A combinação entre liberalismo econômico e progressismo social quase não tem representação no Congresso e, ao que parece, tampouco no eleitorado. Fernando Dantas para o Estadão:
Nas
últimas semanas, o “zum-zum-zum” era sobre uma possível reação mais
significativa de Bolsonaro. Essa sensação se baseava em algumas
pesquisas estaduais, supostos “trackings” eleitorais e na entrada em
vigor do enorme pacote de bondades eleitoreiras do atual presidente:
quedas no preço dos combustíveis (neste caso, com ajuda da cotação
internacional também), e primeiros pagamentos do Auxílio Brasil e do
Vale-Gás com valor ampliado.
A
confirmação de que o favoritismo de Lula prossegue – mesmo que não com
margens tão amplas como já chegou a ter –, portanto, é indubitavelmente a
notícia principal trazida pelo Ipec.
Mas
existe também outra confirmação secundária, mas muito relevante, da
pesquisa: até agora – e já não há muito tempo para mudar este fato – a
chamada “terceira via” continua morta.
A
candidata Simone Tebet, do PMDB, que por suas características e
propostas encarna o nicho político-eleitoral representado no passado
pelas candidaturas tucanas, tem apenas 2% das intenções de voto.
Ciro Gomes, mesmo com todo o seu carisma pessoal, bagagem política e apelo populista, registrou somente 6%.
A
implosão do espaço político ocupado competitivamente pelo PSDB na
maioria das eleições desde a redemocratização é uma das mudanças mais
importantes na paisagem política brasileira de uns anos para cá.
O
fenômeno já estava presente em 2018, quando Alckmin obteve apenas 4,76%
dos votos no primeiro turno. Marina Silva, com posicionamento similar,
teve mísero 1%.
É
bom recordar que, no primeiro turno de 2006, Alckmin obteve 41,64% dos
votos, e, nos primeiros turnos de 2010 e 2104, Marina teve cerca de 20%
(e em 2014 chegou a 34% das intenções de voto em pesquisa do Datafolha
do final de agosto).
São,
portanto, pesos pesados da política presidencial pós-redemocratização
que desidrataram até a insignificância. Alckmin retornou agora aos
holofotes como vice de Lula, o que em nada significa que tenha
recuperado competitividade para encabeçar uma chapa como candidato a
presidente.
É
difícil determinar se o desaparecimento do polo tucano (ou próximo
dele, como no caso de Marina) na disputa presidencial no Brasil é
consequência de uma característica latente que em dado momento se
manifestou, ou se de fato corresponde a uma mudança ideológica do
eleitorado.
Na
primeira hipótese, os tucanos protagonizaram disputas pelo Executivo
Federal entre 1994 e 2014 como substitutos para uma direita mais
explícita que já existia nos anseios do eleitorado, mas não como
candidatura presidencial viável.
Nessa
linha, a maioria dos que votaram no PSDB para a presidência nessas duas
décadas o fez para se opor à esquerda petista (em 1994, claro, o Plano
Real contou mais), e não por uma particular identificação com o ideário
tucano. Antes do Real, o direitista Collor representou o mesmo campo
antiesquerda em 1989.
A
segunda hipótese – geralmente a mais aceita – é de que houve uma
mudança fundamental na vida política brasileira na última década, cujo
marco inaugural teriam sido as manifestações de 2013.
A
partir daí ressurgiu uma direita sem vergonha de se declarar como tal, o
país ingressou numa era de polarização extrema entre petistas e
antipetistas, e desse caldo nasceu e chegou ao poder o bolsonarismo.
A verdade, claro, pode ser uma combinação dessas duas hipóteses.
Mas
é relevante notar que, embora usualmente menos considerada, a hipótese
de que a fraqueza do centro “social-liberal” no Brasil é mais latente e
estrutural encontra respaldo na forte associação no Congresso Nacional
entre liberalismo econômico e conservadorismo em valores (posição
tipicamente de direita); e entre intervencionismo na economia e
progressismo em valores, combinação tradicional de esquerda.
Trabalho
acadêmico dos cientistas políticos Cesar Zucco (Ebape-FGV) e Timothy
Power (Oxford), no contexto de diversas rodadas de mapeamento ideológico
do Congresso Nacional desde 1990, indicava que dois grandes partidos de
centro-direita de centro-esquerda dariam conta de representar a grande
maioria dos parlamentares brasileiros.
A
palavra “centro”, nas duas correntes mencionadas na última frase,
indica moderação. Não se trata, no caso da centro-esquerda, do tipo de
social-liberalismo preferido pela elite bem pensante.
Em
outras palavras, a combinação de liberalismo econômico e progressismo
em valores, que caracteriza uma candidatura como a de Tebet, é muito
pouco representativa entre os parlamentares.
O
trabalho de Zucco e Power se limitou aos políticos, mas uma inferência
possível é que esse desenho ideológico do Congresso reflete em boa parte
o eleitorado. O apoio a uma agenda que combine política econômica
liberal com valores progressistas, embora amplamente defendido na porção
mais iluminista do establishment, parece ser muito mais rarefeito
quando se leva em conta o eleitorado.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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