MEDIÇÃO DE TERRA

MEDIÇÃO DE TERRA
MEDIÇÃO DE TERRAS

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

Em modelo aristocrático, a Esplanada dos Ministérios seria uma “Versailles nacional”

 


Banco paga menos imposto, porém o assalariado pagará mais para se aposentar  - Flávio Chaves

Charge do Clayton (O Povo/CE)

Roberto DaMatta
O Globo

“O primeiro escalão é o céu. Tudo é fornecido: casa, comida, carro com motorista, empregados domésticos e proteção jurídica privilegiada” – foi o que disse, numa extraordinária confissão, um ex-ministro de Estado. A conta bancária e o patrimônio crescem, ilustrou; e adivinhando minha curiosidade, foi direto ao assunto:

“Não é preciso roubar, porque você vira fidalgo e amigo do Rei e não gasta. É melhor que Pasárgada, porque há dinheiro e há o poder de nomear para cargos vitalícios. Não é poesia, é realidade!”

MUITA FRANQUEZA – Fiquei encantado com a franqueza. O ministro prosseguiu: “Com tudo pago, minha conta bancária cresceu bastante. Repito: não é preciso roubar, porque você e o Estado se confundem, você é um dos seus donos. Faoro está certo…”

O Estado tem um óbvio viés aristocrático, e quem nele entra participa desse modelo. Não tendo culpa de o Brasil ser assim, justifica-se.

Esse tempo como ministro, relembra nostálgico, foi maravilhoso, Quem “sobe” não quer “cair”. A gente logo descobre que os mais ferrenhos adversários estão tão felizes quanto nós porque “estamos por cima da carne-seca” e vivemos na Versalhes nacional: Brasília, a Cidade do Poder, onde frequentamos os mesmos restaurantes e clubes e somos todos vizinhos. Fomos eleitos, mas os altos escalões nos aristocratizam. No cume do poder, estamos isentos de culpa e, até mesmo quando roubamos, somos — como o Brutus shakespeariano — homens honrados. Pois as matrizes do privilégio que incluem favores nos põem acima das normas. Nosso gangsterismo é traduzido como erro legal ou perseguição política. Estamos por cima e acima da lei.

MÁQUINA ESTATAL – Aí você bispa como o Estado é uma máquina de gerar e engendrar prestígio, tranquilidade, bem-estar e riqueza — muita riqueza. A vida privilegiada nos círculos dourados que coroam a autoridade é soberba.

“Nesses píncaros” — rememorou — “eu aprendi a apreciar pintura brasileira com um, veja você, ferrenho adversário do meu partido. Aliás, os partidos e o fundo partidário nos servem muito bem. Nomeados, eleitos e empossados pelo voto do popular, não devemos coisa alguma a ninguém — sobretudo ao povo que nos elegeu”.

O problema é quando surge um inocente querendo um ideal e um programa. Ou quando se cisma com a tal corrupção, que nada mais é que um jeito de exercer o poder.

ELEGÂNCIA GARANTIDA – O sistema é generoso e aristocrático. Tudo do bom e do melhor. Veja bem: antes de ser nomeado, eu só usava gravatas ordinárias. Foi justo um colega do partido que mais me atacava quem me ensinou a usar gravatas italianas. Hoje, meus ternos são feitos no melhor alfaiate local. Aliás, a alfaiataria é um simpático ponto de encontro. Ali a gente descobre como o coleguismo neutraliza ideologias”. E prosseguiu:

“Relativizei a ideologia, trocando-a por um saudável realismo político, quando entrei na roda dos altos favores e de uma briosa reciprocidade. Foi quando vi que era melhor ser um bom ator do que aquele péssimo vilão que fui quando estava na oposição e não entendia o sistema. Meu maior aprendizado como ministro foi que o debate público é uma coisa, e a vida pessoal é outra.”

E QUEM ROUBA? – “Ah! Um último ponto. Se ficamos ricos sem roubar, imagine quem rouba e monta um esquema de roubalheira?”, indagou. “Esses ficam milionários de dinheiro e de votos, embora seja complicado combinar corrupção com ideologia. Daí a busca incessante do absolutismo imperial constitutivo do mandonismo nacional”. E finalizou:

“O problema maior, porém, é quando estamos em campanha e temos de realizar milagres contábeis para esconder nossos bens exponencialmente aumentados. Mas, como estamos todos no mesmo barco elitista, perdoamos aqueles que ainda não entenderam que o sistema é gloriosamente aristocrático”.

P.S.: Qualquer semelhança entre essa ficção e a vida real é mera coincidência.

Nenhum comentário:

Postar um comentário