Quando se eliminam incentivos, todos empobrecem, e o igualitarismo se realiza na socialização da pobreza e da precariedade. Luciano Trigo para a Gazeta do Povo:
Existem
aspectos da vida nos quais a defesa da igualdade deve ser
incondicional: por exemplo, a defesa da igualdade de todos perante a
lei. Ou a defesa da igualdade de oportunidades de acesso a condições
dignas de existência, por meio da educação e do trabalho – condições que
devem ser garantidas, ou no mínimo permanentemente perseguidas, pelo
Estado.
O
compromisso de se empenhar para garantir essas formas de igualdade deve
ser um compromisso de Estado, não o compromisso de um governo e muito
menos o compromisso de um partido. Esse compromisso não pode depender da
orientação ideológica de quem vence uma eleição.
Mas
existem outros aspectos nos quais cada indivíduo é inevitavelmente
diferente de todos os demais – incluindo, naturalmente, os seus méritos.
O
próprio Aristóteles entendeu, lá atrás, que seres humanos não são como
formigas e abelhas, programadas, por um instinto político natural, para
se organizar em determinadas estruturas sociais repetitivas
(formigueiros e colmeias).
No
mundo real, fora do cercadinho ideológico no qual muitos escolheram
viver, mesmo pessoas criadas em condições socioeconômicas e culturais
idênticas, mesmo irmãos gêmeos que recebem rigorosamente a mesma
formação, têm visões diferentes de como o mundo funciona, fazem escolhas
de vida diferentes e sofrem as consequências, boas e más, dessas
escolhas. E é bom que seja assim.
Cada
um é livre para acreditar naquilo que quiser, mas a História demonstra
que, sempre que um Estado agigantado tenta promover a eqüidade e a
igualdade substantiva (isto é, a igualdade de resultados, não de
oportunidades); sempre que se consideram apenas as características
comuns a todos os homens e se ignoram aquelas que tornam cada homem
diferente dos demais, o resultado é um desastre.
Todas
as experiências do socialismo real do século 20 comprovam isso. "Ah,
mas isso aconteceu porque o socialismo real nunca realizou as
potencialidades do verdadeiro socialismo". Certo. Mas o mesmo pode ser
dito do capitalismo, não? Especialmente no Brasil. Ora, o debate
político não pode se estabelecer ignorando as lições da História e da
vida real, ou comparando um modelo abstrato com uma realidade concreta.
Até
porque, em sua formas abstratas ideais, todos os sistemas funcionam à
perfeição, justamente porque são... ideais. As utopias igualitárias são
perfeitas na teoria – e é por isso mesmo que se chamam utopias,
etimologicamente “nã-lugares”, lugares que não existem. Mas toda
tentativa de submeter a realidade concreta a um projeto utópico resultou
em tragédia e teve um custo incalculável em privação da liberdade,
sofrimento e vidas humanas.
Nenhuma
sociedade sobrevive tentando esmagar as diferenças entre os homens,
porque os dons e potenciais, as escolhas e ambições, as disposições e
predisposições de cada um são diferentes. Em algum momento da vida, todo
indivíduo se depara com questões como:
- Quanto estou disposto a me esforçar ou me sacrificar para atingir minhas metas?
- O que representam a felicidade e a realização pessoal para mim?
- Quanto tempo e energia estou disposto a investir para ser feliz?
Ainda
que não reflita racionalmente sobre essas questões, na prática cada um
de nós fez e faz suas escolhas, diariamente, com base em um trade-off
simbólico de custos e recompensas, e as respostas de cada um serão
diferentes. Eu tenho direito de fazer escolhas diferentes das suas:
negar esse direito é negar a própria natureza humana. Ruim é não ter
escolhas a fazer.
A
História também demonstra que nenhuma economia cresce nem se desenvolve
sem o estímulo à competição. Sem prêmios e incentivos para o esforço e o
talento não existe inovação. A economia criativa se desenvolveu ao
longo dos séculos com base na premissa de que a criação individual será
reconhecida e recompensada.
Parece
evidente que, sem inovação, não existe crescimento. Menos óbvia, no
Brasil de hoje, é a noção de que, sem o estímulo à meritocracia,
tampouco existirá crescimento. Porque mérito é, por definição, um
conceito que não se encaixa no tipo de igualitarismo que se prega hoje,
baseado na tal da eqüidade, e não na igualdade.
Sem
incentivo, sem recompensas diferentes para esforços e talentos
diferentes, ninguém sequer se levanta do sofá, porque o resultado será o
mesmo e já está garantido. Isso vale para os indivíduos e vale para as
nações.
Basta
citar como exemplo o caso das duas Coreias – um par de nações que
compartilham a mesma formação histórica, a mesma composição étnica e os
mesmos traços culturais.
A
partir de um determinado momento, em uma dessas nações adotou-se o
incentivo à competição e ao mercado como caminho para o desenvolvimento e
a prosperidade; na outra, optou-se pela economia planifificada e pela
burocracia estatal, em nome da luta pela igualdade.
Uma
fotografia recente de satélite mostra as duas Coreias à noite: a do Sul
iluminada em toda a sua extensão territorial; a do Norte literalmente
mergulhada nas trevas. A imagem dispensa legendas. Não há ideologia que
ilumine regiões onde a energia elétrica ainda não chegou.
A
conclusão objetiva, que não tem nada a ver com a superioridade moral de
uma ideologia sobre outra, mas com resultados objetivos, é que os
incentivos contam. Quando se eliminam incentivos, todos empobrecem, e o
igualitarismo se realiza na socialização da pobreza e da precariedade.
A pior treva é a treva mental na qual muitos escolhem viver.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

Nenhum comentário:
Postar um comentário