A utopia do eterno progresso, com a negação humanista que lhe está associada, representa hoje um perigo imenso, numa espécie de desvario suicida que tomou conta da sociedade. Nuno Lebreiro para o Observador:
O
progressismo como ideologia, na sua essência, não pode deixar de ser
‘trans’, ou mesmo ‘anti’, humano. Desde logo, porque imagina o Homem
como um ser moldável pela corrente da História, logo transformável, o
progressista, e nem de outra forma poderia ser, anseia e suspira pelo
advento do homem novo, um ser mais evoluído, consciente, preocupado com o
planeta, a sua própria pegada ecológica, particularmente obcecado pela
inclusiva igualdade que todos, sem excepção, lhe merecem. Aqui reside a
razão pela qual o progressismo e o novo homem são duas ideias que andam
de mãos dadas: é que esse ideal humano, o tal homem novo, e como a
realidade tão bem atesta, é muito diferente do homem velho, aquele que
temos hoje, facilmente reconhecido pela sua avareza, ganância, excessiva
competitividade e genérica maldade, características, aliás, amplamente
denunciadas na hierarquia injusta e xenofóbica que o velho homem criou
para explorar os pobres, oprimidos e demais desgraçados minoritários.
Ou
seja, uma vez que o homem velho é o responsável pelo mundo em que
vivemos — terrível, desigual, fóbico e inseguro —, a crença na mudança
para um futuro mundo que transcenda essas dificuldades implica que essa
mudança também se opere ao nível do criador e responsável pelo estado de
coisas nesse, e quaisquer outros, mundos. Assim, por detrás do sonho do
novo mundo — livre, seguro, igual, harmónico e feliz — estará, desde
logo, sempre presente um novo ideal sobre aquilo que o Homem, não sendo
ainda, deverá vir a ser mais tarde. Por mais voltas que sejam dadas, de
forma mais ou menos consciente, a idealização de um novo mundo, por
definição, implica também a idealização de um novo homem.
Estas
duas ideias — que o homem pode ser transformado e que as falências e
imperfeições do mundo actual são responsabilidade das deficiências e
defeitos do actual homem, aquele que vive e faz hoje — podem, no
entanto, não estar presentes na mente de todo o progressista,
nomeadamente na sua última encarnação, a do “progressista liberal” —
muito pelo contrário. Como é apanágio dos nossos tempos, com facilidade
se anseia por uma coisa e o seu contrário. No entanto, a crença agora
orientada para a mudança, sempre vista como boa, porque nova, mesmo
quando as consequências da novidade poderão acarretar custos, sempre
escondidos, que superam os benefícios, esses, sim, sempre bem
anunciados, transporta-nos de imediato para um mundo futuro, logo ainda
por cumprir, que se imagina infinitamente melhor do que o actual, logo
também ele o corolário da evolução — hoje um termo sempre visto com uma
conotação positiva — do Homem.
Ora,
mas evolução não deixa de ser transformação, e assim se vê como mesmo o
progressista mais moderado não pode deixar de incorporar, mesmo que de
forma inconsciente, o anseio pelo propalado homem novo, mesmo que esse
anseio seja em nome de uma abstracção aberta, não finalística, ou
teológica. No entanto, ela lá está, no cabaz mental do progressista,
junto com a crença na tecnologia salvadora e no telos universal
progressista que nos faz acreditar que o tempo corre de pior para
melhor, do Mal para o Bem, do sacrifício, das agruras e dos conflitos do
passado, para a harmonia, a abundância e a recompensa que o futuro
trará.
Depois,
o progressismo, seja ele liberal ou não, é igualmente, por definição,
não-humanista porque todo o seu esforço se orienta em função de
princípios que se imaginam como sendo eles próprios transcendentes face
ao próprio Homem — à cabeça, o ideal racionalista que crê na verdade
universal revelada pela razão aos cientistas que vêm hoje em dia, pela
TV, ordenar o caos do mundo humano, incluindo o moral, de acordo com os
últimos estudos e comprovações científicas.
Aqui,
o progressismo também tem muita dificuldade em separar-se do
racionalismo, ou do cientismo — e assim teria que ser uma vez que todas
estas ideias caminham lado a lado, pois que são parentes próximos: o
racionalismo pariu as outras duas, sendo as irmãs os pilares do
optimismo que anima o homem contemporâneo na sua ânsia de transformar a
realidade rumo a um fantástico mundo novo.
