"Fome vermelha", de Anne Applebaum, não só é um relato rigoroso e detalhado da fome que assolou a Ucrânia em 1932-33, como ajuda a compreender a tragédia que, 90 anos depois, se abateu sobre o país. José Carlos Fernandes para o Observador:
“No
comboio, um comunista negou que existisse fome. Atirei uma côdea de pão
do meu fornecimento pessoal para uma escarradeira. Um camponês que
viajava na mesma carruagem foi buscá-la e devorou-a vorazmente. Atirei
uma casca de laranja para a escarradeira e o camponês voltou a ir
buscá-la e devorá-la. O comunista calou-se”.
Este
episódio cruel e sórdido teve lugar na Ucrânia em 1933 e foi narrado
por Gareth Jones, um galês que fora assessor do deputado (e
ex-primeiro-ministro britânico) George Lloyd e que ganhava então a vida
como jornalista freelancer especializado em política internacional e, em
particular, na URSS. Jones desfrutava de várias vantagens sobre os
correspondentes da imprensa ocidental em Moscovo: possuía um bom domínio
da língua russa e, recorrendo às suas influências nas esferas
políticas, obtivera um visto que lhe conferia liberdade de movimentos,
enquanto os seus colegas não só tinham os movimentos fortemente
cerceados pelas autoridades soviéticas como sabiam que se escrevessem
artigos francamente desfavoráveis ao regime seriam expulsos do país e
perderiam o seu ganha-pão.
Jones
foi, assim, o único jornalista ocidental a andar livremente pela
Ucrânia em 1932-33 e um dos poucos a noticiar os horrores da fome que
assolou a região, mas, devido a circunstâncias que se detalharão
adiante, foi rotulado de mentiroso e as suas revelações não produziram
qualquer reação na política dos países ocidentais em relação à URSS. A
supressão ou menorização das revelações feitas por Jones foi um episódio
menor quando comparado com o vasto esforço empreendido por Estaline
para apagar um dos mais negros momentos da história da URSS, uma
reescrita radical da realidade que não só se estendeu até ao colapso da
URSS, em 1991, como é prosseguida hoje, na Rússia e no Ocidente –
Portugal incluído –, pelos herdeiros espirituais do regime soviético.

Mapa
da fome na URSS em 1933, com a incidência a ser tanto maior quanto mais
escuro for o tom. O mapa fazia parte do panfleto “Famine in the USSR”
(1933), da autoria de “A. Markoff”, ou seja Abraham Markoff, um
proeminente dirigente comunista americano nascido na Rússia
Se
já no início dos anos 30 circulava informação suficiente para se
conhecer a realidade e motivação da fome de 1932-33, as provas foram
acumulando-se com o passar do tempo e tornaram-se ainda mais abundantes e
evidentes quando a URSS se desmoronou e a Ucrânia ganhou independência e
passou a empregar o termo Holodomor para designar aquilo que os
ucranianos interpretam como uma campanha de genocídio e sovietização do
seu país. Mas, tal como a quantidade e irrefutabilidade das provas do
Holocausto não impede que a extrema-direita anti-semita negue ou
minimize este tenebroso episódio (“um detalhe da história”, na memorável
expressão de Jean-Marie Le Pen), também não parece que existam provas
capazes de convencer os nacionalistas conservadores da Rússia e os
comunistas do Ocidente (dois “parceiros de cama” improváveis) de que o
Holodomor fez milhões de vítimas e não foi uma catástrofe natural, foi
planeado e executado pelo Estado soviético e teve como principal alvo a
Ucrânia.
Assim
sendo, é possível que a leitura de “Red famine: Stalin’s war on
Ukraine” (2017), de Anne Applebaum, não baste para dissolver as crostas e
os óxidos que toldam o entendimento dos negacionistas do Holodomor.
Porém, a quem preserve algum discernimento e livre arbítrio, o livro de
Applebaum, que agora surge em versão portuguesa pela mão da Bertrand e
em tradução de Joaquim Gafeira, com o título “Fome vermelha: A guerra de
Estaline contra a Ucrânia”, será uma demonstração cabal da monstruosa
realidade do Holodomor e um precioso complemento a duas outras obras
indispensáveis sobre a infortunada história da Ucrânia e países vizinhos
na primeira metade do século XX: “Terra sangrenta: A Europa entre
Hitler e Estaline” e “Terra negra: O Holocausto como história e aviso”,
ambas de Timothy Snyder.

Anne
Applebaum (n.1964) é uma historiadora americana nascida numa família de
judeus polacos, é uma profunda conhecedora da história da URSS e da
Europa pós-comunista e tem no curriculum duas obras magnas sobre estas
matérias, “Gulag: Uma história” (Bertrand) e “A Cortina de Ferro: O fim
da Europa de Leste” (Civilização). “Fome vermelha” segue o padrão de
excelência das obras anteriores: pesquisa exaustiva em arquivos russos e
ucranianos, confrontação de múltiplos testemunhos e fontes,
enquadramento histórico pertinente, clareza de exposição e um
informativo conjunto de mapas com informação estatística fazem deste
livro uma obra de referência, que ganha significado acrescido em 2022,
com a Ucrânia novamente a ser alvo do ataque do Kremlin.
Nota:
Uma vez que a URSS só foi criada formalmente a 30 de dezembro de 1922, o
estado bolchevique que a precedeu e existiu entre a Revolução de 1917 e
1922 será designado neste texto como Rússia Soviética.
“Uma nação de camponeses”
Para
compreender quer a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 quer a fome
imposta à Ucrânia em 1932-33 por Estaline, é preciso recuar no tempo.
Durante
séculos, quer os russos quer os polacos, embora reconhecessem as
diferenças que os separavam dos ucranianos, “procuraram, por vezes,
minar ou negar a existência de uma nação ucraniana” (Applebaum). O
literato e ideólogo do nacionalismo russo Vissarion Belinsky (1811-1848)
entendia que “a história da Pequena Rússia [o nome dado à Ucrânia pelos
russos] é como um afluente que entra no rio principal da história russa
[…] Os pequenos russos sempre foram uma tribo, nunca um povo e menos
ainda um Estado”, palavras que têm eco no discurso de Putin a 21 de
Fevereiro de 2022, que serviu de legitimação à invasão que foi lançada
três dias depois (ver De Kharkiv a Mariupol: Como foram formadas as cidades que contam a história da Ucrânia).
A
convulsão em que a Rússia entrou após a Revolução de Outubro de 1917 e o
avanço das tropas alemãs em território russo deram ensejo, em janeiro
de 1918, a que a República Ucraniana proclamasse a independência, que
foi reconhecida não só pelas principais potências europeias como pela
própria Rússia Soviética.

