Revolta de agricultores holandeses é um exemplo da separação da realidade de elites que querem fazer revolução ecológica sem pisar no barro. Vilma Gryzinski:
Pneus
queimados, fardos de feno e esterco enfeiam as estradas de um país em
que todos os espaços públicos e privados parecem cuidados por gnomos que
trabalham em segredo para deixar tudo impecável a cada manhã.
Os protestos são o sinal mais visível de que a Holanda
está matando, literalmente, sua galinha de ovos de ouro: a rica e
produtiva agricultura que tornou o país de apenas 41 mil quilômetros
quadrados o segundo ou terceiro maior exportador mundial de produtos da
terra, posição que disputa com o Brasil.
O motivo já é conhecido: por pressão da União Europeia,
o governo holandês, que tem um primeiro-ministro de centro-direita,
Mark Rutte, quer cortar pela metade a emissão de gases que provocam o
efeito estufa, produzidos especialmente pelo uso de fertilizantes
químicos e dejetos do gado.
Numa
reação absurda aos protestos, o governo diz que os produtores rurais
têm que se adaptar ou mudar de ramo. Existe até um documento vazado
mostrando os cálculos oficiais: 11.200 pecuaristas teriam que fechar a
porteira e mais 17.600 precisariam reduzir a produção.
A
crueldade, a falta de conexão com a realidade e até a cegueira aos
próprios interesses demonstradas pelo governo holandês são um dos
exemplos mais flagrantes do desprezo dedicado pelas elites dirigentes de
diferentes lugares do mundo aos “sem laptop”, expressão inventada por
Brendan O’Neill, da Spiked, para definir a classe mais prejudicadas por
decisões “sem noção” (a definição é metafórica: os produtores rurais
holandeses, como os brasileiros, são perfeitamente equipados
digitalmente).
O
ministro dos Transportes dos Estados Unidos, Pete Buttigieg, ganhou a
“medalha de ouro do campeonato de falta de noção”, quando disse que os
preços em alta da gasolina eram “bons” para incentivar os consumidores
americanos a abandonar seus carrões e fazer a transição para veículos
elétricos.
Detalhe:
o modelo mais simples da Tesla custa 49 mil dólares. Tem um subsídio do
governo, mas mesmo assim pareceu um tapa na cara dos cidadãos que estão
cortando até produtos alimentícios para poder abastecer os carros dos
quais dependem para ir trabalhar.
Sem contar que, obviamente, não haveria eletricidade suficiente se houvesse uma transição em massa.
Com
seus 40 anos e cara de menino certinho, Buttigieg tem currículo
estelar: Harvard, Oxford e bolsa Rhodes, que contempla a elite da elite
da inteligência. No auge da crise de superlotação dos portos americanos,
com os consequentes desarranjos na cadeia produtiva e empurrões
inflacionários, ele disse que não entendia as reclamações por estar de
licença depois da chegada dos filhos gêmeos que encomendou com o marido.
Afinal, mesmo sem comparecer ao ministério, estava fazendo trabalho
remoto.
O
home office e o laptop – além da paixão ecológica que produz absurdos
como gostar de gasolina cara – têm sido usados como exemplos da
distorção da visão do mundo das classes privilegiadas, que puderam
trabalhar em casa durante a pandemia, além de cultivar hábitos como
comer legumes orgânicos, dirigir carros elétricos e enriquecer
diariamente uma lista de gêneros que já passa de 78 variações.
Enquanto
isso, os sem laptop – equivalente moderno dos sans culottes, os
trabalhadores manuais que não usavam as calças até o joelho dos
aristocratas e tocaram o terror na Revolução Francesa – levam pancada de
todo lado: perderam atividades e renda, estão enforcados com a conta da
luz e, como sempre, são os mais prejudicados pela praga da inflação.
Já
virou um exemplo de manual o caso do Sri Lanka, o antigo Ceilão, onde
as consequências da pandemia foram insanamente agravadas pela decisão do
governo de transformar o país, basicamente agrícola, num caso quase
instantâneo de carbono zero. A proibição do uso de fertilizantes e
defensivos químicos deu no que deu: a comida ficou cara e escassa, o
povo invadiu o palácio, o presidente fugiu para as Maldivas e o governo
está tentando produzir algo que não faça tanto sucesso em Davos, mas não
esvazie o prato de uma população com menos de metade da renda per
capita do Brasil.
Também
veio de “Davos”, como sinônimo do descompasso entre as elites
privilegiadas e o povão que põe a mão na massa para trabalhar, outro
modismo que está causando prejuízo aos que precisam escolher entre
transporte e alimentação, o ESG, os tão bem intencionados princípios de
gestão empresarial baseada na tríade de proteção ao meio-ambiente,
preocupação social e compromisso com a boa governança.
A
demonização dos combustíveis fósseis, base das medidas restritivas
pelas quais o governo Biden está pagando um preço brutal agora,
alimentou um fenômeno chamado de “greenflation” pela economista Seema
Shah. “Foi criada uma reação em cadeia que resultou em preços mais altos
dos combustíveis e, em última instância, custos maiores para os
consumidores”, escreveu ela.
Energia
limpa e agricultura administrada por gnomos são objetivos pelos quais
vale a pena lutar. A busca pela energia próxima da perfeição está bem
perto de chegar ao grande prêmio e mudar de matriz não é uma ideia
absurda. É quase inacreditável lembrar que, no século 19, a iluminação
de rua era alimentada por óleo de baleia, o que quase levou à extinção
de nossas magníficas irmãs do mar.
Mas
perder os vasos comunicantes com a realidade produz uma cadeia de
absurdos e prejuízos para os menos equipados na corrida competitiva.
A
propósito: grandes fundos já estão desistindo do “desinvestimento” em
energia fóssil. A BlackRock, campeã do ESG, deixou de achar petróleo uma
coisa tão horripilante assim.
Talvez daqui a alguns anos, os sem laptop venham a sentir os efeitos.
Por
enquanto, a mentalidade progressista está entregando de bandeja
assuntos que fazem a alegria da direita populista e comprando briga com
quem põe comida no prato, um comportamento que beira a sociopatia.
O
melhor argumento encontrado por essa turma até agora para desqualificar
o protesto dos produtores rurais holandeses é dizer que eles têm o
apoio de Donald Trump e Marine Le Pen. Em vez de virar autocrítica –
“Por que estamos brigando com a turma do campo e dando um presente a
nossos inimigos?” -, produziu uma tolice incessantemente repetida.
Depois reclamam quando Trump inventa uma expressão como “tirania climática”.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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