Mas
também aqui o trans-humanismo é condição sine qua non para o
progressismo uma vez que todo o racionalismo mais não é do que a crença
que a condição humana primordial pode ser transcendida pela razão.
Assim, tal como para o racionalista existe uma ordem racional no mundo
que — objectiva, perpétua, universal — revela ao Homem, através da
ciência, a verdade sobre o Universo, a vida e a existência, também para o
progressista essa mesma ordem, e essa mesma revelação, garantem ao
Homem o sucesso nos seus projectos rumo ao futuro. Ou seja, o
progressista é optimista porque é racionalista e “cientista”, mesmo que
não saiba que o é, do mesmo modo como o racionalista é igualmente
“cientista”, optimista e… progressista.
Ao
mesmo tempo, a revolução tecnológica confirma as crenças e os dogmas
quer de uns quer de outros. Desde o telemóvel que, sem que se perceba
como — ou seja, de forma mágica e inexplicável, para além da lengalenga
que é “graças à ciência” — traz à palma da mão o mundo inteiro, passando
pelos meios de transporte que nos fazem literalmente voar como os
pássaros, ou as promessas de curas imediatas e milagrosas, tudo se
conjuga para demonstrar que foi a razão e a ciência — sendo hoje a
segunda a forma como evocamos a primeira — que nos ofereceu a chave do
Universo, uma chave que a seu tempo resolverá o dilema humano e as
agruras da condição existencial humana.
Mas,
mais uma vez, é também de transcendência que falamos aqui. Quer a do
Homem que transcende a sua condição, logo a si próprio, quer a do acesso
a um conhecimento que até há pouco — um pouco antes de 1789 — estava em
larga medida interdito à Humanidade, interdição a qual agora se
transcende rumo ao admirável mundo, e homem, novos. Não admira,
portanto, que na húbris motivada pelo deslumbre para com o brilho dos
novos brinquedos tecnológicos, vivendo os resultados práticos da
transcendência (tecnológica) face ao mundo, se imagine hoje em dia que
tudo possa ser tecnológica e cientificamente resolvido, desde os
conflitos do mundo até ao próprio Homem — seja pelas drogas salvadoras,
as novas técnicas nano-robóticas, a ciber-genética ou os modelos
teóricos infalíveis dos supercomputadores.
Ao
mesmo tempo, crescente e inexoravelmente, o meta-mundo digital vai
engolindo as mentes dos mais novos. Aí, livres de limites físicos, já no
reino da imaginação pura, a transcendência face à realidade humana
acelera rumo ao tal admirável futuro, uma construção que a cada dia que
passa se vislumbra mais através de óculos virtuais do que na realidade
do quotidiano — cada vez menos abundante, mais conflituoso, menos
virtuoso.
Voltando
ao início, veja-se a coisa por um lado ou veja-se pelo outro, o
trans-humanismo, um eufemismo optimista para anti-humanismo (o actual), é
uma condição essencial da crença progressista. É transformando o homem
velho que se transcende a condição humana que nos “oprime” a todos. Ou
seja, a solução para o conflito que o progressista vê no mundo passa
sempre por transcender esse mundo, nunca aceitá-lo tal qual ele é.
Transcender, superar, vencer, o mundo histórico das trevas primordiais
rumo ao éter, seja ele digital ou cósmico, armados com a força que a
crença no admirável mundo novo oferece, eis a suprema e mais moderna
forma de negar a realidade do mundo humano.
Levantados
do mundo animal, criados de poeira cósmica, os progressistas
imaginam-se agora verdadeiros deuses modernos que pairam sobre a
realidade cruel do mundo das bestas, das quais, aliás, dada a sua
superioridade face à tragédia da História, já nem se precisam alimentar,
isto enquanto vislumbram um futuro de cilício, tungsténio e carbono, as
bases materiais que sustentarão o upload rumo à imortalidade digital,
não-binária, trans-humana, perpetuamente consagrada no safe space do
ciber-espaço alimentado a moinhos de vento.