O Governo da efémera República Popular da Ucrânia (ou República Nacional da Ucrânia), em 1920
Porém,
o novo governo bolchevique não tardou a reverter tal decisão: “o desdém
pela ideia de um Estado ucraniano sempre fizera parte do pensamento
bolchevique”, uma vez que os líderes bolcheviques tinham absorvido a
conceção imperial russa e “assimilado na escola, na imprensa e na vida
quotidiana os preconceitos russos contra a língua ucraniana, descrita
como um dialeto do russo, e partilhavam da visão geral de que os
habitantes daquela região não passavam de antigos servos primitivos”
(Applebaum). Esta posição era partilhada “por todos os partidos
políticos russos da época”, mas “os bolcheviques tinham motivos
políticos específicos para não gostar da ideia da independência da
Ucrânia. A Ucrânia era maioritariamente uma nação de camponeses e,
segundo a teoria marxista […] o campesinato era, na melhor das
hipóteses, uma mais-valia ambivalente”, pois não possuíam “consciência
de classe” e “não podem representar-se a si próprios; têm de ser
representados” (Karl Marx). Lenin também desconfiava do empenho dos
camponeses em aderir “às fileiras dos combatentes pelo socialismo” –
como escreve Applebaum, “a noção de que os pequenos proprietários, mais
tarde designados por kulaks, eram fundamentalmente uma força capitalista
contra-revolucionária viria, alguns anos mais tarde, a ter pesadas
consequências”.
Entretanto,
também os polacos olhavam com cobiça e saudade para aquele vasto
território, que, durante três séculos, estivera sob a alçada da
Comunidade Polaco-Lituana (ver Europa desaparecida: Há países que não vêm nos mapas), e a recém-formada República Polaca aproveitou o caos gerado pela Guerra Civil Russa para tentar deitar mão à Ucrânia.

Symon
Petliura (a direita), presidente da República Popular da Ucrânia e
comandante supremo das forças armadas ucranianas, e o general polaco
Antoni Listowski (à esquerda), fotografados em 1920, numa altura em que
as forças ucranianas e polacas se tinham aliado para fazer frente ao
Exército Vermelho
Após
muitos avanços e recuos, golpes de estado e reviravoltas rocambolescas,
a Rússia Soviética conseguiu remeter a Polónia para as fronteiras
definidas pelo Tratado de Versailles (que, há que realçá-lo, incluíam
parte do que é o hoje o ocidente da Ucrânia) e sufocar as veleidades
independentistas dos ucranianos. Mas vale a pena destacar que, em 1918,
enquanto ucranianos, bolcheviques, russos brancos e polacos se
digladiavam pelo controlo da Ucrânia, a Rússia bolchevique, numa lógica
de “dividir para reinar”, fomentou a criação de repúblicas soviéticas
“independentes” no território ucraniano – como a Rússia de Putin viria,
quase um século depois, a fazer no Donbas.

A fome soviética de 1921: Saratov, 1921
A primeira grande fome
Durante
a Guerra Civil de 1918-1923, com o antigo Império Russo a ferro e fogo e
muitas colheitas a serem destruídas ou a nem sequer serem plantadas,
fazendo com que a população e o exército passassem por privações, o
interesse dos bolcheviques na Ucrânia tinha uma motivação que ia para lá
da geopolítica: usar a abundante produção cerealífera da região para
alimentar a Rússia Soviética, ou, nas palavras de um líder bolchevique,
“o objetivo era explorar [a Ucrânia] ao máximo para aliviar a crise [no
resto da Rússia]”. O chamado “Comunismo de Guerra” “era sinónimo de
militarização de todas as relações económicas” e traduziu-se, a partir
de 1919, com a reconquista da Ucrânia pelo Exército Vermelho, na
requisição maciça e coerciva de cereais aos camponeses ucranianos. Ao
mesmo tempo, nas cidades, os bolcheviques “seguiram uma vez mais o
precedente estabelecido pelos czares: ilegalizaram os jornais
ucranianos, baniram o uso da língua ucraniana nas escolas e encerraram
os teatros ucranianos” e havia mesmo soldados que, como relatou uma
testemunha, “disparavam sobre quem, em Kyiv, falasse ucraniano ou se
considerasse ucraniano”.
Nos
artigos e comentários que têm sido suscitados pela invasão russa de
2022, há quem alerte para o facto de a agressão russa não ter começado
agora mas em 2014, com a invasão e anexação da Crimeia – na verdade, a
pulsão russa para suprimir a identidade ucraniana vem do tempo dos
czares e foi, desde o primeiro momento, uma prioridade do regime
bolchevique.
Outra
das prioridades foi a coletivização da agricultura, mas, ao contrário
do que passara entre os camponeses russos, que possuíam uma tradição
agrícola comunal e não ofereceram resistência a este processo, “a
maioria [dos camponeses ucranianos] eram agricultores individuais,
proprietários ou empregados dos proprietários, que detinham as terras
que trabalhavam, as suas casas e o gado”, pelo que as 550 quintas
estatais coletivas na Ucrânia atraíram poucos interessados e
revelaram-se um fracasso – “quase todas foram dissolvidas pouco depois”
(Applebaum).
A
fim de enfraquecer a resistência dos camponeses ucranianos à requisição
de cereais, os bolcheviques definiram três categorias de camponeses:
pobres (bednyak), de rendimento médio (serednyak) e ricos (kulak).

Categorias
de camponeses, segundo a revista soviética Prozhektor (Projector), de
31 de Maio de 1926: de cima para baixo, bednyak, serednyak e ricos kulak
A
distinção era artificial, já que as categorias tinham contornos
imprecisos e eram fluidas (consoante o sucesso de cada um num dado ano
agrícola), e estava ao serviço da tática de “dividir para reinar”,
convertendo os “ricos” em bodes expiatórios e usando os “pobres” como
arma contra “os ricos”, através da criação dos “comités de camponeses
pobres”, isto é, os “menos afortunados, menos produtivos e mais
oportunistas”, cuja missão era descobrir e confiscar os excedentes de
cereais dos “ricos” e entregá-los aos soldados e funcionários
bolcheviques. A determinação dos bolcheviques em extorquir cereais à
Ucrânia para alimentar todo o país está bem patente na proposta de
Lenine de “tomar reféns para forçar os camponeses a entregarem os seus
suprimentos” (Applebaum).

