O dia em que o trabalho deixar de ser uma mercadoria do ponto de vista econômico, cada trabalhador terá perdido sua liberdade e estará sujeito às decisões puramente subjetivas e arbitrárias do ditador econômico do momento (tenha sido ele democraticamente eleito ou não). Jesús Huerta de Soto para o Instituto Mises:
É
bastante comum ouvir a afirmação, feita majoritariamente por políticos e
intelectuais, de que o "trabalho não é uma mercadoria". Não sendo uma
mercadoria, o preço do trabalho (o salário) não pode ficar ao sabor das
flutuações do mercado.
Consequentemente,
para garantir um "valor justo" para a mão-de-obra é imprescindível: a)
estipular por lei um valor mínimo para o salário; b) proibir reduções salariais
durante recessões econômicas; c) fomentar a atividade sindical, pois
apenas os sindicatos poderiam proteger os trabalhadores e impor um valor
salarial justo para a mão-de-obra.
Poucos
se atrevem a questionar essa "verdade", a qual parece ser tão evidente
que está praticamente arraigada em nossos profundos sentimentos humanos.
Ademais,
a própria história da civilização é a luta do homem contra essa tão
odiosa instituição que foi a escravidão, na qual vários seres humanos
eram comprados, utilizados e vendidos como se fossem animais. Esse nosso
lamentável histórico ajuda ainda mais a propagar a ideia de que o
trabalho humano não pode ser tratado como uma mercadoria.
Mas é uma mercadoria
No
entanto, apesar das considerações anteriores, a realidade é que os
serviços efetuados pelo trabalho humano (e não nos referimos à pessoa
humana em si mesma, a qual é indiscutivelmente inalienável) estão
submetidos às mesmas leis econômicas que valem para todas as outras
mercadorias e fatores de produção.
E
as leis econômicas afetam de forma inexorável a todos os agentes que
intervêm no mercado, independentemente de qual seja o sentimento popular
em relação às mesmas.
Em
concreto, são duas as leis econômicas mais importantes relacionadas ao
fator trabalho: a lei "da oferta e da demanda", e a lei que diz que "o
salário será determinado pelo valor presente da esperada produtividade
marginal futura do trabalho".
1ª Lei: Oferta e demanda
A primeira lei é básica, lógica e perfeitamente compreensível para qualquer leigo inteligente.
Ela
afirma que um aumento da demanda por determinados serviços efetuados
pelo trabalho humano tende a aumentar o preço destes serviços — isto é,
os salários.
Quanto mais demandada for uma mão-de-obra, maior o preço (salário) que os patrões estarão dispostos a pagar por ela.
Igualmente,
um aumento da oferta desta mão-de-obra — isto é, um aumento da
quantidade de pessoas dispostas a trabalhar no mesmo setor — gerará o
efeito oposto: fará reduzir seu preço.
2ª Lei: Paga-se hoje pela produção daquilo que só será vendido no futuro
A
segunda lei é de grande transcendência. Ela diz que o trabalhador
recebe hoje o valor integral daquilo que ele produz e que só será
vendido no futuro. Consequentemente, há um inevitável desconto no valor,
pois o valor futuro de algo é trazido ao seu valor presente.
Sempre que o valor futuro de algo é trazido ao seu valor presente, o valor presente é menor. São os juros intertemporais.
Logo,
o valor do salário é calculado no momento em que ele produz o trabalho e
não quando todo o processo de produção é completado.
Isso
é muito importante quando se considera que os processos produtivos
modernos duram um período de tempo muito prolongado. A experiência
prática mostra que são muito poucos os trabalhadores que estão dispostos
a esperar todo esse tempo para receber o valor integral do produto
final elaborado com seu trabalho, o qual só depois de muito tempo estará
pronto para ser vendido no mercado.
Os
trabalhadores que os empreendedores e capitalistas empregam hoje não
precisam esperar até que os bens sejam produzidos e realmente vendidos
para receberem seus salários. Os capitalistas e empreendedores adiantam
um bem presente (salário) aos trabalhadores em troca de receber —
somente quando o processo de produção estiver finalizado — um bem futuro
(o retorno do investimento). Existe necessariamente uma diferença de
valor entre o bem presente do qual os capitalistas e empreendedores
abrem mão (seu capital investido na forma de salários e maquinário) e o
bem futuro que eles receberão (se é que receberão).
(Com efeito, esta lei evidenciou, há mais de um século, quão absurda é a teoria marxista da exploração:
pagar ao trabalhador "hoje" o valor integral daquilo que só estará
completado em um distante "amanhã" significa pagar a este trabalhador um
valor substantivamente maior do que ele próprio produziu hoje).
Esta
segunda lei é de fácil demonstração prática: se aos trabalhadores fosse
paga uma quantidade inferior ao valor presente descontado de sua
produtividade marginal esperada, os lucros do empresário aumentariam
caso ele contratasse mais trabalhadores. Só que contratar mais
trabalhadores significa aumentar a demanda por mão-de-obra, o que gera
uma tendência de elevação dos salários.
O
contrário acontece no caso em que o salário é maior que a
produtividade: o empresário terá menos lucros e, consequentemente, irá
demitir ou deixar de contratar trabalhadores até que a produtividade
aumente ou os salários diminuam. (Porém, se houver leis trabalhistas
rígidas que proíbam reduções salariais ou encareçam demissões, este
reajuste será forçosamente feito pelo mercado, e o desemprego passará a
ser alto e perdurará indefinidamente).