Mas
do outro lado do sonho trans-humanista está a dura realidade. Nem o
Homem historicamente se comprovou como sendo assim tão moldável, nem a
razão alguma vez mostrou ser mais do que um formalismo lógico, uma
ferramenta útil, mas vazia de soluções, ou decisões, essas sim o
verdadeiro fardo que a liberdade humana implica — liberdade equivale à
responsabilidade de decidir. E aqui reside a falsa promessa progressista
contemporânea: a de que o homem poderá guardar a sua liberdade
“libertando-se” do fardo da responsabilidade da decisão subjectiva. Ou
seja, o progressista acredita que, a seu tempo, através da tecnologia
que traz a abundância, haverá uma solução objectiva, científica, logo
transcendente, trans-humana portanto, para os conflitos da vida — e que,
em a encontrando, sendo essa solução racional, todos concordaremos que
ela é a verdadeira solução, logo boa, devendo, portanto, perante as
evidências, ser por todos aceite como tal.
No
entanto, esses sonhos progressistas, ao contrário da roupagem, são tudo
menos ideias novas, muito pelo contrário implicam um regresso ao
passado já que foram a base de todos os totalitarismos do século XX.
Onde Rousseau vislumbrou a “vontade geral” que guiaria os bons selvagens
fruto à feliz harmonia, tal como onde Kant imaginou uma “razão pura”
que traria a certeza infalível da racionalidade para refrear as
“inclinações” humanas rumo à “paz perpétua”, vislumbram agora os
progressistas-pseudo-cientistas a máquina, o computador e o algoritmo
capazes de decidir e julgar por nós, eliminando-se dessa forma o erro,
logo os conflitos, libertando-nos de nós próprios — mas essa
“libertação” não é mais do que a aniquilação daquilo que faz de nós
humanos, ou seja, da sapiência capaz de escolher em liberdade.
Na
realidade, essa “libertação” apenas ocorre a expensas da destruição
daquilo que somos, sendo precisamente aqui que a ilusão da
transcendência face àquilo que é, ou que somos, dá lugar à constatação
de que o combustível do anseio pelo trans-humanismo não passa de uma
negação desse mesmo humanismo. Daí que em nome dos mais altos princípios
se cometam sempre os mais graves crimes — e que dos mais salvíficos
projectos políticos se levem a cabo as maiores mortandades. Como sempre
no passado, o filme é o mesmo: anunciando a abundância trazem os
salvadores a pobreza, prometendo a harmonia e a paz universal semeiam a
guerra, em nome da salvação, destroem o mundo.
Sejam
os filósofos na República de Platão, sejam os computadores espaciais na
Odisseia de Kubrick, sempre que os humanos delegam a solução dos seus
conflitos em outros além de si próprios, acabam esmagados pelo burocrata
— seja ele consciente ou não —então encarregado da decisão.
Infelizmente, hoje, mesmo os liberais, aqueles que mais deveriam
proteger e valorizar a liberdade, parecem não compreender que o conflito
humano que tanto querem resolver advém do pluralismo que caracteriza o
pensamento, a vontade e a vida dos homens. E que o verdadeiro progresso
não está em negar esse pluralismo em busca de uma harmonia tão quimérica
quanto estulta, mas muito mais em aceitá-lo como a fonte da riqueza,
diversidade e criatividade humanas.
No
entanto, hoje, o progressismo ideológico infiltrou a psique
generalizada da população, bem como a dos partidos políticos, os media,
os big tech e, fruto do ESG, a grande maioria das empresas cotadas em
bolsa, tornando-se regra, ou narrativa, dogmaticamente inquestionável —
agora, até mesmo os liberais desfilam em conjunto com os amanhãs que
cantam, são coniventes com a formatação dos indivíduos face ao ensino
estatal e permitem-se a imaginar os seus princípios como os únicos que
são racional e cientificamente correctos.
A
utopia do eterno progresso, com a negação humanista que lhe está
associada, representa hoje um perigo imenso, numa espécie de desvario
suicida que tomou conta da sociedade. Desde logo, pela forma como,
deslumbrados pelo seu próprio umbigo, para gáudio da multidão, se deitam
hoje borda fora as instituições, os princípios e os valores que, fruto
de séculos de maturação, criaram este nosso mundo contemporâneo que os
nosso pais e avós nos deixaram — um mundo tão abundante, rico, pacífico e
seguro que dificilmente se compreende outra razão além da loucura para a
necessidade ingrata de tantos em repudiá-lo em nome de uma mão cheia de
sonhos que, na sua essência, acarretam invariavelmente a negação da
nossa própria humanidade.
Mas
também aqui não há novidade. Afinal, a ingratidão será sempre o
combustível dos ignorantes que, tudo tendo, tudo deitam a perder.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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