A fome soviética de 1921: Crianças em Buguruslan, Oblast de Orenburg
O
zelo implacável das autoridades bolcheviques acabou por revelar-se
contraproducente, pois levou a que os camponeses ucranianos ou se
sentissem desmotivados de produzir (para quê darem-se a tal trabalho, se
tudo o que produzissem seria apreendido?) ou tentassem desviar parte da
colheita para o mercado negro. Applebaum explica assim esta revolta:
“milhões de camponeses ucranianos tinham almejado por uma revolução
socialista, mas não por uma revolução bolchevique – e decerto não uma
dirigida a partir de Moscovo. […] Queriam votar nos seus próprios
representantes, não em comunistas. Queriam que os grandes latifundiários
fossem expropriados, mas queriam ser eles mesmos a cultivar essa terra e
não queriam voltar à ‘segunda servidão’ representada pelas quintas
coletivas”.

A
fome soviética de 1921: A fim de angariar financiamento para a campanha
internacional de auxílio alimentar à Rússia Soviética, foram publicadas
na Europa Ocidental coleções de bilhetes-postais como o que aqui se
reproduz e cujas fotos foram realizadas por Fridtjof Nansen (ver abaixo)
A
resistência dos camponeses às requisições de cereais, somadas a
condições agro-meteorológicas desfavoráveis (seca em boa parte do
território da Rússia Soviética) e ao caos generalizado decorrente da
Guerra Civil Russa (nomeadamente a nível de transportes ferroviários),
levou a uma subnutrição generalizada que terá causado cinco milhões de
mortos. Este trágico episódio, que ficou conhecido como Fome Soviética
de 1921, distinguiu-se da fome de 1932-33 em vários aspetos: afetou não
só a Ucrânia como outras partes da Rússia Soviética, foi reconhecida
pelo Governo bolchevique e este solicitou ajuda internacional para a
mitigar. O explorador e diplomata norueguês Fridtjof Nansen desempenhou
papel crucial nesse auxílio: na qualidade de representante da Cruz
Vermelha, visitou as regiões afetadas pela fome de 1921, recolheu
testemunhos orais e fotográficos da tragédia, e, no regresso à Europa
Ocidental, promoveu a angariação de fundos e coordenou a recolha e envio
de alimentos, papel que lhe valeu ser distinguido em 1922 com o Prémio
Nobel da Paz.

Fridtjof Nansen
“Pressionar, bater, apertar”
O
fiasco do Comunismo de Guerra levou a que o Governo bolchevique
adotasse um regime económico híbrido – A Nova Política Económica de
Lenin – que combinava, desastradamente, elementos de economia de mercado
e de economia planificada, mas, em 1927, perante a sua óbvia
ineficiência e uma nova escassez de cereais, Estaline decidiu tirar
partido desta crise para consolidar a sua liderança (Lenine falecera em
1924) e afastar de vez os rivais.
Os
kulak e os especuladores foram designados como bodes expiatórios e a
pressão sobre os camponeses foi incrementada, nomeadamente pela
aplicação de pesadas multas caso não fossem capazes de entregar as
quotas de cereais que lhes tinham sido atribuídas. Na novilíngua da
propaganda bolchevique, “especulador” era uma designação que podia
abranger todos os comerciantes de cereais e “um homem [que] chega a
possuir dois ou três cavalos, o mesmo número de vacas ou algumas mais,
cerca de meia dúzia de porcos e cultiva entre tonelada e meia a três
toneladas de centeio ou trigo, cai na categoria de kulak”, como
observou, com perplexidade, o jornalista americano Maurice Hindus, um
admirador do projecto soviético.
A
coletivização de 1918-19 fracassara, mas Stalin estava convencido de
que ela era “a chave para a industrialização da URSS” e, a partir de
1928, voltou a pô-la em marcha, com energia e sanha redobradas – alguns
pensadores bolcheviques até esperavam que a coletivização, ao converter
camponeses por conta própria em trabalhadores assalariados, levaria
estes a começar a pensar e agir como “proletários”.
Ao
mesmo tempo que a coletivização regressava em versão musculada, as
requisições de cereais subiram para um novo patamar de coerção – como
dizia um coletor de cereais, “O camarada Estaline deu-nos o nosso lema:
pressionar, bater, apertar”.

Baryshivka, Oblast de Kyiv, 1930: Camponeses entregam as suas quotas de cereais às autoridades
Nas
cidades da Ucrânia, outra mudança estava em curso já desde 1927: após
um breve período em que os bolcheviques tinham tentado aliciar os
nacionalistas ucranianos para a causa soviética, nomeando gente da terra
para cargos de chefia na administração regional e no Partido Comunista
Ucraniano, e a permitir o ensino da língua ucraniana e o desenvolvimento
das artes e literatura ucranianas, Moscovo concluiu que a
“ucranianização” acabaria por levar a Ucrânia a aspirar à independência
e, no limite, conduziria à desagregação da URSS, pelo que passou a
reprimir violentamente qualquer manifestação de identidade nacional
ucraniana – nas palavras de um interrogador da polícia, a prioridade era
“pôr de joelhos a intelligentsia ucraniana […] Aqueles que não fizermos
ajoelhar, abateremos a tiro”. A propaganda soviética tomou como alvos a
“contra-revolução ucraniana” e o “nacionalismo burguês ucraniano”,
gerando um clima de perseguição e ódio, em que “qualquer crítica ao
Partido Comunista ou a qualquer uma das suas políticas […] poderia ser
usada como prova de que o crítico era um nacionalista, um fascista, um
traidor, um sabotador ou um espião “ (Applebaum).
Mikhail
Kalinin (em cuja homenagem Estaline batizaria, em 1945, essa aberração
geopolítica que é o exclave de Kaliningrad) juntou a supressão da
identidade ucraniana e a ofensiva contra os camponeses que insistiam em
cultivar as suas próprias terras nesta peça de retórica: “A questão
nacional é uma questão meramente camponesa […] A melhor maneira de
eliminar a nacionalidade é uma fábrica maciça com milhares de
trabalhadores […] que como a mó de um moinho triture todas as
nacionalidades para forjar uma nova nacionalidade. Esta nacionalidade é o
proletariado universal”. Era, provavelmente, esta filosofia trituradora
que Jerónimo de Sousa tinha em mente quando, pouco depois da invasão da
Ucrânia pela Rússia, elogiou o talento que a URSS sempre evidenciara
para encontrar “notáveis soluções […] para a questão das nacionalidades e
o respeito pelos povos e suas culturas”. A verdade é que, pelo menos
para o mundo exterior, a URSS conseguiu, até 1991, dar a ilusão de ter
sublimado as identidades nacionais e criado um país homogéneo,
harmonioso e com fronteiras incontroversas, apesar de se estender por 11
fusos horários e albergar um grande variedade de etnias e línguas (ver De Kaliningrad a Petropavlovsk: A geografia da Rússia, um país que se diz “cercado” e De Minsk a Pinsk: Como foram desenhadas a história e a geografia da “Rússia Branca”).