Como aumentar os salários
Destas
duas leis anteriores é possível deduzir que existe um fenômeno, e
somente um fenômeno, capaz de aumentar os salários de todos os
diferentes tipos de trabalho e, por conseguinte, o padrão de vida das
pessoas: a acumulação de capital.
Quanto maior a quantidade de bens de capital utilizados por um trabalhador, maior será sua produtividade.
Se,
por exemplo, um operário norte-americano ganha quatro vezes mais que o
espanhol ou cem vezes mais que o indiano, isso não se deve ao fato de
ele ser mais trabalhador ou mesmo mais capacitado. A explicação é muito
mais simples: o norte-americano utiliza quatro ou cem vezes mais capital
investido pelo mercado (máquinas, ferramentas, instalações industriais,
meios de transporte etc.) que seu colega espanhol ou indiano,
respectivamente.
O
capital investido é o que aumenta a produtividade, os salários e,
consequentemente, o padrão de vida de uma sociedade. A acumulação de
capital, ao tornar o trabalho humano mais eficiente e produtivo, é o que
permite aumentos salariais para todos. Trabalhar menos e produzir mais é
o resultado direto da acumulação e do uso do capital.
Consequentemente,
aqueles sistemas econômicos que mais favorecem a poupança (é a poupança
o que permite os investimentos que criam bens de capital) e a
acumulação de capital são os mais benéficos para as massas. Acima de
tudo, são os mais cruciais a serem colocados em prática nos países mais
subdesenvolvidos.
Consequências de se ignorar as leis econômicas
Assim
como a lei da gravidade continua plenamente em vigor ainda que você a
considere "inaceitável" pelo fato de matar pessoas que caem de cabeça no
chão, o mesmo ocorre com as leis da economia. Não há demagogia política
ou sindical capaz de revogá-las.
Leis estipulando um salário mínimo, leis que proíbem reduções salariais e encargos sociais e trabalhistas
que encarecem o custo final da mão-de-obra podem até servir para
tranquilizar os espíritos socialmente mais "sensíveis", mas ainda assim
condenarão ao desemprego e ao desespero todos aqueles trabalhadores que,
por produzirem um valor inferior ao custo total de sua mão-de-obra
estipulado pelo governo, não conseguirão emprego.
Se
o mercado de trabalho é engessado por regulações trabalhistas e
tributos sobre a folha de pagamento — os quais encarecem sobremaneira o
preço do trabalho legal —, o governo está simplesmente fazendo com que
empreender e gerar empregos legalmente seja proibitivo em termos de
custos. Consequentemente, a mão-de-obra de qualidade mais baixa terá
dificuldades para encontrar empregos formais, pois não é produtiva ao
ponto de gerar mais receitas do que custos para seus empregadores. Seu
poder de barganha será nulo, não haverá disputa por sua mão-de-obra e
seus salários serão permanentemente baixos.
Quanto
mais regulada e burocratizada a economia, e quanto maiores os encargos
tributários sobre a folha de pagamento, menores as disponibilidades de
emprego, menor o poder de barganha dos trabalhadores, menores os
salários, maior a insatisfação, e maiores as chances de abuso.
Efeito semelhante sobre o desemprego tem as políticas sindicais que impõem aumentos de salários
por meios coercitivos (como greves). O resultado sempre é o mesmo:
alguns poucos trabalhadores, aqueles que conseguiram manter seus postos
de trabalho, saem favorecidos à custa de todos aqueles outros que acabam
sendo empurrados para a informalidade ou que ficam no desemprego.
A
falta de solidariedade entre os próprios trabalhadores não poderia ser
mais patente do que neste caso: aqueles trabalhadores privilegiados
conservam seus postos de trabalho sob condições que não ocorreriam em um
livre mercado, e à custa de todos os outros milhões de desempregados
que gostariam de trabalhar mas que não conseguem empregos porque
sindicatos e leis trabalhistas estipularam um custo mínimo extremamente alto.
Também
chama a atenção o fato de que muitos governos são obstinados em
dilapidar o capital existente no país por meio de impostos
confiscatórios (tanto da renda quanto do patrimônio), os quais são
impingidos com o intuito de "redistribuir renda", mas que logram apenas
empobrecer as massas, pois, ao reduzirem a acumulação de capital
disponível por trabalhador, causam uma redução generalizada dos salários
reais. Impossível aumentar salários ou mesmo pagar bons salários se os impostos confiscam os lucros e impedem empresas de aumentar seus bens de capital.
O lado bom de tudo
Por
fim, é crucial ressaltar que é realmente uma maravilha o fato de o
trabalho estar submetido às leis objetivas e impessoais do mercado: uma
distribuição da renda salarial que fosse baseada em outros critérios
diferentes dos do mercado seria inevitavelmente arbitrária, subjetiva e
sujeita aos caprichos de um ditador econômico.
Consequentemente,
é fácil constatar que não há melhor defesa para os direitos das
minorais marginalizadas por sua religião, raça, opção sexual etc. que a
possibilidade de poderem vender livremente no mercado produtos altamente
úteis aos consumidores — os quais, por necessitarem deles, não se
importam com a religião, raça ou opção sexual de quem participou de sua
eficiente produção.
Por
tudo isso, da próxima vez que o leitor escutar a informação de que "o
trabalho não é uma mercadoria", lembre-se de que é inútil e prejudicial
para as próprias massas trabalhadoras ignorar e lutar contra as leis da
economia. E que, no dia em que o trabalho deixar de ser uma mercadoria
do ponto de vista econômico, cada trabalhador terá perdido sua liberdade
e estará sujeito às decisões puramente subjetivas e arbitrárias do
ditador econômico do momento (tenha sido ele democraticamente eleito ou
não).
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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