com seus 40 anos e cara de menino certinho, Buttigieg tem currículo estelar: Harvard, Oxford e bolsa Rhodes, que contempla a elite da elite da inteligência. No auge da crise de superlotação dos portos americanos, com os consequentes desarranjos na cadeia produtiva e empurrões inflacionários, ele disse que não entendia as reclamações por estar de licença depois da chegada dos filhos gêmeos que encomendou com o marido. Afinal, mesmo sem comparecer ao ministério, estava fazendo trabalho remoto.

O home office e o laptop – além da paixão ecológica que produz absurdos como gostar de gasolina cara – têm sido usados como exemplos da distorção da visão do mundo das classes privilegiadas, que puderam trabalhar em casa durante a pandemia, além de cultivar hábitos como comer legumes orgânicos, dirigir carros elétricos e enriquecer diariamente uma lista de gêneros que já passa de 78 variações.

Enquanto isso, os sem laptop – equivalente moderno dos sans culottes, os trabalhadores manuais que não usavam as calças até o joelho dos aristocratas e tocaram o terror na Revolução Francesa – levam pancada de todo lado: perderam atividades e renda, estão enforcados com a conta da luz e, como sempre, são os mais prejudicados pela praga da inflação.

Já virou um exemplo de manual o caso do Sri Lanka, o antigo Ceilão, onde as consequências da pandemia foram insanamente agravadas pela decisão do governo de transformar o país, basicamente agrícola, num caso quase instantâneo de carbono zero. A proibição do uso de fertilizantes e defensivos químicos deu no que deu: a comida ficou cara e escassa, o povo invadiu o palácio, o presidente fugiu para as Maldivas e o governo está tentando produzir algo que não faça tanto sucesso em Davos, mas não esvazie o prato de uma população com menos de metade da renda per capita do Brasil.

Também veio de “Davos”, como sinônimo do descompasso entre as elites privilegiadas e o povão que põe a mão na massa para trabalhar, outro modismo que está causando prejuízo aos que precisam escolher entre transporte e alimentação, o ESG, os tão bem intencionados princípios de gestão empresarial baseada na tríade de proteção ao meio-ambiente, preocupação social e compromisso com a boa governança.

A demonização dos combustíveis fósseis, base das medidas restritivas pelas quais o governo Biden está pagando um preço brutal agora, alimentou um fenômeno chamado de “greenflation” pela economista Seema Shah. “Foi criada uma reação em cadeia que resultou em preços mais altos dos combustíveis e, em última instância, custos maiores para os consumidores”, escreveu ela.

Energia limpa e agricultura administrada por gnomos são objetivos pelos quais vale a pena lutar. A busca pela energia próxima da perfeição está bem perto de chegar ao grande prêmio e mudar de matriz não é uma ideia absurda. É quase inacreditável lembrar que, no século 19, a iluminação de rua era alimentada por óleo de baleia, o que quase levou à extinção de nossas magníficas irmãs do mar.

Mas perder os vasos comunicantes com a realidade produz uma cadeia de absurdos e prejuízos para os menos equipados na corrida competitiva.

A propósito: grandes fundos já estão desistindo do “desinvestimento” em energia fóssil. A BlackRock, campeã do ESG, deixou de achar petróleo uma coisa tão horripilante assim.

Talvez daqui a alguns anos, os sem laptop venham a sentir os efeitos.

Por enquanto, a mentalidade progressista está entregando de bandeja assuntos que fazem a alegria da direita populista e comprando briga com quem põe comida no prato, um comportamento que beira a sociopatia.

O melhor argumento encontrado por essa turma até agora para desqualificar o protesto dos produtores rurais holandeses é dizer que eles têm o apoio de Donald Trump e Marine Le Pen. Em vez de virar autocrítica – “Por que estamos brigando com a turma do campo e dando um presente a nossos inimigos?” -, produziu uma tolice incessantemente repetida.

Depois reclamam quando Trump inventa uma expressão como “tirania climática”.
 
BLOG  ORLANDO  TAMBOSI

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