Baryshivka, Oblast de Kyiv, 1930: Camponeses entregam as suas quotas de cereais às autoridades
A caça ao kulak
A
propaganda bolchevique contra os kulak, ao fazer de qualquer camponês
próspero e bem-sucedido um inimigo, tinha como um dos seus principais
propósitos aumentar a produção de cereais, mas teve o efeito inverso,
uma vez que aniquilou o incentivo ao esforço: para Estaline “era
impossível, inimaginável, que um Estado comunista pudesse ter grandes
latifundiários, ou mesmo agricultores ricos”. Este erro crasso na
compreensão do papel do incentivo, que é consubstancial ao comunismo,
estendeu-se a todos os domínios da vida e é, em última análise, a
explicação para o fracasso estrondoso da URSS e de todos os regimes
comunistas que foram eclodindo em diferentes tempos e geografias, como
explica Fernando Trías de Bes, em Uma história diferente do mundo: uma
vez que o comunismo remove os “incentivos individuais, as pessoas
entregavam-se à única maneira de prosperar que estava ao seu alcance: a
lealdade ao Partido” (ver Como a inveja, o medo e a ambição moldaram o
mundo).

1932:
Uma coluna de carroças (o “Comboio Vermelho”) transporta para os
armazéns estatais a primeira colheita de cereais de uma quinta coletiva
na aldeia de Oleksiyivka, na região de Kharkiv
No
contexto das novas campanhas de coletivização e requisição de cereais, o
conceito de kulak perdeu qualquer vestígio de objetividade que pudesse
ter tido e converteu-se num rótulo de conveniência: “Numa aldeia pobre,
‘abastado’ podia ser sinónimo de um homem com dois porcos em vez de um.
Aqueles de quem os vizinhos não gostavam ou de quem tinham inveja, bem
como os que tinham feito inimigos entre os governantes ou comunistas
locais podiam ser considerados ‘abastados’”. Uma quinta que contratava
regularmente trabalhadores era automaticamente considerada kulak, mas os
camponeses que não recorriam a trabalho contratado também não
escapavam: eram arrolados na categoria de podkulachniki (“agentes dos
kulak”), ou seja “camponeses pobres que estavam, de algum modo, sob a
influência de um parente, patrão, vizinho ou amigo kulak […] Outros
camponeses pobres transformavam-se em kulak só porque se recusavam a
aderir à quinta coletiva”. A definição de kulak era tão elástica que
passou também a designar “os pequenos grupos étnicos que viviam na URSS,
incluindo polacos e germânicos, ambos com uma presença marcante na
Ucrânia”.
As
forças encarregadas da “deskulakização” tinham uma forte motivação para
irem alargando a definição de kulak – as autoridades de Moscovo tinham,
arbitrariamente, determinado quotas para esta missão: “As ordens para
liquidar os kulaks eram acompanhadas por números e listas: quantos
tinham de ser eliminados, quantos enviados para os campos de
concentração […], quantos realojados noutras aldeias. Os agentes de
polícia no terreno eram responsáveis pelo cumprimento destas quotas,
quer conseguissem identificar kulaks ou não. Se não os conseguiam
encontrar, então tinham de ser inventados” (Applebaum).
Brigada passa a pente fino o pátio de uma quinta em busca de cereais e alimentos escondidos, Ucrânia, c.1930-34
O Holodomor
As
condições agro-meteorológicas na URSS em 1932 foram desfavoráveis, mas
não tanto como as que tinham gerado a fome de 1921 – o que esteve na
origem da fome generalizada na Ucrânia em 1932-33 foram sobretudo
fatores humanos. Já acima foram referidos o caos gerado, a partir de
1929, pela coletivização forçada da agricultura e pela forte oposição
que esta encontrou pela parte dos camponeses ucranianos, bem como a
remoção de incentivos ao trabalho e esforço decorrente da coletivização e
das requisições arbitrárias de cereais, mas, embora estes dois aspetos
tenham contribuído para uma forte quebra na produção de cereais, não são
suficientes, por si só, para explicar os estarrecedores números de
mortes por inanição que se registaram na Ucrânia em 1932-33. Como
escreve Applebaum, “a fome foi, isso sim, o resultado da remoção forçada
de alimentos das casas das pessoas; dos bloqueios de estradas que
impediram os camponeses de procurar trabalho ou comida; da dureza das
listas negras impostas às quintas e aldeias; das restrições à troca e ao
comércio; da campanha de propaganda cruel destinada a persuadir os
ucranianos a assistir impassivelmente à morte por inanição dos seus
vizinhos”.

Kharkiv, 1932-33
Applebaum providencia informação estatística que comprova que:
1.As
mortes diretamente atribuíveis à inanição na Ucrânia em 1929-33 foram,
segundo os estudos mais recentes e consensuais, de 3.9 milhões (as
estimativas anteriores oscilam entre 1 milhão e 10 milhões de vítimas), a
que há que somar 0.6 milhões de nascimentos perdidos;
2.A
mortalidade em excesso variou consoante as regiões da Ucrânia (atingiu
25% no distrito de Kharkiv) e foi maior nas zonas rurais do que nas
urbanas;
3.As
taxas de mortalidade em excesso na Ucrânia (13% da população) foram
muito superiores à média registada no mesmo período no território da
URSS, ainda que todo o país tenha sofrido com a escassez de alimentos;
as taxas foram de 3% na Rússia e atingiram valores comparáveis aos da
Ucrânia na região germânica do Volga (nomeadamente Saratov), em
Krasnodar, no Cáucaso do Norte e no Cazaquistão, ou seja, em regiões
que, “por coincidência”, albergavam grupos étnicos sobre cujo empenho na
construção do socialismo Estaline tinha fortes dúvidas.

