MEDIÇÃO DE TERRA

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MEDIÇÃO DE TERRAS

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

Por que a terceira via não decolou?

 



A combinação entre liberalismo econômico e progressismo social quase não tem representação no Congresso e, ao que parece, tampouco no eleitorado. Fernando Dantas para o Estadão:


Nas últimas semanas, o “zum-zum-zum” era sobre uma possível reação mais significativa de Bolsonaro. Essa sensação se baseava em algumas pesquisas estaduais, supostos “trackings” eleitorais e na entrada em vigor do enorme pacote de bondades eleitoreiras do atual presidente: quedas no preço dos combustíveis (neste caso, com ajuda da cotação internacional também), e primeiros pagamentos do Auxílio Brasil e do Vale-Gás com valor ampliado.

A confirmação de que o favoritismo de Lula prossegue – mesmo que não com margens tão amplas como já chegou a ter –, portanto, é indubitavelmente a notícia principal trazida pelo Ipec.

Mas existe também outra confirmação secundária, mas muito relevante, da pesquisa: até agora – e já não há muito tempo para mudar este fato – a chamada “terceira via” continua morta.

A candidata Simone Tebet, do PMDB, que por suas características e propostas encarna o nicho político-eleitoral representado no passado pelas candidaturas tucanas, tem apenas 2% das intenções de voto.

Ciro Gomes, mesmo com todo o seu carisma pessoal, bagagem política e apelo populista, registrou somente 6%.

A implosão do espaço político ocupado competitivamente pelo PSDB na maioria das eleições desde a redemocratização é uma das mudanças mais importantes na paisagem política brasileira de uns anos para cá.

O fenômeno já estava presente em 2018, quando Alckmin obteve apenas 4,76% dos votos no primeiro turno. Marina Silva, com posicionamento similar, teve mísero 1%.

É bom recordar que, no primeiro turno de 2006, Alckmin obteve 41,64% dos votos, e, nos primeiros turnos de 2010 e 2104, Marina teve cerca de 20% (e em 2014 chegou a 34% das intenções de voto em pesquisa do Datafolha do final de agosto).

São, portanto, pesos pesados da política presidencial pós-redemocratização que desidrataram até a insignificância. Alckmin retornou agora aos holofotes como vice de Lula, o que em nada significa que tenha recuperado competitividade para encabeçar uma chapa como candidato a presidente.

É difícil determinar se o desaparecimento do polo tucano (ou próximo dele, como no caso de Marina) na disputa presidencial no Brasil é consequência de uma característica latente que em dado momento se manifestou, ou se de fato corresponde a uma mudança ideológica do eleitorado.

Na primeira hipótese, os tucanos protagonizaram disputas pelo Executivo Federal entre 1994 e 2014 como substitutos para uma direita mais explícita que já existia nos anseios do eleitorado, mas não como candidatura presidencial viável.

Nessa linha, a maioria dos que votaram no PSDB para a presidência nessas duas décadas o fez para se opor à esquerda petista (em 1994, claro, o Plano Real contou mais), e não por uma particular identificação com o ideário tucano. Antes do Real, o direitista Collor representou o mesmo campo antiesquerda em 1989.

A segunda hipótese – geralmente a mais aceita – é de que houve uma mudança fundamental na vida política brasileira na última década, cujo marco inaugural teriam sido as manifestações de 2013.

A partir daí ressurgiu uma direita sem vergonha de se declarar como tal, o país ingressou numa era de polarização extrema entre petistas e antipetistas, e desse caldo nasceu e chegou ao poder o bolsonarismo.

A verdade, claro, pode ser uma combinação dessas duas hipóteses.

Mas é relevante notar que, embora usualmente menos considerada, a hipótese de que a fraqueza do centro “social-liberal” no Brasil é mais latente e estrutural encontra respaldo na forte associação no Congresso Nacional entre liberalismo econômico e conservadorismo em valores (posição tipicamente de direita); e entre intervencionismo na economia e progressismo em valores, combinação tradicional de esquerda.

Trabalho acadêmico dos cientistas políticos Cesar Zucco (Ebape-FGV) e Timothy Power (Oxford), no contexto de diversas rodadas de mapeamento ideológico do Congresso Nacional desde 1990, indicava que dois grandes partidos de centro-direita de centro-esquerda dariam conta de representar a grande maioria dos parlamentares brasileiros.

A palavra “centro”, nas duas correntes mencionadas na última frase, indica moderação. Não se trata, no caso da centro-esquerda, do tipo de social-liberalismo preferido pela elite bem pensante.

Em outras palavras, a combinação de liberalismo econômico e progressismo em valores, que caracteriza uma candidatura como a de Tebet, é muito pouco representativa entre os parlamentares.

O trabalho de Zucco e Power se limitou aos políticos, mas uma inferência possível é que esse desenho ideológico do Congresso reflete em boa parte o eleitorado. O apoio a uma agenda que combine política econômica liberal com valores progressistas, embora amplamente defendido na porção mais iluminista do establishment, parece ser muito mais rarefeito quando se leva em conta o eleitorado.
 
BLOG  ORLANDO  TAMBOSI

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