Mortalidade
em excesso devido à fome em 1929-33, nas regiões ocidentais da URSS. As
fronteiras actuais da Ucrânia estão assinaladas a negro; as áreas em
branco na parte ocidental da Ucrânia não faziam, em 1932-33, parte da
URSS
A
par dos números, Applebaum apresenta um longo e variado desfile de
testemunhos que traçam um panorama tenebroso quer do sofrimento do povo
ucraniano durante o Holodomor quer da brutalidade, fanatismo e
obstinação com que este programa de morticínio em massa foi planeado e
levado a cabo. A leitura desta parte do livro requer um estômago forte,
pois os horrores, iniquidades e atrocidades são comparáveis aos que se
encontram nos relatos sobre o Holocausto.
Mentiras, manipulações e branqueamentos
Claro
que Estaline não poderia admitir, nem perante o seu próprio povo, nem
perante a comunidade internacional, que a Ucrânia tinha sido alvo de um
morticínio deliberado, portanto, os anos seguintes foram empregues na
falsificação maciça de registos, estatísticas, censos e certidões de
óbito – e a demitir, encarcerar e fazer desaparecer os estatísticos e
funcionários administrativos que estivessem na posse de informações
“inconvenientes”. A memória individual e coletiva da fome foi também
duramente reprimida – como recordou um soldado ucraniano do Exército
Vermelho que ousou mencionar o assunto perante um instrutor, a resposta
que obteve foi “Não houve nem pode haver nenhuma fome e se continuares a
falar sobre isto ficarás preso durante os próximos dez anos”.
Uma
vez que não é fácil fazer desaparecer milhões de cadáveres – como os
nazis descobririam pouco mais de uma década depois – o regime
bolchevique acabou por admitir que a fome causara alguns mortos na
Ucrânia, mas que tal se devera à atuação criminosa de sabotadores kulak e
nacionalistas ucranianos, quiçá com a colaboração de agentes do
imperialismo capitalista. Para colmatar os vazios criados nos campos
ucranianos, onde algumas aldeias tinham perdido mais de metade da
população, o Estado bolchevique transferiu para lá, logo a partir do
Outono de 1933, camponeses originários da Rússia e Bielo-Rússia, o que,
embora não fosse admitido publicamente, era mais um passo na
“russificação” da Ucrânia. São, em parte, descendentes destes “colonos”
(e de outras deslocações de populações promovidas pelo Kremlin) que hoje
engrossam os movimentos independentistas russófonos no Donbas e outros
núcleos de população russófona na Ucrânia, cuja “proteção” justifica, na
retórica de Vladimir Putin, a “operação militar especial” atualmente
em curso.
A
escala da mortandade foi tal que a notícia acabou por transpirar para
fora da URSS e alguns diplomatas e jornalistas falaram ou escreveram
sobre a fome na Ucrânia e identificaram, desde logo, que esta não tivera
causas naturais, fora infligida pelo Estado soviético – nas palavras do
cônsul italiano em Kharkiv, “a inanição resulta principalmente de uma
fome organizada com o objetivo de ensinar uma lição aos camponeses”.

Membro do Komsomol (Juventude Comunista) guarda armazém de cereais, Ucrânia, 1934
Porém,
a difusão internacional destas notícias poucos ou nenhuns resultados
práticos produziu: não houve pressões diplomáticas sobre o Governo
soviético, nem propostas de auxílio alimentar internacional (como
houvera na fome de 1921); na verdade, nem sequer se gerou uma onda de
indignação ou horror, pois as notícias foram recebidas com indiferença
ou descrédito. Tome-se o caso de Gareth Jones, mencionado na abertura
deste artigo: embora fosse o jornalista mais bem posicionado e tivesse
tido experiência direta das aldeias e quintas esvaziadas e das famílias
esfarrapadas e esqueléticas que acorriam às cidades suplicando por uma
côdea de pão, a dezena de artigos sobre o tema que publicou no London
Evening Standard, no Daily Express e no Financial News não produziram
uma onda de solidariedade com o povo ucraniano e a condenação do regime
bolchevique. Pelo contrário, os artigos de Jones foram denunciados como
fraude (“fake news”, na terminologia de hoje) pelos correspondentes
ocidentais em Moscovo, que se sentiram melindrados por Jones ter
publicado notícias sobre a URSS de que eles tinham algum conhecimento
indireto e impreciso, mas que nunca publicariam por receio de serem
expulsos do país como represália. A fraude não eram, portanto, os
artigos de Jones mas esta elite de jornalistas-sicofantas cujo modo de
vida era a retransmissão para o Ocidente do que os propagandistas do
Kremlin julgassem conveniente.
Igualmente
exemplar é a história de Fred Beal, que Applebaum não menciona. Beal,
uma figura destacada do Partido Comunista dos EUA, esteve envolvido num
célebre episódio da luta sindical (uma greve, em 1929, numa fábrica na
Carolina do Norte, que resultou na morte de um chefe de polícia) e foi
por recear ser julgado neste caso que fugiu para a URSS; aqui
testemunhou, horrorizado, a fome na Ucrânia em 1933, e quando regressou
aos EUA denunciou este crime, nomeadamente através de um artigo de 1935
no Forvarts (edição em íidiche do diário socialista The Forward). Porém,
a denúncia não só não foi levada a sério, como Beal foi acusado pelos
seus camaradas de estar a fazer propaganda anti-comunista, como
contrapartida por ter sido readmitido nos EUA sem se meter em sarilhos
judiciais.

Fred Beal (1896-1954)
Assim,
a versão dos eventos na URSS que prevaleceu no Ocidente foi a que
constava de uma manchete no New York Times, de 31 de Março de 1933: “Os
russos têm fome, mas não estão a morrer à fome”. Por esta altura, Hitler
tomava o poder na Alemanha e o militarismo japonês revelava-se cada vez
mais agressivo e ambicioso, pelo que os EUA e as outras potências
ocidentais começaram a considerar que poderiam precisar da URSS para
conter estas ameaças, pelo que a “alegada” fome na Ucrânia desapareceu
das agendas políticas.
Jones
também desaparece do livro de Applebaum após a polémica em torno dos
seus artigos sobre a fome na Ucrânia, mas é proveitoso acompanhar os
seus passos nos dois anos de vida que lhe restaram.
Tendo,
como era previsível, sido expulso da URSS e proibido de voltar a entrar
no país, Jones mudou o foco das suas investigações jornalísticas para a
China e, em particular, para a Mongólia Interior, que acabara de ser
ocupada pelo Japão e convertida no estado-fantoche de Manchukuo. Foi aí
que, em 1935, foi raptado, juntamente com um jornalista alemão, por um
dos muitos grupos de fora-da-lei que pululavam na região; mas, enquanto o
alemão foi rapidamente libertado em troco do pagamento de um resgate,
Jones foi sendo transferido de local em local e acabou por ser executado
a tiro, um dia antes de completar 30 anos e quando a libertação parecia
iminente. O assassinato foi atribuído por muitos – nomeadamente pelo
seu ex-patrão George Lloyd – à NKVD, a polícia secreta soviética. Seja
qual for a ideologia que está no poder, o Kremlin raramente perdoa a
quem revela os seus segredos, como descobriram, da pior forma possível,
os ex-agentes russos Aleksandr Litvinenko e Sergei Skripal, envenenados
com polónio (em 2006) e Novichok (em 2018), respetivamente.
Dentro
da URSS a fome ucraniana de 1932-33 ficaria esquecida durante muito
tempo e só reemergiria pontualmente e a medo, mesmo após a morte de
Estaline, em 1953, e a denúncia do stalinismo por Khrushchev no
“discurso secreto” de 1956. Vasily Grossman, natural de Berdichev, na
Ucrânia, e um dos maiores escritores e jornalistas da era soviética,
dedicar-lhe-ia o capítulo XIV de “Tudo passa”, um romance de 1961 cuja
publicação foi interditada pelo regime soviético, que, mesmo após ter
levantado, em 1956, a imposição aos escritores do “realismo socialista”
(tal como definido por Zhdanov), não podia aceitar trechos como este:
“Então percebi: o principal para o poder soviético é o plano. Cumpre o
plano! Entrega o tributo, fornece o pão! O Estado em primeiro lugar.
Quanto às pessoas, não valem nada”.

“Fome”, por Ivan Vladimirov (1870-1947)
Uma questão de nomenclatura?
O
capítulo 15, “O Holodomor na história e na memória” dá conta da
progressiva reemergência do Holodomor no espaço público ucraniano e
internacional e dos esforços soviéticos para abafar o assunto. Após a II
Guerra Mundial, o Kremlin tinha dois novos rótulos infamantes –
“fascista” e “nazi” – para colar a quem defendesse o nacionalismo
ucraniano ou criticasse o do regime soviético, tirando partido do facto
de, quando da invasão da URSS pela Alemanha, muitos ucranianos terem,
ingenuamente, acolhido os alemães como libertadores e até terem lutado a
seu lado, antes de se darem conta de que os planos nazis para a Ucrânia
eram ainda mais sinistros do que os planos de Estaline. A partir da II
Guerra Mundial, para a propaganda comunista, “qualquer referência à fome
era ‘propaganda hitleriana’” (Applebaum).
Foi
preciso muito tempo e persistência para que o embuste soviético fosse
sendo erodido, até porque no Ocidente nunca faltaram simpatizantes da
URSS dispostos a defender acirradamente que a fome na Ucrânia não
passava de um mito. O encobrimento do Holodomor sofreu um abalo
considerável com a política de “glasnost” (transparência) adotada em
1986 por Mikhail Gorbachev e ruiu de vez com a independência da Ucrânia
em 1991 e as comemorações do 60.º aniversário do Holodomor, promovidas
em 1993 pelo Governo ucraniano.
Entretanto,
começara a discutir-se se o Holodomor poderia ser classificado como
“genocídio”, termo cunhado em 1944 pelo advogado Raphael Lemkin, um
polaco natural de Lviv (hoje na Ucrânia). O debate sobre se o Holodomor
foi ou não um genocídio (quase todos os governos da Ucrânia independente
têm subscrito a tese do genocídio e têm tendido a empolar o número de
vítimas) e os ecos dessa controvérsia na política ucraniana, russa e
internacional e no meio académico são o assunto que preenche o capítulo
final do livro, “A questão ucraniana reconsiderada”. Neste, Applebaum
realça que “se o estudo da fome ajuda a explicar a Ucrânia
contemporânea, também explica algumas das atitudes da Rússia
contemporânea, muitas das quais se enquadram em padrões de comportamento
mais antigos”.

Raphael Lemkin (1900-1959), o criador do termo “genocídio”
Applebaum
lembra que “o Holodomor foi precedido por uma década daquilo a que hoje
chamaríamos um ‘discurso de ódio’ polarizado”, separando “cidadãos
leais” de “inimigos”, algo que o FSB – o sucessor da Cheka, na NKVD e do
KGB – continua a praticar hoje: “em 2014, os meios de comunicação
estatais russos descreveram as forças especiais russas que levaram a
cabo a invasão da Crimeia e da Ucrânia Oriental como ‘patriotas
separatistas’ em luta contra os ‘fascistas’ e ‘nazis’ de Kyiv”, um
discurso que foi articulado com “uma extraordinária campanha de
desinformação, repleta de histórias falsas” (Applebaum), uma estratégia
que tem vindo a ser aplicada em 2022.
Os mortos não merecem isto
No
Ocidente continua a haver quem dê crédito a esta combinação de
desinformação e retórica falaciosa e a propague ativamente e temos disso
um exemplo paradigmático no artigo de Pedro Tadeu no Diário de Notícias
de 31.03.2021, e que ganha muito em ser lido à luz da invasão da
Ucrânia pela Rússia em 2022 e às posições que o PCP – de que Tadeu é
militante – assumiu em relação a ela. O artigo intitula-se “O Holodomor
não se discute?”, mas o seu objetivo não é, claro, suscitar a discussão
sobre o Holodomor – que vem a fazer-se há décadas e tem ganho
fundamentação e solidez nos últimos 30 anos –, antes disparar uma salva
de granadas de fumo que permita iludir as responsabilidades do regime
soviético neste episódio monstruoso.
1)
Após confrontar estimativas díspares sobre o número de vítimas da fome,
Tadeu conclui: “portanto, sobre o Holodomor não há certeza sobre a
dimensão do crime”. A retórica de Tadeu é análoga à que Azeredo Lopes
empregou para minimizar o furto nos paióis de Tancos: se não sabemos
exatamente quantas pessoas foram mortas, o assunto é esvaziado de
relevância e, no limite, pode não ter havido morticínio algum.
Acontece
que a incerteza sobre o número de vítimas é comum a todos os
morticínios em massa, pois não costumam ser conduzidos de forma ordeira,
em repartições do Estado, durante o horário regular de atendimento e
mediante apresentação, pelas vítimas, de um documento de identificação.
Para mais, muita da incerteza em torno do Holodomor resulta, numa ironia
amarga, da mega-falsificação perpetrada pelo regime soviético para
ocultar o crime. Finalmente, a incerteza sobre o número de vítimas não é
total, sabe-se seguramente que foi da ordem dos milhões e a maioria dos
historiadores situa-a, hoje, entre 3 e 4.5 milhões – portanto temos uma
ideia precisa quanto baste sobre a dimensão do crime. Resta saber se 3 a
4.5 milhões de cadáveres serão suficientes para que Tadeu considere o
episódio relevante.

Elementos do Komsomol desenterram cereais escondidos pelos “kulak” num cemitério
2)
A segunda granada de fumo consiste em apresentar dois autores
ocidentais e “não marxistas” (logo insuspeitos, presume-se) – Robert
Conquest e Arch Getty – que consideram que não houve genocídio, e omitir
os que se pronunciam pelo “veredicto” de genocídio. Estas duas opiniões
permitem a Tadeu concluir que “sobre o Holodomor há mesmo muitas e
sérias dúvidas sobre se o genocídio propagandeado pelo anti-comunismo
realmente existiu”. Pela mesma ordem de ideias, como também há
cientistas e políticos que duvidam que o aquecimento global resulte, em
parte significativa, da queima de combustíveis fósseis, poderia
defender-se que “também há mesmo muitas e sérias dúvidas sobre se as
alterações climáticas têm, como, propagandeiam os ecologistas, origem
antropogénica”. Note-se o artifício de associar univocamente a tese de
genocídio a propaganda anti-comunista, como se alguém que não esteja
desvairado pela febre anti-comunista e seja capaz de pensar pela sua
cabeça não possa chegar ao mesmo “veredicto”.
A
falha mais evidente na segunda granada de fumo é Tadeu discutir se o
Holodomor foi ou não genocídio sem se dar ao trabalho de definir o que
ele e os historiadores que invoca entendem por genocídio. Como existem
várias definições (que Applebaum apresenta e discute) é claro que a
polémica “genocídio, sim ou não?” é irresolúvel, já que depende da
definição que cada um adotar – é por essa razão que se arrastam
indefinidamente as controvérsias em torno do massacre de arménios pelo
Império Otomano em 1915-17 ou a menos conhecida fome de 1930-33 no
Cazaquistão, também ela provocada pelo Paizinho dos Povos.

Países
que reconhecem oficialmente o Holodomor como acto de genocídio (a azul
escuro) e como um acto de extermínio (a azul claro)
Se
entendermos por genocídio um plano deliberado para exterminar um povo
até ao seu derradeiro elemento, o Holodomor não foi um genocídio, pois
Estaline não tinha por objetivo exterminar todo o povo ucraniano,
pretendia “apenas” matar o número de ucranianos suficiente para
convencer os restantes a “ganhar juízo” e submeter-se aos seus
desígnios. No limite, não fosse os ucranianos estarem tão apegados às
suas terras, rejeitarem a coletivização, oporem-se a que funcionários do
Estado soviético requisitassem o fruto do seu labor sem compensações,
insistirem em falar ucraniano e seguir costumes ucranianos, preferirem
ler a poesia de Taras Shevchenko às obras completas de Lenine e fazerem
questão de serem representados por ucranianos por si escolhidos, e
talvez a sanha de Estaline não os tivesse tomado como alvo e nem sequer
tivesse havido Holodomor.
A
tentativa de Tadeu para ilibar o regime soviético no Holodomor (ou,
pelo menos, de atenuar as suas responsabilidades) usa uma questão de
nomenclatura para nos distrair do essencial: pouco importa “se a fome de
1932-33 deve ser classificada como genocídio, crime contra a humanidade
ou simplesmente um ato de terror em massa. Qualquer que seja a
definição, foi um ato de agressão horrível, levado a cabo por um governo
contra o seu próprio povo” (Applebaum). Ao arrepio do que Conquest
concluiu em 1986, Applebaum sublinha que a perspetiva de “que a fome
aconteceu, que foi deliberada e que fazia parte de um plano político
para minar a identidade ucraniana está a tornar-se mais amplamente
aceite, tanto na Ucrânia como no Ocidente”. E isto basta para que possa
fazer-se um juízo sobre o Holodomor e a natureza do regime soviético.

Apreensão de cereais a camponeses, Timashyivsky, Krasnodar (região a sudeste do Mar de Azov), 1933
3)
A terceira granada de fumo é um clássico: “Todos os regimes em vigor,
democracias e ditaduras, provocaram genocídios e massacres”, escreve
Tadeu e logo alinha malfeitorias (reais e indiscutíveis) cometidas pela
“república americana” e pelo “colonialismo capitalista”, indo ao ponto
de equiparar “programas de eliminação física de apoiantes da oposição” a
“genocídio ideológico”.
Para
começar, é escusado torturar as palavras: genocídio diz respeito à
intenção de eliminar fisicamente todo um povo, isto é, um grupo de
pessoas cujas características físicas, língua e práticas culturais as
demarcam de outros povos (mesmo que parte dessas diferenças possam ser
imaginárias), não tem nada a ver com divergências ideológicas;
analogamente, a categoria de genocídio não abrange perseguições
motivadas pela orientação sexual, por calçar sandálias com peúgas ou por
ser fã dos Wham. Mas o que importa mesmo desmontar nesta terceira
granada é o seu propósito de esvaziar a discussão sobre as
responsabilidades do regime soviético no Holodomor com o argumento de
que todos os regimes, nalgum momento da sua história, cometeram
morticínios em massa. Uma vez que ninguém é inocente, encerre-se de
imediato o Tribunal Penal Internacional – quiçá todos os tribunais – e
cessem todos os juízos de valor sobre figuras e eventos históricos. Não
fosse Tadeu um crente no materialismo dialético e citaria Cristo:
“Aquele dentre vós que está sem pecado seja o primeiro que lhe atire uma
pedra”.
No
seu afã de ilibar Estaline e o regime soviético em geral, Tadeu não
hesita em criar o vácuo recorrendo ao relativismo ontológico (se há
discrepâncias nos dados, então não é possível saber nada) e ao
relativismo moral (se todos estão manchados pelo pecado, não há Bem nem
Mal e está-nos vedado fazer julgamentos). E conclui Tadeu, em toada
conciliatória e equânime, que o Holodomor e restantes massacres “devem
ser estudados com seriedade e lealdade, nunca com histeria ideológica.
Os mortos merecem-no e, se pudessem pronunciar-se, certamente
dispensariam a manipulação política em curso”, o que é uma bonita e
comovente forma de terminar uma peça de pura manipulação política.

Museu Nacional do Genocídio-Holodomor, em Kyiv
Final em aberto
Fome
vermelha encerra em tom otimista: “A Ucrânia, tal como o seu hino
nacional proclama, não morreu. Além disso, e no final de contas,
Estaline fracassou. Toda uma geração de intelectuais e políticos
ucranianos foi liquidada na década de 1930, mas o seu legado
sobreviveu-lhe […] A história da fome é uma tragédia sem final feliz.
Mas a história da Ucrânia não é uma tragédia”.
Estaline
pode ter fracassado, mas tem um continuador em Putin, que não professa a
ideologia comunista, nem defende a coletivização e a economia
planificada e que em vez de massacrar padres, pilhar mosteiros e
encerrar igrejas, é unha com carne com a Igreja Ortodoxa Russa, mas
herdou uma parte substancial da mentalidade soviética: a pulsão
imperialista (que vem, aliás, do tempo dos czares); a governação
autocrática (na Rússia do século XXI, boa parte da economia está
entregue a oligarcas, mas estes devem vassalagem a Putin e a liberdade
do mercado está fortemente condicionada pelo Estado); os métodos brutais
na repressão interna e na política externa; o desprezo pela vida
humana; o culto da personalidade em torno do líder infalível; a
limitação da liberdade de expressão; a aposta maciça na propaganda
(geralmente grosseira e incongruente) como forma de ocultar a iniquidade
dos métodos e o fracasso das políticas económicas; a invocação
sistemática do pretexto dos “sabotadores”, “agentes estrangeiros” e
“fascistas” para justificar atuações reprováveis e desculpar fiascos; a
recusa em reconhecer aos ucranianos uma identidade distinta dos russos; e
o receio de que “uma Ucrânia soberana, democrática e estável, ligada ao
resto da Europa por laços de cultura e comércio, [constitua] uma ameaça
aos interesses dos líderes russos” (Applebaum).
A
guerra de Putin contra a Ucrânia pode esconder-se atrás de
justificações como a desnazificação ou a contenção da expansão agressiva
da NATO, mas o seu verdadeiro objetivos é similar ao que Estaline
pretendia com a fome de 1932-33: aniquilar a identidade cultural da
Ucrânia e a sua aspiração à independência, de forma a reintegrá-la no
histórico império czarista-soviético que se estende do Báltico ao
Pacífico e cuja fragmentação, em 1991, Putin classificou como “a maior
catástrofe geopolítica do século XX”.
Nem
todas as bombas e mísseis russos que têm atingido hospitais, escolas,
salas de espectáculos, centros comerciais, zonas residenciais e
infra-estruturas de transportes e fornecimento de água e energia o fazem
em resultado da baixa precisão dessas armas (algumas remontam à era
soviética) ou da deficiente informação fornecida pelos drones e
satélites militares russos – muitas são disparadas deliberadamente sobre
alvos não-militares com o intuito de quebrar a determinação do povo
ucraniano em resistir ao invasor. Por outro lado, nos territórios
ocupados da Ucrânia, a russificação avança a todo o vapor: concessão
“expresso” da cidadania russa a qualquer ucraniano que a solicite,
substituição das redes de telemóvel ucranianas por redes russas,
substituição dos media ucranianos por media controlados pelo Estado
russo, imposição do rublo como meio de pagamento, substituição de
professores ucranianos por professores russos a quem foi atribuída a
missão de impor a língua russa e a versão russa da História. A fim de
conferir uma capa de legalidade e vontade popular a esta ofensiva contra
a identidade ucraniana, a Rússia já anunciou a intenção de, muito em
breve, realizar referendos nas zonas ocupadas, auscultando os seus
habitantes sobre o desejo de serem incorporados na Rússia, como foi
feito na Crimeia após a invasão russa de 2014 – a quem conheça a
história da URSS e da Rússia pós-comunista e a carreira de Putin não
será difícil adivinhar quais serão os resultados desses referendos.

Países que reconheceram os resultados do referendo de 2014 na Crimeia e que determinaram a integração desta na Federação Russa
O
atual Governo ucraniano tem sistematicamente qualificado como
“genocídio” aquilo a que o Governo russo chama “operação militar
especial” e que a maior parte do mundo designa como “invasão da Ucrânia
pela Rússia”. A eufemística escolha de palavras do Governo russo é
compreensível, pois o conceito de invasão implica a entrada de tropas
num país estrangeiro e a Rússia vê a Ucrânia como um território seu,
que, num momento de desvario, se atreveu a pensar que poderia ter uma
vida independente. Também a categorização feita pelo Governo ucraniano é
compreensível: a resistência às poderosas forças armadas russas só será
possível com forte e continuado apoio internacional e a qualificação do
agressor como “genocida” pode fazer a opinião pública e os governantes
de outros países sentirem-se mais inclinados a auxiliar o agredido e a
impor sanções ao agressor. A ironia é que um dos principais motivos
invocados pela Rússia para conduzir a sua “operação militar especial” é o
“genocídio” de que estará a ser alvo a população russófona do Donbas, e
é ainda mais irónico que esse “genocídio” seja atribuído a “nazis”
ucranianos, já que a extrema-direita é menos numerosa e influente na
Ucrânia do que na Rússia (onde, aliás, constitui parte da base de apoio a
Putin) e Putin é o político internacional mais admirado pela
extrema-direita europeia e americana (idolatria que encontra eco no
apoio que Putin tem dado a estas ideologias, uma vez que aos seus
desígnios convém uma Europa dividida e anti-europeísta e uns EUA
polarizados e em que a alt-right seja preponderante).
Acontece
que do suposto “genocídio” no Donbas propalado pela propaganda russa
não surgiram, até agora, provas minimamente credíveis, enquanto as
execuções de civis ucranianos e os bombardeamentos russos contra alvos
civis estão amplamente documentados e os desmentidos que o Kremlin tem
apresentado são frágeis e incoerentes. Porém, é duvidoso que as ações
russas façam parte de um programa de extermínio do povo ucraniano: tal
como Estaline em 1932-33, Putin não tem por objetivo liquidar todos os
ucranianos, pretende “apenas” matar o número de ucranianos suficiente
para convencer os restantes a “ganhar juízo”.

“Recordação
amarga da infância”, estátua de homenagem às mais frágeis vítimas da
fome de 1932-33, no Museu Nacional do Genocídio-Holodomor, em Kyiv
Notas finais:
1)
Entre 1917 e 1922, a polícia política bolchevique foi conhecida como
Cheka (receberia depois, entre outras, as designações GPU, OGPU, NKVD e
KGB), ainda que a sua designação formal fosse VChK (sigla de
Vserossiyskaya Chrezvychaynaya Komissiya = Comissão Extraordinária
Pan-Russa). Em português, opta-se por vezes pela grafia “Tcheka”, mas
nesta tradução é sistematicamente grafada (dezenas de vezes) como
“Techka”, que não tem qualquer precedente de uso em português ou nas
línguas da Europa Ocidental. E, todavia, os seus membros são designados
no livro como “tchekistas”.
2)
O “pood” é uma unidade de peso russa, frequentemente usada no comércio
de cereais e que vale pouco mais de 16 Kg (16.38). As contas na pg. 75,
que fazem equivaler 100 milhões de pood a “1.6 milhões de quilos” não
estão certas: são 1.6 milhões de toneladas.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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